segunda-feira, dezembro 26, 2016

o ego e o amor

"Será por tanto querer, que ninguém me quer?"
Considerava-se uma pessoa invulgar e inadaptada. No mundo massificado e franchisado do século xxi, sentia ocupar um lugar único entre os seus pares, distinto do deles. A sua sensibilidade manifestava-se quando fotografava o pôr-do-sol, ou partilhava um poema com os amigos. O belo fascinava-o, mesmo quando não o compreendia. A promessa de uma viagem exaltava-o, os gatos serenavam-no. As suas ambições iam tão longe quanto a sua felicidade, mas sempre à rédea curta de um cobertor e uma caneca de chá quente entre as mãos. Na absorvente mecânica social, desempenhara o seu papel como se exige: bom aluno, melhor profissional, excelente amigo do seu amigo. No fim, não era crime nenhum considerar-se bonito, mesmo que à boleia de poder ser chamado narcisista.
Postos essess predicados em cima de uma mesa mental, não compreendia a sua atracção por mulheres, digamos, condenadas. Mulheres que carregam uma amarguras auto ou hetero-imposta, mulheres que sonham como nunca e caem sempre (a estas é impossível colocar um fio no balão do seu pensamento, e quando tal promete acontecer, só voam ainda mais alto), mulheres eternamente sem rumo, ou mulheres eternamente desapontadas, ou desiludidas, antes mesmo de apontarem ou se iludirem com o que quer que seja, mulheres que precisam de agressão como de comida e amor, mulheres abandonadas. A inevitabilidade deste fado, intrigava-o. A sua órbita e a destas mulheres, cuja herança não as faria entrar na galeria das suas primeiras opções, magnetizavam-se e chocavam-se com um grau de certeza matemática. Não as procurava; também não as censurava ou afastava (ele pautou a sua vida por um estóico código de tolerância e incensurabilidade pelo próximo: para seres aceite, aceita). No entanto, e sendo certo que todos os indivíduos carregam em si o peso da sua história particular, não conseguia compreender como aquelas mulheres, de alma pesadas como asteróides, penetravam propositadamente na camada de vidro que era o seu íntimo, sem que ele fizesse nada quanto a isso. Os estragos eram inevitáveis e certos.
Esta previsibilidade incomodava-o. Considerava que a sua singularidade tinha pouco que ver com esta série de derrotas, facilmente antecipáveis. Mas a esfera das outras pessoas, e das suas bem-sucedidas relações pessoais resplandecia uma glória, que ofuscava as fracturas das cedências mútuas. E era-lhe impossível perceber qual dessas fracturas mantinha erecto o ovo de colombo. Porém, duma coisa não duvidava: existia um truque, e ele, até então, fora inábil para o descobrir. A sua pessoa, e o respectivo perfil irrepreensível, apenas podiam estar arredados das teias da felicidade possível por artifícios de um truque escondido. Outra possibilidade estava, totalmente, posta de parte.


quarta-feira, dezembro 07, 2016

10 anos de guarda-chuva em punho, no fim de todas as coisas

Este espaço é importante para mim.
É a razão pela qual escrevo este post, no dia de hoje, e pela qual escrevo muitos outros sem razão ou motivação nenhumas. A ânsia literária e a comoção emocional podem não ser as mesmas que noutros tempos (ou décadas?) mas ainda dá sinais de vida: a música continua a acompanhar-me, ininterruptamente; a vontade de contar histórias, sem princípio, meio ou fim, dá-me umas pontadas no peito de quando em vez, e desabafo com a mesma voracidade ou nostalgia quando o drama assim o exige.
Passaram-se dez anos desde que um episódio particularmente infeliz numa noitada de copos na faculdade me fez repensar uma série de aspectos da minha vida. Dei por mim a tentar amadurecer comportamentos, pensamentos e atitudes. Na sequência disto, cortei laços com um blog um tanto ou quanto emo que escrevia na altura e lancei-me a este. Este ia ter a liberdade total como medida. Seria igualmente legítimo como portal de crítica artística, de filosofias de café, de ficção, de viagens, de notícias, de poesia, de odes aos que nos deixam, de tudo o que eu fosse e vivesse, em cada momento.
Claro: um blog feito diário dependerá sempre da pessoa que nele escreve, chame-se umbrellameansfreedom.com ou José António, e a mudança podia ser meramente estética. Mas não considero errado criarmos mecanismos para nos disciplinarmo a ser mais criativos, autênticos, e  se não for pedir muito, mais maduros. Este blog ajudou-me a isso (mesmo quando, muito concretamente, não ajudou). E tudo começou pela escolha do link: um guarda-chuva, que no meio da tempestade, me desse liberdade de ir para onde eu bem entendesse.
10 anos após, este espaço continua importante para mim, porque ter essa liberdade é, de facto, muito importante para mim.
Aos que desse lado, ao longo dos anos, resistiram e insistiram em ler-me, conhecidos e desconhecidos,  um muito obrigado. Sem leitores qualquer texto é um monólogo; graças a vocês, os meus puderam ser um diálogo.

quarta-feira, novembro 23, 2016

Arrepia, zagueiro!


Há nomes que vêm com uma sina. E há sinas que nos valem nomes. Jorge é nome de guerreiro biblíco. Como o da Capadócia. Se fosse jogador de futebol, decerto, jogava à defesa. Onde estão os homens a sério. Os maduros, que jogam até serem mais maduros ainda, como se beber da fonte da eterna juventude fosse pré-requisito. Que comem os inimigos com os olhos e lhes roem as canelas ao pequeno-almoço seguinte. Sempre de cabeça levantada. Porque o sol põe-se em toda a Terra, da mesma forma, e há aqueles que o vêem com mais claridade, enquanto esperam a sua vez no jogo, com paciência e autoridade. Por cima dos ombros vêem tudo, o combate em todo o lado. Mas o seu grito é lei.  São os Reis da área, no império da coragem. Os que ganham campeonatos, quando os outros ganham os jogos. Os  comandantes que provam, por a mais b, que a vida é um jogo colectivo.
Um imperdoável jogo.

segunda-feira, novembro 14, 2016

uivos


o prodigioso miúdo saloio,
saído de uma aldeia de conto de fadas,
tinha uma relação conflituosa com a lua
e com a sua bestialidade escondida.
procurou muitas vezes, no céu negro,
o astro, sem amarguras.

segunda-feira, outubro 24, 2016

"será por tanto querer que ninguém me quer?"



eu podia apenas ser outro bandido. mais um diabo sem tecto, que rouba carros por desporto, vai às putas e não lhes entrega dinheiro para os alimentos dos filhos.
mas eu não. a minha mãe era uma santa, deu-me boa educação e fiz o nono ano.
nunca recusei um copo de água a ninguém, estendi sempre um braço a todos os amigos, colegas e conhecidos. estarrecidos, prometiam-me a presidência da junta.
e eu sabia-me destinado a grandes feitos.
as mulheres segredavam-mo no leito. a minha mãe rezava por mim.
portanto, não seria o guarda, a quem estoirei os miolos, quem me desviaria do meu caminho.
nem a puta que me ameaçou com o tribunal, quando lhe desfiz a cara à chapada.
nem quando o país me renegou, e a imprensa colou o meu nome nas manchetes de todo o mundo.
mesmo quando o próprio papa me acusou de ser o próprio diabo,
eu parei de apagar incêndios com gasolina.
no fundo, não entendo
como pode uma vontade deste tamanho,
uma insubmissão sem nome ou credo,
ser uma coisa má
ou coisa que deva calar?
filhos da mãe. filhos da puta.
mato-os a todos. em todo o lado.

"E às vezes dou por mim
A queimar as janelas
Se ninguém me quer assim
E amo os maridos delas
Me acusem de pecados
Que me chamem nomes feios
Nos solteiros encalhados
Tenho eu os bolsos cheios"

sábado, setembro 17, 2016

oblivion

a música anda apaixonada pelo espaço sideral, não anda? tem explorado sonoridades e combinações delas que proporcionem aos ouvintes uma sensação, palpável, de os soltar, em câmara lenta numa fofa cama de vazio, que à medida que os envolve os arrefece como uma noite de fim de verão. ao mesmo tempo acende no bréu do céu, primeiro uma, depois duas, quatro, dezenas e profusas centenas de estrelas, auras e auroras boreais. quando uma música consegue este efeito, sequencia e prolonga sons vagos na medida certa, prende de gancho e leva-nos azimutes fora. essas viagens valem a pena o bilhete. talvez porque o abismo puxa-nos sempre. tão tentador quanto aterrador. e eu não me recordo de nada mais abismal do que o nada absoluto.

quarta-feira, setembro 07, 2016

o inamovível sono


imagina: o bintoito dorme todo; até há pouco eu dormia também; acordar nesta casa é como nascer num mundo pós-apocalíptico; é domingo e ninguém fica numa residência universitária num domingo; é suposto almoçar, prolongar a minha vida para o futuro, mas a ressaca afunda o meu corpo na cama; o sol brilha pela janela em tom convidativo, sedutor, e só um passo incauto fora de paredes basta para  ele me avassalar com todo o peso da sua luz; é verão; a radiação do calor ferve as nossas inamovíveis células falidas e falecidas; a terra gira devagar; eu não durmo e eu não acordo; eu espero por ti para deitar a minha cabeça no teu colo; fechar os olhos até estas sensações se cristalizarem no real.
no verão, os domingos à tarde no bintoito, costumavam saber assim.

domingo, setembro 04, 2016

a outra balada de leeroy jenkins

ter mão nos acontecimentos é uma tarefa que me ultrapassou. é a descrença que pauta o ritmo de tudo o que faço, sem, no entanto, me fazer render ao cepticismo. a procura de uma alegria de viver serena e total revelou-se infrutífera, mas como parar sempre foi sinónimo de morrer, eis-me a continuar a caminhada. sem corridas, sem passo tranquilo. sem ânsia e sem capitulação. não se trata de antecipar a derrota, mas de viver o melhor possível com a derrota sobre a minha cabeça.
o que me traz ao título desta publicação: cada rasgo, cada alegria, cada ataque à monotonia da existência não é um acto heróico, mas somente uma tentativa inglória de fazer o que parece ser certo, sem grande convicção no resultado final, mas com todo o coração que é possível colocar em semelhante empreitada. e no fim ganhar uma história parva para contar da estupidez latente daquela decisão impetuosa que se impôs aos acontecimentos. "at least i have chicken".
dou por mim a gritar, interiormente, "leeroy jenkins!" todos os dias, e cada vez mais me convenço que sem esse call to arms as coisas não aparecem feitas. a ironia da escolha deste lema em particular, é que ele não é nada senão o reconhecimento do ataque desgarrado na cara derrota completa.

terça-feira, agosto 23, 2016

desert sessions junto ao cais


"Esse medo, sendo algo que não saía, era já como um dado físico concreto: como um nariz torto, como um olho cego, como alguém que coxeia. Hinnerk não saía à rua sem o medo, não ficava em casa sem medo, não adormecia sem o medo, e mesmo nos momentos em que a consciência se tornava menos construída, quando a individualidade apresentava a estrutura mais frágil - como nos sonhos -, mesmo aí uma espécie de azedume fixo permanecia constante no meio da aparente loucura de imagens que se sucediam sem controlo, misturando espaços, tempos, possibilidades e impossibilidades."

Gonçalo M. Tavares, "Jerusalém"

segunda-feira, agosto 22, 2016

tudo acaba e se desfragmenta enquanto os deuses lutam no espaço, indiferentes.


"Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.

Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
O que mais do que tu procuraste
A plenitude de cada presença."

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poesia"

terça-feira, agosto 16, 2016

rituais nas clareiras dos montes queimados



"Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E  através de todas as presenças
Caminho para a única unidade."

Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Jardim e a Casa", em "Poesia"

quarta-feira, agosto 10, 2016

the floor is lava

mãos no volante a ferver.
suor a correr nas costas.
a casa atrás das mesmas.
óculos escuros de marca e chapéu da feira.
o ar respira-se com fragrância de incêndio.
um mapa a borbulhar na cabeça.
o rádio dá aulas de air drums
enquanto o pôr-do-sol nos puxa sem dó,
para mais uma aventura.

segunda-feira, agosto 08, 2016

baile pagão


"Tudo me é uma dança em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonho obscuro
Onde invento o real.

À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa os sentidos,
Sobe os degraus do ar..."

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poesia"

terça-feira, agosto 02, 2016

uma fantástica vinda


"Espero sempre por ti o dia inteiro
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda."

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poesia"

sexta-feira, julho 29, 2016

"basta-me respirar de vez em quando"



"Cidade suja, restos de vozes e ruídos,
Rua triste à luz do candeeiro
Que nem a própria noite resgatou."

Sophia de Mello Breyner Adresen, "Poesia"

terça-feira, julho 26, 2016

E nunca as minhas mãos ficam vazias.

"Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão
A força dos meus sonhos é tão forte
Que tudo renasce a exaltação.
E nunca as minhas mãos ficam vazias."

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poesia"


terça-feira, julho 19, 2016

A Lenda


"Eu podia ter sido um homem que partiu para sempre. Tinha-se cansado e agora, lentamente, começava a acordar para a imensidão do que abandonara.
As escuras paixões das marés, o mugido de uma onda, a avalanche das vagas quebrando-se contra um recife... uma glória desconhecida chamando-o incessantemente da negrura do alto mar, era a glória confundindo-se na morte e numa mulher, a glória de fazer do seu destino uma coisa especial, uma coisa rara. Aos vinte anos tinha estado apaixonadamente certo: nas profundezas do mundo havia um ponto de luz que fora feito só para si e que havia de se aproximar de si para iluminar, e a mais ninguém."

Yukio Mishima, "O Marinheiro Que Perdeu As Graças Do Mar"

segunda-feira, julho 11, 2016

Uma alegria que não é deste mundo


Que longo caminho desde 2004, na final de todos os sonhos desfeitos. Ainda assim, com jogadores de coração endurecido, de carregadores de piano, cínicos pragmáticos e realistas, unidos em irmandade para o melhor e para o pior, a Selecção surpreendeu. Como em qualquer conto de fadas, depois dos percalços menores (meros tutoriais) ultrapassados a ferros, e com o príncipe encantado fora de combate, os heróis apareceram quando menos se esperava frente à apocalíptica besta negra que nos devora e humilha à 40 anos. Quão irónico e delicioso foi este volte-face quando o coração de todos tremeu com aquela entrada do Payet, e todos achávamos que íamos levar 4 ou 5. Eu achei que íamos levar 4 ou 5. Mas ser a equipa dos empates deu jeito. Aguentou o barco para o patinho feio se lançar num canto do cisne final sobre o monstro.
Que bem que nos fica esta redenção depois de tanto sofrimento e tanta frustração acumulada ao longo dos anos.
Que bem que nos fica esta alegria que não é deste mundo.

sexta-feira, julho 08, 2016

IGNITION COUNTDOWN - 1 WEEK LEFT


SEXTA-FEIRA (15.JUL)
THREE TRAPPED TIGERS
TIJUANA PANTHERS
BALA
ASH IS A ROBOT
GRANADA
VIRCATOR
BLUEBERRIES FOR CHEMICAL

AFTERHOURS C/ FESTA LARGO:
BRICOLAGE
RE.ZX

SÁBADO (16.JUL)
WAKING AIDA
FILHO DA MAE + RICARDO MARTINS
MATATIGRE
THE MIAMI FLU
DESLIGADO
MUAY
MILHOMES

AFTERHOURS C/ FESTA LARGO:
FATNOTRONIC
RND3

segunda-feira, julho 04, 2016


"Os fantasmas do mar, dos navios e das viagens oceânicas existiam apenas nessa gota verde brilhante. Mas por cada dia que passava, mais os odores abomináveis da vida em terra se colavam ao marinheiro: o cheiro da família, o cheiro dos vizinhos, o cheiro da paz, do peixe frito, das piadas e das mobílias sempre imóveis, o cheiro dos livros de contas, da casa e dos passeios de fim-de-semana... todos os cheiros pútridos que os homens da terra deitam, o fedor da morte."

Yukio Mishima, "O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar"

domingo, julho 03, 2016

Montauk


Montauk parece ser o destino de eleição para corações desfeitos se encontrarem. Se eu tivesse sido mais pró-activo em 2007 ou 2008 quando me falaste do eternal sunshine of the spotless mind, podia ter chegado a essa conclusão antes de ver um mcnulty cínico a escrever romances cinzentos junto à praia, sobre casos amorosos e sobre traição. Há erros que temos de cometer, penso eu, Houve muitas oportunidades para ver esse filme  ao longo dos anos, mas o momento para o ver não me pareceu o acertado. E eu sou homem de momentos. De arrufos. De silêncios e explosões. É inegável que nesse campo, estávamos bem um para o outro. Em Montauk ou noutro lugar qualquer. A começar o errado, a partir o partido, e a recuperar o perdido. Como desmemoriados, e como traidores. Porque há erros que temos mesmo de cometer, mesmo quando já sabemos que são erros, quando, no fim do dia, no fim da linha, há uma hipótese de amor mais puro que qualquer outro.

segunda-feira, junho 20, 2016

"fiz o que tive a fazer e pus-me a pau com a guita"

acorda nu num porão de breu. o espaço que o rodeia é preto, as fronteiras que o contornam são pretas, mas ele sabe que é preto também. rasgos de luz pelo tecto cambaleante fazem-no duvidar se é tão preto como tudo o resto. são como relâmpagos do ilustrador universal de bd a contornar a realidade com a sua inspiração em sin city. ele consegue aperceber-se da sua própria individualidade, graças a esse golpe de génio plagiador, ao capricho desse clonador. vê-se a reflectir sobre se é tão negro quanto tudo o resto e todos os restantes. não consegue definir, porém, se, como tudo o resto e todos os restantes, é um escravo.

sexta-feira, junho 17, 2016

queres escrever poemas? mas poemas não se escrevem sem coragem


"Que estou a fazer aqui numa tarde de verão? Quem sou eu, aqui sentado, com sono junto ao filho da mulher que tive ontem à noite?"

Yukio Mishima, "O Marinheiro Que Perdeu as Graças do Mar"

terça-feira, junho 07, 2016

não é meia noite quem quer

"Com aquele olhar pensativo prometia observações profundas ou mesmo uma declaração apaixonada, mas em vez disso tinha iniciado um monólogo sobre folhas verdes entrevistas pela porta da cozinha de bordo e balbuciava uma história da sua vida sem interesse nenhum, que desembocava num refrão horroroso duma canção popular! Contudo, aliviava-a saber que que ele não era um sonhador, dava-lhe confiança aquela simplicidade, uma qualidade sólida, de móvel pesado e antigo."

Yukio Mishima, "O Marinheiro Que Perdeu As Graças do Mar"

sexta-feira, junho 03, 2016

quarta-feira, maio 25, 2016

reiki

never go fully mcnulty: nunca vires um completo mcnulty. o bom velho jimmy é o melhor de nós na pior versão possível. torna-se um fardo insustentável a menos que sejas um ser excepcional. excepcionalmente cínico, egoísta, cobarde, maquinal. para suportar a culpa e armar esquemas que se sustentem quando os deixares para ires à tua  vida fazer o que te dá na veneta, seja beber um fino ou foder uma gaja. o reiki ajuda-te a perceber esse tipo de merdas. que estás de carro numa longa estrada para nenhures, para a ruína, para outro país ou só para o trabalho, mas escura como o bréu. do género daquelas que preferes fazer numa noite sem lua, com uns copos de cerveja e whisky em cima, apanhares a tua consciência, de surpresa, no meio caminho e atropelá-la, como quem atropela um gato: vê-la a sair da estrada, e a subir o muro, mas sabes que está morta, e parares o carro não a vai recuperar. afinal, tu nem sabias que a tinhas até lhe passares por cima. quando a noite acaba, sobras tu, apenas um puro cretino, cansado e alcoolizado, que passou a noite toda acordado a fazer, o melhor que sabe, o que julga saber ser o correcto. mas, mesmo quando estiveres a ceder ao sono, com o horizonte escuro a começar a raiar nos montes, vais-te lembrar que dentro de ti há uma pulsão negra,  que vai ter sempre a ter a última palavra.

quinta-feira, maio 19, 2016

Vens comigo para Madagáscar?
Vamos quando lá for Verão.
Levo os meus dedos a menos,
e tu podes levar o teu vestido ás flores.
Vamos os dois ser luminosos
de qualquer ângulo que nos vejamos,
e ter sempre ar quente
a correr entre as nossas mãos
que se agarram.
Há tanto tempo eu esperava
pelo dia em que que a sintonia
pautaria os nossos passos de corrida.
Os dois mudos, a natureza muda
só a nossa banda-sonora a condunzir-nos.


terça-feira, maio 17, 2016

Purple Cosmos! - Ignition 2016 - 15 & 16 Julho


SEXTA-FEIRA (15.JUL)
THREE TRAPPED TIGERS
TIJUANA PANTHERS
BALA
ASH IS A ROBOT
GRANADA
VIRCATOR
BLUEBERRIES FOR CHEMICAL
AFTERHOURS W/ FESTA LARGO & RND3

SABADO (16.JUL)
WAKING AIDA
FILHO DA MAE + RICARDO MARTINS
MATATIGRE
THE MIAMI FLU
DESLIGADO
MUAY
MILHOMES
AFTERHOURS W/ FESTA LARGO

domingo, maio 15, 2016


"Well, one minute you're giving Yvonne some romance novel version of how we met, and now you're spouting fucking Hegel on the deck. Did something happen while I was gone?"

- Dominic West, "The Affair"

sexta-feira, maio 13, 2016

"I was screaming into the canyon
At the moment of my death
The echo I created
Outlasted my last breath

My voice it made an avalanche
And buried a man I never knew
And when he died his widowed bride
Met your daddy and they made you

I have only one thing to do and that's
To be the wave that I am and then
Sink back into the ocean"

domingo, maio 08, 2016

peregrinos marinhos



"Ela rodou levemente a cabeça e o seu cabelo roçou o nariz dele. Como sempre Ryuji tinha a sensação de ter atravessado uma distância enorme, e algumas vezes fizera-o desde o outro lado da terra, para chegar finalmente a um ponto privilegiado onde as sensações eram extremamente delicadas - uma comoção na ponta dos dedos, numa manhã de verão, a uma janela."

Yukio Mishima, "O Marinheiro Que Perdeu As Graças Do Mar"

segunda-feira, abril 04, 2016

os caveira todo de preto


«A peixeira já luzia quando o gringo intercedeu: 
“- Perdoem a grosseria desse empregado meu
Sou homem civilizado, não gosto de violência
Trago papel assinado, prezo pela transparência
A terra é, de fato, minha. O governo fez leilão
Eu que dei o maior lance, ganhei a licitação
Não sou nenhum trapaceiro, o que é meu é de direito
Mas como bom cavalheiro lhes proponho um outro jeito…”

Chamou Lampião na chincha, prum papo particular
Uma proposta de ouro difícil de recusar:

“- Vou ganhar muito dinheiro com um novo agronegócio
Emprego teu bando inteiro e ainda te chamo pra ser sócio.”

“- Tu pode comprar São Paulo e o Rio de Janeiro
Foto em capa de revista por causa do seu dinheiro
Ter obra no mundo inteiro, petróleo, mineração
Mas aqui nesse pedaço, quem manda é o rei do cangaço…

VIRGULINO LAMPIÃO!”»

quarta-feira, março 30, 2016

"when the bullet flies in the city skies"


aquele momento em que segues algemado para o juiz de instrução te fazer uma entrevista de emprego à vaga de preso.
quando queres que a tua vida soe a trabalho & conhaque, mas trabalho & conhaque, tal como a vida, não prestam.
apercebes-te que as dioptrias pixelizaram e tudo o que vês é tudo o que lês, que é tudo o que queriam que pusesses a vista em cima, para tudo o resto não ter importância nenhuma, e logo, valor nenhum,
queres debitar o alucinado rol de neologismos, parolismos, paradoxos, ultrajes, e soundbytes que fazem o teu dia,
mas acabaste de abrir uma lata de cerveja dentro da tua cabeça e não podes querer saber de mais nada.
acenas que sim. concordas com a medida de coacção.

quinta-feira, março 17, 2016

infinity wars


Quando era miúdo adorava o vento. Inspirava-me sonhos de uma corrida tresloucada, sem barreiras do físico ou do possível, adentro e além imaginação.Entretanto comecei a fumar e perdi o fôlego para esses sprints. Os mais cépticos chamam-lhe velhice, Eu prefiro acreditar que é um mecanismo de auto-defesa. Quem é que nunca quis encontrar a cura para a angústia?

terça-feira, março 01, 2016

"no fundo, odeio pessoas: pessoas fazem-me fumar e fumar faz-me morrer"


"Que sentimento é esse que temos quando vamos de carro e nos afastamos das pessoas e elas vão diminuindo de tamanho na planície até vermos as suas manchas dispersar? É o mundo demasiado grande a pesar-nos, é o adeus. Contudo, curvamo-nos avançando para a próxima aventura debaixo do céu."

Jack Kerouac, "Pela Estrada Fora"

quinta-feira, janeiro 21, 2016

manhãs e rascunhos

A casa do meu avô cheira a terra húmida
A manhã de nevoeiro
Orvalho nas folhas
E granito com musgo.
Cheira a vinhas cansadas nos esteios.
A casa do meu avô cheira a tanque de cimento com sabão rosa
Cheira a tangerineira
A nogueira
A gatos que dormem, invisíveis
Cheira a vasos antigos de pedra.

A margaridas sobre os muros.
A casa do meu avô cheira a café de cevada solúvel,
A cal fresca
Chão lavado
E mesas de vime

A televisão e leitor de cassetes desligados.
A casa do meu avô cheira a silêncio.

sexta-feira, janeiro 08, 2016

Mañana


"- Mañana - disse ela - amanhã vai correr tudo bem, não achas, Sal, querido?
- Claro, amor, mañana.
Era sempre mañana. Durante a semana seguinte não ouvi mais nada a não ser isso - mañana, uma palavra encantadora e que provavelmente é sinónimo de paraíso."

Jack Kerouac, "Pela Estrada Fora"