sábado, dezembro 26, 2020

es muss sein

 "Mas o narrador é mais tentado a acreditar que, dando demasiada importância às belas acções, presta-se finalmente uma homenagem indirecta e poderosa ao mal, pois deixaria então supor que estas belas acções só valem tanto por serem raras, e que a maldade e a indiferença são forças motrizes bem mais frequentes nas acções dos homens. Essa é uma ideia de que o narrador não compartilha. O mal que existe no mundo vem quase sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida pode fazer tantos estragos como a maldade. Os homens são mais bons do que maus, e, na verdade, a questão não está aí. Mas ignoram mais ou menos, e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o vício mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza então a matar. A alma do assassino é cega e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível."

Albert Camus, "A Peste"


segunda-feira, dezembro 14, 2020

"porque me bloqueaste?"

Um cu diz-nos mais que mil palavras. Prende-se mais o olhar a um cu do que a uns olhos que chorem.
Mas um cu pode ser autoritário. Nunca ambicionou ser mais que alvo de desejo.
Se esperares algo mais dele, estarás a objectificá-lo. A contribuir para uma sociedade hierarquizada pejada de ismos.
A partir do momento em que te aperceberes que aquele cu está, tridimensionalmente, em todo o lado à tua volta, serás oprimido por não poderes olhar para mais nada. Mesmo que não o desejes, ou estejas farto de o desejar.
Terás de o ver, terás de o querer, terás de o perdoar e de lhe pedir perdão. Porque a rede sabe que já o quiseste. E isso chega para perpetuar a prisão.
O teu pensamento, tecido à medida para os teus sentimentos, não serve à realidade.
Ou adoras o cu, ou adoras o cu, ou mereces morrer.
Como um animal que deita os cereais antes do leite.

quinta-feira, dezembro 10, 2020

lullabye

 "Conta-me uma história", pediu ela baixinho, pouco antes de adormecermos.

Se essa noite fosse hoje, a história poderia bem ser esta:

"Pelas seis horas da manhã, todos estes jornais começam a vender-se nas bichas que se instalam às portas das lojas mais de uma hora antes da sua abertura, depois nos eléctricos que chegam, apinhados, dos arrabaldes. Os eléctricos tornaram-se o único meio de transporte e avançam com grande custo, com os estribos pejados. Coisa curiosa, no entanto, todos os ocupantes, na medida do possível, voltam as costas uns aos outros, para evitarem um contágio mútuo. Nas paragens, os carros despejam uma carga de homens e de mulheres cheios de pressa de se afastarem e de se encontrarem a sós. Frequentemente estalam cenas devidas apenas ao mau humor que se tornou crónico."

Albert Camus, "A Peste"