quarta-feira, dezembro 30, 2009

h.i.p.o.c.r.á.c.i.a.

Estava eu mais uma menina (bem bonita, por sinal) a dar duas de conversa de café, quando a dita menina me chama a atenção para a televisão. Uma rubrica ou reportagem da RTPN (a tv estava sem som e não perdi muito tempo a tentar descobrir o formato) que em baixo anunciava tratar sobre segurança rodoviária e os perigos da estrada. Ao telefone um senhor que era motorista. Entre parêntesis, informava-se que o senhor se encontrava em viagem. Está bem que eu não ouvi o que o senhor disse, se se justificou ou não, mas isto não é um tanto estúpido?

terça-feira, dezembro 29, 2009

Luso- Brasileiro

Eles chegam cá de folheto na mão e nome na ponta da língua. O discurso está ensaiado pelos seus antecessores, como eles, trazidos pelas mãos da fortuna (ou falta dela) àquela praia primordial: vieram para ficar. Para sonhar. Fazer sonhar sonhar. Suar os trapos que trouxeram consigo de um mundo tão admirávelmente e imenso novo que os apanhou num dia mau. Eles chegam para provar que são melhores que todos os outros. Mais eficazes que todos os outros. Mais leais. Mais esforçados. Mais milagrosos. Mais fantásticos. Que todos os outros... como eles. E no fim só não trepam mundo velho adentro se não puderem, pois não há prego que pregue uma língua a uma praia, que é mais um deserto, para sempre. E lá seguem. Os mesmos folhetos, as mesmas juras, os mesmos sonhos. Mudam os olhos que passam a ser mais atentos do que desconfiados.
E há os que ficam. Que por insondáveis razões do destino ficam. Ou pior: voltam. Voltam da sua fracassada segunda odisseia e convencem-se que os pés não devem correr com semelhante emoção mais do que um oceano, a menos que o corram outra vez para casa. Deixam-se tombar vencidos nessa praia, de cocos ressequidas, bananas mixurucas, olimpo de pés de barro, aonde eles tentaram fazer-se deuses de pés de pedra e pouco mais foram que joguetes testas de ferro. Mas que por insondáveis razões do destino ficam. E ficar às vezes também dá direito a ser mito. Por muito pequena e seca que seja a praia.

terça-feira, dezembro 22, 2009

Xmas rockfest 2009




Jove:
empaturrado do bacalhau?
entediado com a catrafada de filmes familiares que invadem as televisões?
farto de canções natalícias, e de música pimba nas ruas da tua cidade?

Então, não percas tempo! A oportunidade que precisavas está agora ao alcance das tuas pernas!
Dirige-te já ao Pavilhão de Feiras e Exposições de Penafiel mais próximo de ti, e vem queimar com o Xmas Rockfest 2009 os quilinhos a mais da Consoada!

sábado, dezembro 19, 2009

Esta Cidade



"Quer eu queira quer não queira
Esta cidade
Há-de ser uma fronteira
E a verdade
Cada vez menos
Cada vez menos
Verdadeira

Quer eu queira
Quer não queira
No meio desta liberdade
Filhos da puta
Sem razão
E sem sentido
No meio da rua
Nua crua e bruta
Eu luto sempre do outro lado da luta

A polícia já tem o meu nome
Minha foto está no ficheiro
Porque eu não me rendo
porque eu não me vendo
Nem por ideais
Nem por dinheiro
E como eu sou e quero ser sempre assim
Um rio que corre sem princípio nem fim
O poder podre dos homens normais
Está a tentar dar cabo de mim
Cabo de mim"

- Xutos

quinta-feira, dezembro 17, 2009

parabéns simpsons!


faz hoje, precisamente, 20 anos que os bonequinhos amarelos fizeram a sua primeira aparição na tv. matt groening és o rei!

sexta-feira, dezembro 11, 2009

"Que escuridão é esta, Senhor?"

fogo posto

um fogo fora de controla bebe toda a água que lhe atravessa no caminhão. sofrego, e chorão, cambaleia florestas fora, galga casa, pisa crianças e mulheres. dentro de si: um inferno que não arrefece. à sua volta: um gelo de noite que não o amedontra. e pequenos bombeiros, tementes a Deus e com pena desse fogo, bombeiam àgua à moda antiga, por mangueiras ínfimas, para o calar. o fogo sente essa água a ir directa ao seu coração. julga até que as mangueiras são as suas veias que batem. mas não são. a sua sede não cede. as suas lágrimas chamuscam o céu negro, gelado como cristal. os moradores morarão ao relento. o mundo vê-lo-á arder lento. o fogo chorará sangrento uma noite de trovões e o firmamento desabará uma chuva de cimento que só fará o fogo mais torpe e mais gigantesco.
ele deriva de si mesmo e multiplica-se. chamusca os pobres homens que o alimentam. e acarinham.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

deranged

"I drive all alone, at night,
I drive all alone.
Don't know what I'm headed for.

I follow the road, blind.
Until the road is dead end.
Night's in my veins, it's calling me,
Racing along these arteries
And law, is just a myth
To herd us over the cliff.

I follow the road at night,
Just hoping to find
Which puzzle piece fell out of me."


- Them Crooked Vultures

terça-feira, dezembro 08, 2009

Songs to say Goodbye pt 1

zephir song - RHCP
fortune faded - RHCP
wake up - RATM
bulls on parade - RATM
decode - paramore
retrovetigo - mr. bungle
omaha song - tomahawk
amour - rammstein
summer holidays vs punk routine - refused
bitter end - placebo
post-blue - placebo
blue - a perfect circle
spys - coldplay
mosquito song - QOTSA
lost in holywood - SOAD

sábado, dezembro 05, 2009

"I hear thunder but there's no rain
this kind of thunder break walls and window pane
I hear thunder but there's no rain
this kind of thunder"


- The Prodigy

terça-feira, dezembro 01, 2009

Contra-Informação

O Governo Português não dá descanso à sua fome de empreendimento. Aliado às mais altas instâncias financeiras lançou mãos á obra de um projecto que fará o TGV corar de vergonha: o Vinho de Lisboa.
É por demais reconhecida a fama da cultura vinícola nacional, mas falta-lhe a união e a dimensão devida no mercado internacional. O Governo visa assim, não só, colmatar uma falha da oferta no mercado do vinho de qualidade, como criar um produto unânime em torno do qual se possam agregar pequenos e grandes produtores, uma imagem de marca, omnipresente no mais pequeno tasco familiar, como em qualquer restaurante agraciado com 3 estrelas Michelin.
Porém, um 'ícone' não nasce da noite para o dia. Daí o Governo estar a recorrer a todos os meios ao seu dispôr para o conseguir. A primeira medida, porventura a mais dispendiosa e a que mais polémica poderá fazer surgir junto ao bolso dos contribuintes, é a criação da Zona Demarcada do Tejo. "Este Executivo não esperava facilidades quando aprovou este projecto. Como também não as esperava quando avançou com o Simplex, ou o Choque Tecnológico, mas agora atentem nos resultados: Portugal não está na cauda da Europa, mas na sua cabeça, como preconizava Fernando Pessoa.", declarou na conferência de apresentação á Comunicação Social, o Ministro da Agricultura, a quem foi atribuída, para este efeito, a pasta das Obras Públicas. Os primeiros estudos apontam para que a Zona Demarcada do Tejo se estenda desde Salvaterra de Magos até Vila Velha de Ródão, ao longo do Tejo, cujas margens e vales serão socalcados, adubados, e tratados pelas empresas mais especializadas da área e com obra feita em vários pontos do Centro e Sul do País, para que o terreno se torne tão perfeito à produção do novo vinho quanto seja possível humanamente conceber.
Mas o projecto não se fica por aqui. Está já em marcha a construção de inúmeras caves em Almada, para que também esta cidade-irmã da capital possa beneficiar desta iniciativa ab initio. "Foi necessária alguma diplomacia" declarou o Presidente da Câmara de Almada, "mas o Governo sempre se mostrou sensível á necessidade de enquadrar este projecto nas necessidades da Área Metropolitana. Como tal, este desenlance não é outro que não o esperado, sendo de louvar a rapidez das decisões e a união de esforços entre o sector público e o privado, que tanto às turras andam neste país." Associada à criação das Caves de Almada, na zona ribeirinha, está também a compra de uma frota de ferry-boats próprios para o transporte dos barris de vinho desde o início da Zona Demarcada, junto à fronteira, até às caves em Almada. Carinhosamente, já há quem lhes chame de barcos-restelo, em alusão ao Velho dos Lusíadas, céptico crónico do poder das embarcãções em ligar territórios irmãos. Os barcos-restelo, mais do que uma medida funcional, são vistos como uma cartada cheia de potencial turístico, estando planeada igualmente a construção de diversos cais nas maiores cidades ribeirinhas do Tejo, para que os turistas-do-vinho, possam subir ou descer o rio, desfrutando da sua paisagem inigualável e promovendo o desnvolvimento dos serviços de hotelaria e restauração um pouco por todo o interior centro. Aliás, se tudo correr conforme planeado, a Zona Demarcada do Tejo estará pronta em tempo recorde de ser considerada a mais nova Zona Demarcada do Mundo, e quem sabe candidatar-se nessa categoria a Património Mundial da UNESCO. Isto é, pelo menos, o que os entusiastas financiadores deste projecto almejam, sem o negar.
Óbvio, que tudo isto seria defraudado sem o marketing necessário, que aliás o própio nome do vinho quer assegurar. A marca 'Vinho de Lisboa' tem inclusive já uma designação em inglês, sonante como convém, para captar as atenções do tão apetecido mercado britâncio e anglo-saxónico: Olisbon Wine. "Orgulho-me de ter sido uma escolha minha. Têm de admitir que é orelhudo." declarou o Ministro da Economia, sacando com mestria umas gargalhadas à assistência e aos seus colegas de Governo.
A capital do país será, de resto, a capital do vinho homónimo. A abertura de diversas casas especializadas, a criação de um posto permanente de turismo sobre a 'Rota dos Restelos' (assim se chamará o percurso turístico da Zona Demarcada do Tejo, até às Caves de Almada), a divulgação em colóquios e concursos de vinhos na capital, concursos de design e cultura urbana sobre o Olisbon: tudo está já a ser planeado ao milímetro pelo executivo camarário de Lisboa.
A expectativa é alta, e ao que tudo parece os meios ao dispor também o são para não a defraudar. O país anseia saber o poder deste vinho nas suas mesas e nas suas vidas. Mas o sentimento reinante é de confiança. A apoio da indústria vinhateira, só não é unânime devido a alguns protestos de produtores de vinho duriense, que contudo não chocam com a posição oficial: venha a nós o Vinho de Lisboa!
E se até na esfera virtual já circula o lema "Sexo, Drogas & Rock n roll, Não! Fado, Futebol & Olisbon, Sim!", mais palavras para quê?
p.s.: e agora eu pergunto: seria isto assim tão inacreditável?

cut it! divide it all!



(a areia do tempo é dúbia. tem o condão de nos fazer embevecer face ao filme do que fomos, dum tempo em que sonhávamos ser melhores, em que sonhávamos ser heróis dos dias, das televisões, livros. mas tem o cruel poder de nos fazer esquecer algumas das tentativas frustradas no caminho para o conseguir. nunca devíamos ter de esquecer o poder que músicas como esta têm para nos definir. a nós e aos nossos passos. um tributo devido)

segunda-feira, novembro 30, 2009

necessário valores, mas...

"Helsing bem queria acreditar que as pessoas eram fundamentalmente boas, mas já vivera o suficiente para saber que só o eram se nisso vissem alguma vantagem. (...) As pessoas simpatizavam com as vítimas, mas fugiam delas, do seu cheiro repugnante a derrota."
Rui Zink in "O Monstro"

sexta-feira, novembro 27, 2009

Sulismo e elitismo até quando?

Já cheirava mal a Red Bull Air Race tanto tempo nas margens do Douro. As únicas coisas de gabarito que podem ficar mais de um ano no norte do país são os títulos que o F. C. Porto vai conquistando e ainda assim, a ferros.
Para mim o que motiva esta gente a recorrer a empresas públicas ou a empresas onde o Estado é grande accionista, é simples: gula económica de centralização. O evento tornou-se rentável, apetecível, uma imagem de marca. Logo não é de estranhar que as "altas patentes" o queiram levar para um mercado mais do seu agrado e aonde se sentem em "casa": Lisboa.
No mínimo, isto é jogo sujo. No máximo, mais uma patada no focinho do Norte empreendedor, que nem quando é bem sucedido tem direito à guloseima dos vencedores.

terça-feira, novembro 24, 2009

veritas

os poemas assomam como cogumelos negros do chão, bolas de veneno inconfundíveis. eu, na minha caminhada planeada para o sonho, fecho-lhes os olhos. não me importunarão. não os vejo. a mão direita arranha a pele do corpo até trazer pequenos bocados de carne consigo, mas não adianta: porque pela minha mão esses poemas não serão escritos. vou deixá-los a engolir-se uns aos outros até criarem floresta, estou-me a cagar.
o meu sonho vai ser o meu whisky solitário em noite de festa universitária e vai, quero lá saber se amanhã quando acordar tiver um sabor amargo de sangue e tabaco na boca. se isso for indício de que estou morto, melhor!: saiu-me o euromilhões, estava eu a dormir e safei-me de repórteres chatos.

terça-feira, novembro 17, 2009

"she's mostly gone. some other place.
i'm getting by in other ways.
everything they whispered in our ear
is coming true.
try to justify the things i used to do.
believe in you

watching you drown, i'll follow you down
and i am here right beside you.
the lights in the sky have finally arrived
i am staying right beside you.
(...)"


- NIN

segunda-feira, novembro 16, 2009

not die alone


"These are the stories of dead men!
These are the days of do or die!
Forgiveness seems a mile away and distant from your home,
But you must know that you will never die alone!"

- The Ghost Of A Thousand

sexta-feira, novembro 13, 2009

quando a montanha veio

e quando cem mil facas tomaram o lugar das suas costelas
e os homens o lugar o lugar dos seus pesadelos
adormeceu em paz.



"In a moment of lucidity, you said to me: «Push this boat from shore. What I am now is past and with every passing moment I resemble myself less and less. Don't let this be living for me».
In death, dignity."

Spartan
- Off Minor

quarta-feira, novembro 11, 2009

"Com o meu aval nenhum globalismo ideológico passará por cima do nosso singularismo sociológico."

Miguel Torga

segunda-feira, novembro 09, 2009

segunda-feira, novembro 02, 2009


Ponto 1 - António Sérgio, o homem-uivo da "Hora do Lobo" faleceu hoje de madrugada. A rádio e o underground musical devem-lhe muito mais que uma homenagem e que o esquecimento a que era remetido no passado recente.


Ponto 2 - Ao que parece o lançamento mundial de "Caim" em Penafiel apenas teve direito a livros da 2ª edição para venda. Os exemplares da 1ª edição estavam guardados para o lançamento posterior em Lisboa. "La hipocrácia"

domingo, novembro 01, 2009

quinta-feira, outubro 29, 2009

Joyeux Anniversaire Asterix et Obelix


Faz hoje 50 anos que pela primeira vez se ouvir falar dos irredutíveis gauleses, que teimam em resistir sempre ao invasor.

quarta-feira, outubro 28, 2009

'Knees, Toes, Teeth' - The Ghost Of A Thousand



"Fucking new romantics!
It's only rock-n-roll.
This is our religion
As heaven we'll never know!
No! I'm not delivered."


- The Ghost Of A Thousand
"Funes discernia continuamente os tranquilos avanços da corrupção, das cáries, do cansaço. Notava os progessos da morte, da humidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente preciso. Babilónia, Londres, Nova Iorque sobrecarregam com feroz esplendor a imaginação dos homens; ninguém nas suas torres populosas ou nas suas avenidas prementes, sentiu o calor e a pressão de uma realidade tão infatigável como a que dia e noite convergia sobre o infeliz Ireneo, no seu pobre arrabalde sul-americano. Era-lhe dificílimo adormecer."

- Jorge Luis Borges in "Funes ou a memória"

terça-feira, outubro 27, 2009

esta depressão que me anima



"Because we're all bogged down
And there ain't no fucking SOS
That going to save this sinking ship
(Our ship!)"


- Anti-Flag

quarta-feira, outubro 21, 2009

quantas moedas por pensamentos não deita um homem abaixo de uma janela para fumar um outro cigarro ou olhar para mais uma outra estrela e não pensar mais no assunto?

domingo, outubro 18, 2009

loto

"Este funcionamento silencioso, comparável ao de Deus, provoca toda a espécie de conjecturas. Uma abominavelmente insinua que há já séculos que não existe a Companhia e que a sagrada desordem das nossas vidas é puramente hereditária, tradicional; outra julga-a eterna e ensina que perdurará até à última noite, quando o último deus aniquilar o mundo. Outra ainda que declara que a Companhia é omnipotente, mas que só tem influência sobre coisas minúsculas: o piar de uma ave, as cambiantes de penugem e da poeira, os meios sonhos da madrugada. Outra, pela boca de heresiarcas, que nunca existiu nem existirá. Outra, não menos ignominiosa, considera que é indiferente afirmar ou negar a realidade da tenebrosa corporação, porque a Babilónia não é outra coisa senão um infinito jogo de acasos."

retirado de "A Lotaria da Babilónia", de Jorge Luís Borges


(a ouvir: Providence - Godspeed You Black Emperor!)

sexta-feira, outubro 09, 2009

Venham agora acusar os nortenhos de ter a mania da perseguição

Sumário: as regiões mais pobres do país a receber o guitinho todo e nem uma comissãozita para a santa cidade das sete colinas que as representa? ora essa, o Governo faz uma alteração legislativa que passa despercebida nos media, e tudo se compõe: a César o que é de César.

A notícia: http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1384860

quinta-feira, outubro 08, 2009

YOU NEED SATAN MORE THAN HE NEEDS YOU!

("it doesn't look like a man...it doesn't talk like a man...but does it fuck like a man?does it does it fuck like a man?")

quarta-feira, outubro 07, 2009

O céu deveria nascer para cada dia cinzento e carregado, de cenho franzido e ameaçador como o tem feito nestes dias. Não fosse a consequente chuva e podê-lo-ia fazer para sempre.

terça-feira, outubro 06, 2009

Nuvens carregam o céu, a chuva regressa e o vento não é agradável, mas imperioso e resoluto. Finalmente Outono

segunda-feira, outubro 05, 2009

dia 5

Não descurando a importância dos 99, o meu repto vai porém para os 866. Pés no presente sim, mas a História ainda vale o que vale: sermos um Estado e não um estado.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Fora de Serviço










Para quem tinha o desejo secreto de ver aquela que já foi carinhosamente conhecida como a "3ª melhor banda punk Portuguesa", e nunca teve oportunidade. Como tudo o que é fantástico, acabou cedo demais. A minha juventude é feliz por os ter visto umas poucas de vezes e insatisfeita por não ter visto mais.

"ULTRAMAR foi a guerra onde o meu pai se fodeu!"

segunda-feira, setembro 28, 2009

the shame of mistakes repeated

carimba! arrasta, puxa, carimba! arrasta, puxa, carimba! arrasta, puxa, carimba! arrasta, puxa, carimba! arrasta, puxa, suspira, carimba! arrasta, puxa, carimba! arrasta, puxa, suspira, carimba!, arrasta, suspira, puxa, carimba! arrasta, carimba! arrasta, carimba! puxa, suspira! carimba! carimba! carimba! arrasta, puxa, carimba, arrasta, puxa, carimba, arrasta, puxa, carimba, arrasta, puxa, carimba, arrasta, puxa, carimba, arrasta, puxa, carimba, arrasta, puxa, carimba, arrasta puxa, carimba! carimba! carimba! carimba! carimba! carimba! carimba! caramba! o choque.

pensa: 'fui bem fodido'

sexta-feira, setembro 25, 2009

um dia como leão



qual não é a minha surpresa ao descobrir que esta 'menina dos meus olhos' já tinha videoclip. é assim mesmo: músicos bons e sem emprego: juntem-se!

quarta-feira, setembro 23, 2009

New Toy



tivemos um acidente, grave, pesadas as circunstâncias, grave, julgo. ao darmos, acidentalmente com a cabeça uma na outra, chocamos e afastamo-nos ao dobro da velocidade da que colidíramos. o nosso cérebro amolgava dentro do nosso crânio nesse momento ido. tendo dado o alerta, largou na nossa cabeça sinos de igreja a rebater e abater missas sem fim e um mal estar do tamanho do mundo instalou-se. haviam lágrimas nos olhos e ninguém ousou levantar palavra num silêncio da espessura de um edíficio de betão.

"baby's got a new toy, in a green purse
baby's got a new toy, in the back yard"

segunda-feira, setembro 21, 2009

Graves



"Black cross burns,
Above our graves

Blood hands rest,
Above our graves

Lie with baited breath,
I will not wait for death,
We all share the same fate,
In our graves

Calling all you helpless souls ,
Throw down your swords and tools,
And strike a conversation about my blood hands,
There are no words to say "I just killed a man."


- Gallows

sexta-feira, setembro 18, 2009

50 melhores?

os 50 melhores albuns desta década para o site Gigwise foram publicados no site da blitz e os resultados são no mínimo questionáveis. senão vejamos: soad não é referenciado, o de-loused in comatorium só aparece em 39º(?), o st anger merece bem mais figurar no ranking que o death magnetic, o renegades de ratm é de 2000 e era justo figurar na lista, o elephant de white stripes (o da seven nation army) foi ignorado, bem como o songs for the deaf dos qotsa. howeva! parecem-me mais do que merecidos: o kid a e o relationship of command nos 5 primeiros, a boa colocação do whatever people say i am, i am not, e o velhinho lift your skinny fists like antennas to heaven ter sido lembrado é comovente. de qualquer forma, convidava a fidelíssima plateia deste mui nobre blog a palpitar sobre a lista que se segue


50. Vitalic - OK Cowboy (2005)
49. Doves - Lost Souls (2000)
48. Roots Manuva - Run Come Save Me (2001)
47. Brand New - The Devil and God Are Raging Inside Me (2006)
46. Slipknot - Iowa (2001)
45. Interpol - Turn on the Bright Lights (2002)
44. Amy Winehouse - Back to Black (2006)
43. The Horrors - Primary Colours (2009)
42. Modest Mouse - The Moon and Antarctica (2000)
41. Metallica - Death Magnetic (2008)
40. Battles - Mirrored (2007)
39. The Mars Volta - De-Loused in the Comatorium (2003)
38. Muse - Origin of Symmetry (2001)
37. Wilco - Yankee Hotel Foxtrot (2002)
36. Grandaddy - The Sophtware Slump (2000)
35. Sigur Rós - Takk (2005)
34. TV On The Radio - Return to Cookie Mountain (2006)
33. The White Stripes - White Blood Cells (2001)
32. Joanna Newsom - Ys (2006)
31. The Avalanches - Since I Left You (2001)
30. Dizzee Rascal - Boy In Da Corner (2003)
29. The Streets - Original Pirate Material (2002)
28. Godspeed You! Black Emperor - Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven (2000)
27. The Flaming Lips - Yoshimi Battles the Pink Robots (2002)
26. Boards of Canada - Geogaddi (2002)

25. Sufjan Stevens - Come on Feel the Illinoise (2005)
24. PJ Harvey - Stories From the City, Stories From the Sea (2000)
23. Queens of the Stone Age - Rated R (2000)
22. Eminem - The Marshall Mathers LP (2000)
21. Elbow - The Seldom Seen Kid (2008)
20. MGMT - Oracular Spectacular (2008)
19. Daft Punk - Discovery (2001)
18. LCD Soundsystem - LCD Soundsystem (2005)
17. Lil Wayne - Tha Carter III (2008)
16. The Libertines - Up the Bracket (2002)
15. Outkast - Skantonia (2000)
14. Arctic Monkeys - Whatever People Say I Am, That's What I'm Not (2006)
13. Fleet Foxes - Fleet Foxes (2008)
12. Animal Collective - Merriweather Post Pavilion (2009)
11. The National - Boxer (2007)

10. M.I.A. - Kala (2007)
9. Burial - Untrue (2007)
8. Arcade Fire - Funeral (2005)
7. The Knife - Silent Shout (2006)
6. Primal Scream - XTRMNTR (2000)

5. At The Drive-In - Relationship of Command (2000)
4. Radiohead - Kid A (2001)
3. Jay-Z - The Blueprint (2001)
2. The Strokes - Is This It (2000)
1. Radiohead - In Rainbows (2007)

quinta-feira, setembro 17, 2009

Quis custodiet ipsos custodes?

E França lá aprova o seu keene act.

http://www.lemonde.fr/technologies/article/2009/09/16/hadopi-2-validee-en-l-etat-par-la-commission-mixte-paritaire_1241473_651865.html#ens_id=1232569

"No. Not even in the face of Armageddon. Never compromise."

quarta-feira, setembro 16, 2009

caveleiros do sidónio

"NO ONE'S GONNA TAKE ME ALIVE,
THE TIME HAS COME TO MAKE THINGS RIGHT,
YOU AND I MUST FIGHT FOR OUR RIGHTS,
YOU AND I MUST FIGHT TO SURVIVE!"


- Muse

quinta-feira, setembro 10, 2009

Crying Lightning



como pudeste ver na fita, o sol macabro e velho em pano de fundo, também eu naveguei assim, recortado e sozinho. lasquei uma caixa de madeira dum bloco de basalto e beijei-o, abençoando-o para conter o relâmpago mais belo dos tempos. o relâmpago que todos nós vemos na hora derradeira do sonho. o relâmpago que o mundo viu quando o seu pai nasceu. o relâmpago que brotou o nosso amor de uma fonte seca. eu apanhei esse relâmpago, e teço como posso um esconderijo tão perfeito quanto ele. mas a eterna iminência da noite assusta de segundo em segundo. e o relâmpago chora.

domingo, setembro 06, 2009

Ignition 09



Cabecilhas: The Ghost Of A Thousand, Linda Martini, Draft, Stepback, Cintura

Marketing: Os primeiros: alta promessa do novo punk/hardcore britânico; bom som, bom espectáculo, melódicos orelhudos, rasganços á rock n roll velha guarda; boas malhas, agressividade q.b.; novos gallows, 'so they say'. Os segundos: dispensam apresentações em solos lusos; a menina dos olhos do público alternativo tuga, das letras à ao noise progressivo. Os terceiros: promessa da rockalhada francesa, desmentindo o filme 'Os Sonhadores' quando diz que França não produz grandes bandas rock. Quartos e quintos: a prata da casa em alta, nos respectivos campeonatos: hardcore e novo-pop respectivamente; quem acha que em casa de ferreiro, espeto de pau, está na hora de ouvir e desenganar-se.

A História: Ignition Penafiel surfa desde 2006 em terrenos alternativos e pouco previsíveis. Um pouco disto, um pouco daquilo: cunho da Cosmonaut Productions e Indústria Rock, com o apoio de primeira água da Câmara Municipal de Penafiel. A aposta é (cega) nas bandas que estão prestes a dar à chave e arrancar o travão. Até agora 0 despistes: o que não é comum nas autoestradas (musicais) portuguesas, muito menos para um festival de baixo orçamento como este, que desde o início abdica do 'fortuito' rótulo de 'oh mas outro festival'.

Como ajudar o Ignition: Indo lá. 3€ de entrada. Paga-se bem mais por um concerto de qualquer um dos cabeças-de-cartaz.

Sites: http://www.myspace.com/ignition.penafiel; http://www.ignitionpenafiel.com/

Repto: Bota?

sábado, setembro 05, 2009

o carniceiro

o carniceiro segurava um cutelo e estava morto por dentro. impávido, em branco como a bata que tinha da cabeça aos pés: salpicada sangue. os olhos assépticos fitavam a porta de correr, à espera de uma pessoa certa. alguém que o levasse para uma sala de espera calma e subsequentemente para casa, o percurso inverso do de um doente. mas aonde descobrir comida para semelhante esperança? a sua profissão exigia-lhe imparcialidade e cegueira. deslumbramentos zero. sem problema. mas ser cego não o impediu nem o impede de sentir o calor do sangue a fugir-lhe das mãos, nem de ouvir os gritos de quem sucumbe às suas mãos.

terça-feira, setembro 01, 2009

a cena toda

"Vocês são a razão principal
Pela qual
Batalhamos diariamente
Porque atrás vem sempre gente
Do litoral ao interior
Vamos a todo o vapor
Não poupamos em esforços para partilhar o valor
Entre B-Boys e MC's
Writers e DJ's
Latas e vinyls
Canetas gastas e rascunhos de papeis
Nós mantemo-nos fiéis desde 96
Incentivando putos como mandam as leis
Mano sei que nos sentes tambem te sentimos por perto
Vemos em ti o reflexo imenso deste projecto
Nós somos tantos
E ao mesmo tempo tão poucos
Porque ainda há quem insista fazer menos e ser mais que os outros
É fodido enfrentar este fogo agressivo
Se não fosses tu, decerto não estaria vivo
Podes contar comigo tamos juntos nesta guerra
Na paz, e na alegria e na tristeza
É uma merda
Porque Deus quando parte
É para todos igual
Não cabe a homem nenhum
Decidir o nosso final
Vamos em frente
Rumo ao sol nascente
Em busca de boa gente
Antes que o cinzento na cidade se torne permanente
Quem nos tentar dividir não deve tar consciente
Das graves consequências que isso acarreta para a mente
Nós construímos o futuro no presente
Dealema está de volta com a mesma cara de sempre"


- Dealema

quinta-feira, agosto 27, 2009

dope show

"When you walked through the door
It was clear to me (clear to me)
You’re the one they adore, who they came to see (who they came to see)
You’re a … rock star (baby)
Everybody wants you (everybody wants you)
Player… Who could really blame you (who could really blame you)
We're the ones who made you."


- Eminem

terça-feira, agosto 25, 2009

'The Hope That House Built'



"In the end everybody wins as long as we remember
There's a reason for incredible wealth (incredible wealth)
Incredible luck (incredible luck)
Don't despair life is just a dream and nobody can judge us
If we choose to face ingradually (ingradually)
Makes everything right (means nothing can beat us)

Come join, come join our hopeless cause
Come join, come join our lost cause
Come join, come join our hopeless cause
Come join, come join our lost cause. (...)"

segunda-feira, agosto 17, 2009

silver

encontramos novas formas de ritmo neste contra-relógio casio pregado ao pulso esquerdo que corre louco desde a sua longínqua forja. corre como um fio de lava, projéctil líquido, tipo candeeiro chique caído, sem cima, só com um baixo, que foi as partida. encontramo-nos em novas formas de choque à medida que nos desbobinamos rumo à frente e ao que vem depois dela, em espirais, sempre, alongadas como um adn imemorial.


"Come on, Rick, I'm not a prize.
I'm not a cynic or one of those guys.
Come on, Rick, I'm not a rope,
Now pull your socks up.
Come on, Rick, I'm not a child,
I'm not special or one of a kind.
Come on Rick, I'm not a drunk,
I know my own worth,
I'm an adult!
I'm an adult!

A common purpose,
A common goal."


- Future Of The Left

quarta-feira, agosto 12, 2009

'Recuo Táctico'

"Deitei-me num lugar onde
havia amena névoa sedosos livros musical solitude
as portas uma a uma aferrolhadas
as janelas sem uma fenda por cerrar
lá de fora nem o vento nem a ira nem o dia
aqui só noite
só noite nos meus sentidos calafetados de usura
esperando o sono perfeito que há-de vir.

Música incensos livros o vazio pleno
finalmente o vazio pleno
a desabitação interior de um cérebro dissolvido
o sono a vir o sono a vir
quase liberto da vigília insuportada.

Mas no instante mais sublime
do refúgio anestesiador
me achei repelindo a música o silêncio os livros
o pavor do vazio pleno já dentro do sono sem nele estar
a cresta amarga esfolando-me a garganta asfixiada
os braços sem espaço os olhos espavoridos
e então num salto desferido e brusco
devolvo-me à esgazeada aragem
da rua tumultuada
onde deixo de ser ninguém
para ser nada"

- Fernando Namora

segunda-feira, agosto 10, 2009

Façam o favor de ser felizes


Um sentido e profundo adeus a Raúl Solnado, o homem que ensinou gerações de portugueses a rir de boas piadas.

quinta-feira, agosto 06, 2009

público?

Fiquei ontem a saber quanto é que a minha mãe gastar com os livros escolares da minha irmã. Algum palpite? Sendo que a minha irmã vai para o 7º ano e anda duma escola pública em Penafiel? Nada mais, nada menos que 300 euros. Isto sem contar com o material escolar e de desenho. Nem eu gasto tanto em livros. 300 euros é apenas o ordenado de muita boa gente que, como os meus pais, pode ter mais que um filho a estudar. Imaginemos que são gémeos, até.
É este o ensino público público português. Só espero que a qualidade de ensino esteja ao nível da qualidade (expressa no preço) dos livros.

quarta-feira, agosto 05, 2009

circus

não te intrometas e espera que o jogo acabe. traz-me um copo entretanto. os outros meninos estão ansiosos por me ver jogar, não os quero deixar mal, vou arrasar. mas esquece, que não entendes esta minha corrida. traz um copo para mim, só para mim, para mais ninguém: os outros que ouguem ao olhar para mim, por não terem ninguém como eu te tenho a ti. não é? mas não te metas. ai de ti! se te atravessas no meio deste jogo ou no meio do meu caminho. é que juro que te mato! pronto, não chores, sabes bem que te vou dizer que não disse por mal e que vou dizer que só te quero bem. mas entretanto vai lá, e volta quando eu te chamar.


«We play house and swear to end
This congenital heart defect here
But it won't end with me
Because all I know about love
I learned from household names
And voices that keep me up at night
And I'll teach my son about love with household names
And voices to keep him up at night
A son named self-fulfilling prophecy
A son named self-defeating prophecy
Before I know it I hear my own son's voice screaming:
'You. I learned by watching you.'» - Off Minor

terça-feira, agosto 04, 2009

got to love the people who set themselves up for disaster

jovens que traçavam finos ao fim da tarde traçam sacolas em paragens de autocarro. não têm horário de partida, apenas horário de chegada. estãlo por conta do mundo, a entidade que gere os horários dos autocarros e a frequência com que passam uma única vez por cada pessoa em dado e certo lugar. não adiantam consumições: está feito, está feito. os jovens que traçavam finos ao fim da tarde e os bebiam com gula de óculos de sol postos estão traçados para morrer. porque a rota do autocarro está traçada por cima deles. para daqui a 5 minutos e eles sabem-no. e vão continuar à espera.

domingo, agosto 02, 2009

Who Watches The Watchmen?

Há coisas que acabam por me queimar no âmago. Chamo-lhes desde fantasmas pessoais a inimigos privados. Mais vulgarmente denomino-as por manias e expresso-as com um 'já estou a bater mal'. Mas essas coisas, são coisas que me deixam de facto a bater mal. Sobretudo quando me fazem relembrar uma máxima sacralizada por um amigo meu: não há super-heróis. Não há. Não existe semelhante. Não há vigilantes em lado nenhum. Quanto muito existe gente de moral elevada que luta, por força das circunstâncias, encapotada para lutar um dia mais. Porém parece que dia após dia aparece um ou outro super-herói da Marvel, abençoado pelo toque da aranha e lança teias a tudo e a todos os maus da fita e aos que ainda se fizerem ao seu caminho. Parece que proliferam. Que são mais cás mães. Na minha faculdade então, Jesus!, Messias para todos os gostos e feitios. Melhor: todos de mãos limpas e bem lavadas. Deixa-me inclusive fodido o tempo que se perde com futilidades do género prémios canotilho, os 'argumentos' na SdD completamente 'inocentes' para fomentar o 'debate', o conteúdo a que se fecha os olhos em troco de uns bons flyers e bom discurso de cacique. Chateia-me que gente tão inteligente se contente com tão pouco, e que os grupos de intelectuais de uma faculdade de Direito se consigam concentram tão esforçadamente em batalhas de egos e se esquecerem das verdadeiras pessoas (e variadas pessoas) que lá andam e estudam. muitos a chamar a si a responsabilidade de defender muitos mais, pelos mais diferentes meios, e a coisa mais transversal que há nessa faculdade é uma barraca na Queima. O que me quer parecer é que os defensores não sabem quem defendem, e que quando vigiam não têm quem os vigie. No entretanto, o que tem mesmo de ser feito (é simples!) não se faz. Se calhar continuamos a ser apanhados de calças em baixo quando os nossos Defensores faziam tudo o que podiam por nós e escusam-se a responsabilidades, não prestam declarações, continuam de cara tapada e voam para longe directos a mais um salvamento do dia

Quem tiver paciência para ler nas entrelinhas e fazer um mea culpa, poupava-me a conversas futuras sobre o tema.


"Looked at the sky through smoke heavy with human fat and God was not there. The cold suffocating dark goes on forever, and we are alone" - in 'Watchmen'

"O espelho"

«O senhor Valéry não era bonito. Mas também não era feio.
Há muito tempo atrás havia decidido trocar os espelhos por quadros de paisagens. Desconhecia, pois, o seu aspecto exterior actual.
O senhor Valéry dizia:
— É preferível assim.
E explicava:
— Se me visse bonito ficaria com medo de perder a beleza; e se me visse feio ficaria com ódio às coisas belas. Assim, não tenho medo nem ódio.
E sem ser bonito nem feio, o senhor Valéry passeava pelas ruas da cidade, olhando, com atenção, para as pessoas com quem se cruzava.
Ele explicava:
— Se me sorriem percebo que estou bonito, se desviam os olhos percebo que estou feio.
Teorizando dizia ainda:
— A minha beleza é actualizada a cada instante pela cara dos outros.
Por vezes, depois de se cruzar com alguém que desviava os olhos, o senhor Valéry, percebendo, passava a mão pelo seu cabelo, penteando-se ao mesmo tempo que procurava um outro rosto dentro de si próprio, agora mais agradável.
O senhor Valéry comentava, em jeito de conclusão:
— O espelho é para os egoístas.
— E o desenho? — perguntaram-lhe.
— Hoje não há desenho — respondeu o senhor Valéry, e despediu-se logo de todos com um movimento brusco, mas gentil.
As pessoas gostavam do senhor Valéry.»

- in 'O Senhor Valéry' de Gonçalo M. Tavares

sexta-feira, julho 17, 2009

leva-me pela mão
e olhos tapados
nestes tempos de mentira
enjoei,
como uma criança pela montanhas,
leva-me, semi-adormecido,
pelas minhas entranhas
que estão vomitadas sem sentido
guia-me.
guia-me para fora daqui.


'Now!
The writing’s on the wall
It won’t go away
It’s an Omen
You just run, an automation
Now!'

quinta-feira, julho 09, 2009

quatre années aprés







vão deixar saudades, licha e comandante


HASTA SIEMPRE - SOLEDAD BRAVO
Reflexão:

Sendo que o ginásio surge como (palavras dos media, não minhas) o templo dos tempos modernos, onde se exorcizam os demónios gordurosos do corpo e se cimenta, bloco a bloco o culto da perfeição e maximização do físico, e os donos dos health clubs atafulham os bolsos com carcanhol, surge o reverso da medalha. Um curioso reverso. Pois não existe Porto sem Penafiéis, não existe Nova Iorque sem arranha-céus na América Latina, surgem os ginásios de fisioterapia. Fisioterapia: essa salvação dos aleijados pobres e da classe média. O fisioterapeuta aparece como o personal trainer de muita gente, misto de psicólogo, padre e professor de educação física de pessoas que não foram a tempo de saber o que era educação física na escola, ou o que era a escola. Entre passadeiras, bicicletas, levantamento de pesos, massagens, esses ginastas sem escolha revezam-se entre camas e aparelhos, não na busca por um corpo perfeito, mas por um corpo melhor. Não querem o céu, apenas a terra. Não querem uma religião, apenas o curandeiro. E à hora marcada não falham a entrada, à hora de saída lá seguem exaustos para o quotidiano impaciente, que não terá misericórdia dos seus tendões ainda por aquecer ou do percurso que terão de mancar. E por lá ficam semanas, meses, anos, ao ponto de deixar de ver ali uma espécie de urgência de hospital a que se recorre em última instância e com vista a uma recuperação tão rápida quanto possível, para ali ver um ginásio, de facto, com rotinas predefinidas, para superar o corpo que nunca é superado, sem ser precisa a ajuda de ninguém. Dá que pensar.

domingo, julho 05, 2009

vato

Despedimo-nos aqui, que eu não irei contigo mais além. Parte, como quem larga os pais idosos num lar de terceira idade que por agora fará de parque infantil. Fala com a tua companhia do lado que nunca te falha, que te apoia nos momentos difíceis e, telepaticamente, te aconselhou na melhor decisão: a de me deixar para trás. Mas eu também ouvi isso. E antecipei-me. Vou fugir a esse imposto, antes que mo imponhas. E o meu nome será tão lindo e incómodo quanto a fotografia de um tio morto por tempos difíceis em tempos idos.

The Departed Tango - Howard Shore

sábado, julho 04, 2009

london is the reason

"- A molécula, palerma, o que é que havia de ser?
- Que molécula?
- Sei lá. É como em Direito, mas pior. Palavras que eu nunca tinha ouvido e espero não voltar a ouvir. Feitas para reduzir os leigos ao silêncio. Para os manter no seu lugar."


in 'O Fiel Jardineiro'

sexta-feira, junho 26, 2009

grey



"I'm going out tonight,
Got an ache in my guts and an my stomachs alight,
So crack your fucking knuckles and straighten your spine,
We are the night,

I'm going out tonight,
Got a burning in my blood that just ain't right,
So I'll tear my fucking muscles while I watch the time,
We are the night

I'm lying with my back to the floor,
I ain't ever been in so much pain before,
If I said I wasn't scared I'd be a fucking liar,
My body's burning like it's on fire

Sweating like I ain't before,
First it was a cold, now it's a fever for sure,
Forget singing I can barely speak,
I think I'm fucking dying, I can't breathe

And I want to be,
Anyone in the world but me
Trapped in the body of a man defeated,
I am the shame of mistakes repeated

There will be no more grey,
We have finished digging the grave,
We are the new black,
And we're as serious as a heart attack."


- Gallows

quarta-feira, junho 24, 2009




"Well it's by the hush, me boys, and sure that's to hold your noise
And listen to poor Paddy's sad narration
I was by hunger pressed, and in poverty distressed
So I took a thought I'd leave the Irish nation

Here's to you boys, now take my advice
To America I'll have ye's not be going
There is nothing here but war, where the murderin' cannons roar
And I wish I was at home in dear old Dublin
"

terça-feira, junho 23, 2009

escumalha

"and all the kids all the kids that want to make the scene
here in north america
when our young kids get to read it in your magazines
we don't have those
so where's the love where's the love where's the love where's the love where's the love tonight?
but there's no love man there's no love and the kids are uptight
so throw a party till the cops come in and bust it up
let's go north americans
oh you were planning it i didn't mean to interrupt
sorry
i did it once and my parents got pretty upset
freaked out in north america
but then i said the more i do it the better it gets


let's rock north america

we are north american scum
we're from north america
we are north american scum
we are north american"

sábado, junho 20, 2009

cálculo da legítima

Pedro 'Jorge Costa' Ribeiro partilha o que faz gastar o seu tempo na vez do estudo:

Grey Britain - Gallows
Black Ice - ACDC
Into The Wild OST
Party Animals - Turbonegro
Educação Visual - Valete
Watchmen OST
The Departed OST
And Where Come The Wolves - Rancid
The Distillers - The Distillers
Church Mouth - Portugal The Man
Censored Clors - Portugal The Man
Tonight: Franz Ferdinand - Franz Fredinand
LCD Soundsystem - LCD Soundsystem
Vaya - At The Drive-In
Segundo - Toranja
Firescroll - Primitive Reason

quarta-feira, junho 17, 2009

variações em bintoito maior

Almeida Costa dizia: Não estudem por apontamentos de outras pessoas porque terão de contar com as asneiras que eu possa ter dito, mais as asneiras da pessoa que escreveu os apontamentos, mais as vossas quando os lerem.

César Teixeira diz: Belho, imagina: o prof. pode pensar uma merda, dizer outra merda, o gajo que tira apontamentos ouve uma merda, que não é a merda que o prof. disse, e escreve outra merda diferente do que ouviu, e depois vai um gajo ler esses apontamentos e lê uma merda que lá não está, percebe uma merda diferente da merda que leu e no exame ainda põe uma merda diferenteu da que entendeu. E na volta diz no exame a merda que o prof. pensou em primeiro lugar e dá resposta certa!

Pedro Ribeiro diz: Ou então fode-se...

César Teixeira diz: Ou então fode-se, mas já viste se isso acontecia?

terça-feira, junho 16, 2009

projecto - onze de junho zero nove

(Othar Turner And The Rising Star Fife And Drum Band - Shimmy She Wobble)


Meu amor,
este é um estudo
de uma equação
para a dor.
O mudo
sem noção
da sistematização
das cordas vocais.
Eu rugi com animais
eu corri com lobos,
macho ómega,
bombeiro depois dos fogos
e que apenas é gente,
salva gente com gente na mão,
meu amor,
como eu te salvaria
do meu coração,
como eu te diria
na alvorada de cada novo dia
a minha amda insatisfação
de alegria
(...)

sexta-feira, junho 12, 2009

same old story



Nem uma palavra sequer.
Não voltarei à mesma história de sempre.
Ergo punhos para o mar, agora.
Não esperes por mim.

Não voltarei com a mesma história.
Não vou tocar no mesmo assunto.
Ergo punhos para o mar, agora.
Não esperes por mim.

quarta-feira, junho 10, 2009

sexta-feira, junho 05, 2009

cap

"A mulher ficou desesperada.
- E entretanto o que comemos - perguntou, e agarrou coronel pelas bandas do casaco do pijama. Sacudiu-o com energia.
- Diz lá, o que vamos comer.
O coronel precisou de setenta e cinco anos - os setenta e cinco anos da sua vida - minuto a minuto - para chegar a esse instante. Sentiu-se puro, explícito, invencível, no momento de responder:
- Merda."



in "Ninguém Escreve ao Coronel"

segunda-feira, junho 01, 2009

tell me no lies

"i can love myself!"

ele cravava cigarros para esfarelar e fazer o tipo de cenas que ele sabia fazer como ninguém mas que por isso mesmo não oferecia a ninguém. também não havia quem lho pedisse. ele por ele passava o seu bom bocado sem passar cartão desde que lhe arranjassem um bocado de cartão para filtro. e o dia fora-lhe uma canseira! se aquela prensa caía em cima de alguém podia magoar a sério. ele era tão distraído e parecia que nada corria conforme ele queria. sentia-se um desperdício porque apesar de tudo ninguém (o mesmo ninguém de à bocado)o podia acusar de ser má pessoa. ele preocupava-se mesmo com os outros mas não queria saber apenas porque era muito susceptível e as coisas que o deixavam a pensar deixavam-no a achar que existiam mesmo dias em que parecia que tudo corria mal. tudo, do início ao fim do dia. e nem o ser word funcionava para poder largar, pelo menos, algumas das suas mágoas, desabafos bafados entre passas presas nos dedos que seguravam a cara. não tinha idade para ter juízo. só mesmo aquele eucalipto lhe valia. gigantesco e belo, talhado assim como estava pelo jardineiro, o grande jardineiro do tudo. o eucalipto e a abelha que adoptara como de estimação, nessa casa que pertencia a uma matilha possessiva de homens de passagem e não a ele. era uma boa companhia. e ele esperava que não morresse.

domingo, maio 24, 2009

regozijo

eu ia chegar aqui, debitar, ser magnífico. a sério, que era essa a minha intenção deixar-vos, a todos, boquiabertos, um por um, com a minha métrica ímpar. sem retóricas, negras ou brancas, os meus argumentos, que não seriam argumentos, seriam poemas encafuados numa prosa, tocariam um rebate pequenino no vosso coração, e quando fechassem ou minimizassem a janela, ou mudassem até de separador, fá-lo-iam com um peso diferente nas pálpebras que seria um peso diferente nos dedos e no peito.

Mas não aconteceu. distraí-me com uma futilidade qualquer, de que não me lembro, e não o fiz. Ponto

quarta-feira, maio 20, 2009

dédalo





os arquitectos do meu pai fizeram um bom trabalho na escolha dos obreiros. tenho um barro peganhento a moldar-me às circunstâncias e os meus poros não respiram como deveriam. perdi-me num caminho qualquer, de mãos nos bolsos, e o léxico, pelo mesmo caminho, perdi também. já não grito ao mundo revoluções cubanas sem nação, ou erupções do povo sem mar aonde não chegue: acomodei-me ao desassossego da mudez, e caminho. num labirinto de escolhas feitas por circunstâncias e adn que mais não são que nomes bonitos para 'quatro cantos de uma prisão'.





Labyrinth - Enter Shikari

terça-feira, maio 19, 2009

todos os mesmos

todos os mesmos traços verticais
agrafam-me numa auto-estrada
as pernas à cama deitada.

todas as mesmas noites acordadas
abriram-se contos de bizarrias
de conhecidos! e profecias

todas as mesmas, histórias
que eu depois contei em claro
dormente, na verdade, sem amparo.

todos os mesmos, nós, aparecemos
não sei, pela ideia de quem,
em algazarra no sono de alguém

com todas as mesmas formas de inquinar,
encher, sabotar, nós percorremos
com as mesmas mãos com que sofremos

todas as mesmas torturas de todas
as mesmas insónias como a que tu
nos olhos agora nos olhos, nu.

todos os mesmos brindes continuam a chapinhar.
todos nós continuamos à minha volta a cantar.
a gozar a minha falta de paciência e siga!
mais bailarico; são só dores de barriga
e gargantas mudas duma insónia que não me liga

domingo, maio 17, 2009

cruz

As camas de hospital têm, pelos vistos, uma espécie de triângulo, seguros por uma corrente, ligada a uma barra, presa à cama de hospital, aonde nós, os inválidos, devemos agarrar para içarmos o tronco. Uma auto-grua, versão asséptica daquela espécie de espanta-espíritos que se coloca no berço dos bébés. Quando me deitei na meu leito dos dias que se seguiriam estranhei aquilo por cima da cabeça. Mas ao fim do primeiro dia de internamento já via outros doentes usá-lo, pelo que achei desnecessário. Pelo menos desnecesário para mim. Que ali ficaria pouco tempo e conseguia compor minimamente o tronco. A verdadeira ajuda não era aquele triângulo que me daria. Quando eu vi o Senhor Artur, vizinho da esquerda do segundo quarto para onde me empurraram, apanhar o dito triângulo, quase como rotina, não percebi o porquê. É que ele nem o usava para se levantar e contudo notava-se que não agarrava por agarrar. E o Senhor Artur podia estar saturado de 25 anos de ferros na perna esquerda que por pouco não a arrancavam dele, porém de cabeça estava são como um dia de trabalho no campo depois da reforma. Louco e derrotado eram coisas que não era. Havia uma força qualquer naquelas mãos, que o Senhor Artur (a menos de 24h de uma alta, mal ele sabia) usava para se segurar naquele triângulo, e que ele sabia que não o levariam a lugar algum. Era inútil, dito de forma crua. Era quase um devaneio ou, como o Senhor Artur não era, de todo, tolo ou dado a devanear, como um sonho. Quando dei por mim a agarrar o triângulo exactamente da mesma forma, percebi que não era nem um nem outro. De modo algum um devaneio, ou uma idiotice sequer. E que quando este recobro do corpo (o seu necessário descanso, o seu inamovível deitado) se torna um fardo e não uma motivação, então toda a saúde se torna desprezível. Tão desprezível como a falta dela. E nem vontade de ter pena de nós mesmos há. Como se fóssemos a cair, apenas um reflexo de agarrar qualquer coisa. Já que ninguém se pode agarrar a nós. E ao olharmos para cima, num portuguesíssimo deitar de contas à vida, lá vemos aquela auréloa triangular comom uma força que não mata, nem alivia, mas dá alento. Como o alento de um beijo na boca pousado à cabeceira.

segunda-feira, maio 11, 2009

Entre o clero e as cabras

Eles viraram-se e disseram-me: meu ou escolhes ou te fodes. Eu respondi: ora foda-se, com que havia eu de contar vindo de quem vem a ameaça? A questão é: largar tudo ou não largar? É que é bom ter um tecto, o trabalho, ver os filhos crescer, os rebentos no orvalho de outono. Mas e não ter tecto? E mandar à fava, digo, à merda! o que esperam de nós e ir para a fava, digo, outro sítio começar sem pecado um pecado maior.

Ai, ai... Depois é claro, agarro num tabaco, claro. E nem sequer três velinhas numa música tenho que me salvem, ou uma perna para andar dela.

sexta-feira, maio 08, 2009

excerto

Estava feliz. Ele estava feliz. Ia já um tempo desde a última vez que saíra e fizera algo de que se orgulhasse. Na verdade não fizera. Ele era um idiota. Um idiota nunca fazia nada de que verdadeiramente se orgulhasse. Orgulhava-se, ou dizia ter-se orgulhado, porque a praxe do quotidiano o ensinara que as pessoas valorizam as pessoas que se orgulham do que fazem nem que tenham feito a maior merda que o Diabo já cagou. Por isso ele não contava a ninguém que era idiota, com medo de que deixassem de falar com ele e consequentemente o deixassem de incluir naquele tipo de saídas. O importante, pensava para si mesmo momentos antes de abalar, era manter a cabeça bem erguida, enquanto se aperaltava mentalmente, já que ao fisicamente pouco ligava, cabeça bem erguida e falar pouco. Quanto menos se fala, menores as probabilidades de dizer asneiras, assim fora ensinado. (...)

sexta-feira, abril 24, 2009

o assobio

O céu acinzentava de forma crescente enquanto eu lutava para que o lume do isqueiro fosse o lume do cigarro com a palma da minha própria mão. E o céu, indiferente, esboçava-se, nubloso em várias camadas de tons opressivos e escuros, numa inevitabilidade de claustrofobia em altas altitudes. O lume bruxuleava e fugia, em passes de magia desgastados de tão repetidos, como os que os adultos fazem com as palmas das mãos aos bebés pequeninos. Ainda tentava abanar o isqueiro, desencantar uma forma de ele não me deixar na mão, com o monstro que tinha a crescer dentro de mim e que só sucumbiria às mãos daquele cigarro piedoso, quando todo o resto do céu e da terra eram uma ditadura de fins monótonos e maquiavélicos. Aquele cigarro era a minha única esperança, e o lume a minha arma, fugia-me. Eu desesperava.
Até que consegui. E o alívio correu-me boca laringe pulmões poros ar e nariz e boca novamente. E ao cinzento da minha vitória apenas temi que se perdesse nas nuvens da minha desgraça.


"If only I could be as cool as you
As cool as you

Body and soul Im a freak Im a freak
Body and soul Im a freak"

- Silverchair

sexta-feira, abril 10, 2009

t.o.t.w.h.n.m.

Santa Luzia no nevoeiro: a virgem nos rochedos minhota.
Arq. Piça Vieira faz maravilhas de engenho à beira rio, precedidas por távoras quadradas desertas e acheirar mijo.
Amorosas lembranças quedam-se distantes, em almofadas de areia branca.
O mar estava cinzento e queria a terra. Como os amantes que se querem à distância. Por carta.



[Innerspirit - Soulfly]

domingo, abril 05, 2009

c'est vrai

morte a todos os não crentes, infiéis, proscritos, traidores, idiotas, cretinos, fascizóides, submissos, cães, bestas, filhos da pior puta, estupores, cabrões, ignóbeis, mesquinhos, cegos, marionetas, egoístas, imbecis, vira-latas vira-casacas, morte a todos eles! morram, porque não vêm a verdade do meu lado

sábado, abril 04, 2009

civil war



bem planificado, perfeitamente justo
não há tempo.
de fazer o que não feito ainda.
perfeitamente justo o peso
do passo em falso por dar
perfeitamente justo o remorso
enrodilhado no esófago da rotina
do tempo que já acabou
para dar um passo em verdade.

sexta-feira, abril 03, 2009

2/4/2009

Com que direito
te vestes na toga
do inaceitável
argumento
e dedo no ar
do fascismo
provinciano e
fácil mal dizer
queirosiano
e sem querer
como quem não quer
dizer, matas
a luz que eu embalava
para vós, júri
de minha alma,
doce ternurna
do meu juízo.



Quando eu morrer ( GNR ) - Xutos & Pontapés

segunda-feira, março 23, 2009

A guerra é como um antibiótico. Penso eu. Para atacar um problema, enfraquece as defesas que impedem a criação de outros problemas, surgindo portanto, ainda que devagar esses outros problemas. No final, acaba-se a tomar mais antibióticos.

domingo, março 22, 2009

pensamento ambulante de 26/2/2009

Ao passo que a tarde quebrava
ternamente durante horas em vermelho,
uma preguiça de gato caminhava
em ponta de almofadas rumo ao mais velho
sofá de convívio que conhecia abandonado;
entretendo os olhos semicerrados verdes
com a luz aos fiapos que atravessava
a grade de prisão que separava
a sua casa da sua liberdade.

sexta-feira, março 20, 2009

lie lie lie

ele fumava infantilmente um comprido cigarro, do tamanho da sua perna a meia haste, paciente. estava sem dúvida fora de jogo. um banco em quase tudo semelhante ao do futebol: via com a clareza e imparcialidade possíveis o jogo que rolava à frente dos seus olhos. posssíveis, não as desejáveis. via esses lobos de meio sorriso, escondidos na rectidão dos seus colarinhos de camisa, planeando a manada do futuro. via à sua esquerda, petiscando, palrando, a manada do futuro, longe de se saber tal, sequer. questionou se poderia estar errado, se algum daqueles palpites de ovelha pudesse um dia agigantar-se num qualquer destino social decisivo. mas não, não lhe pareceu. demasiada inocência: gigantesca força e fraqueza. ao fundo, camuflados no fumo da rotina e do churrasco, os homens comuns. os que afirmam posições, formam movimentos cívicos, marcam os golos da vitória que fazem subir de divisão clubes amadores, os que nunca vão deixar a família ir quando lhe deitarem na mão, em suma, os que rindo a rir, podem fazer coisas. e fazem. com a mesma naturalidade que não fazem. o fumo saía-lhes da boca como quem declama: ele cuspia o seu na esperança, sabia-no no fundo, de ser um dos deles. a verdade doía-lhe na perna: sabia que nunca o seria, nunca como o queria ser. nunca como eles eram. por isso não jogava. por isso o banco era o seu campo. viu entre os lobos e a fumarada quem ideologicamente se situava entre o homem comum e a comum manada. ovelhas com garras de lobo? sim. ele pensou nisso. percebia que não seria por mero acaso que acolhiam a manada com braçadas vigorosas no ar, balindo berrando e correndo, mas não se misturavam. a prova ali estava: à margem, aqueles dois exemplares pouco vulgares pensavam um com o outro. sem estratégias. ou cartas. líderes tribais de coração mole e honesto numa qualquer época enregelada do passado, ou do futuro que por vezes parece tão primitivo. à sua direita, desalentado, brandindo no queixo o último sorriso que uma pouca fresca última cerveja da noite tinha para dar, um rapazinho de um outro lugar, quase de outra história, quase de outro post de outra net, amansava a sua incompreensão com umas raparigas também elas à margem de todo aquele teatro, de cabeça baixa. cada um com seus olhos em cada seu chão, ele sentia-se irmanado daquele rapaz que naquele momento não o via, fosse do álcool, fosse do que fosse. à maneira própria de cada um, sabiam que aquilo era tudo a fingir. uma palhaçada. e que a melhor maneira de sobreviver àquele teatro feito de caninos ensanguentados era fugir. e ligar muito pouco e a muito poucos do que para trás ficasse e ficassem.