domingo, fevereiro 21, 2021

hatred machine

 Na passagem da juventude para a vida adulta temos, não poucas vezes, de recalcular energias que gastamos com determinadas causas, revoltas, desgostos. Deixamos de esperar, e de fazer para, que aconteçam coisas más a quem nos faz mal. Aprendemos a reconciliar-nos com inevitáveis momentos tristes da vida, que superaremos, com maior ou menor dificuldade, sem entrar numa espiral tóxica, vingativa e de recriminação. 

Porém...

Cismas são piores que doenças. E há pessoas que podemos derrotar no próprio jogo. Ou, para ser mais exacto, no próprio desporto. Até podemos fazer isso sem dar a outra face, ou flanco. Se o Michael Jordan podia criar inimizades imaginárias para ser o melhor de sempre, porque não posso eu recorrer às minhas inimizades reais para ser melhor do que pessoas sem carácter? Ver o "The Last Dance" reconciliou-me muito com os meus demónios. Agora sei que posso competir com eles, em vez de conviver com eles até os esquecer. Que até gente com muita mais auto-estima do que eu o faz, e se dá muito bem com isso.

No final, para me superar tive de largar o vício do fumo que me atormentava há uma década (pelo menos, por agora). Ou seja, o ódio fez-me agarrar à vida. É, mesmo caso para dizer, "o que não mata, torna-te mais forte".

E essa merda é a verdadeira vitória.

quarta-feira, fevereiro 17, 2021

meio mundo não chega

Método contra a infelicidade. Método contra a procrastinação. Método para o esforço. Método para o ânimo. Método para se evadir o envenenamento.

Disposição para aplicar o método. Método para a disposição não virar mais depressa que uma mesa de uma perna. Uma verdadeira fuga em frente, ao pelotão de dúvidas e bisbilhotices que as vozes na própria cabeça, convicto de lhes ganhar em força. Em fúria.

Até um corpo melhor precisa de método. Ideias melhores precisam de método. Ninguém é espontâneo muito tempo se não souber sê-lo.

A parte mais traiçoeira do método é não se poder perder muito tempo com ele. Sob o risco de se burocratizar. De se tornar reactivo e, por isso, inflexível. É antecipar tudo, mas não preocupar com nada. É estar calmo, para provocar receio de explosão. É ser carismático, por recusar ser o centro das atenções. É chegar à cama exausto, e ter-se insónias.

Por isso, o método só se justifica enquanto houver um objectivo à vista. Que deve ser recitado como um mantra, como uma reza. Para puxar a cabeça, e esta puxar o corpo, do veneno que os infecta.


terça-feira, fevereiro 09, 2021

I’ll keep you safe and sacred / just keep your heart close to mine

09 de Fevereiro. O dia amanhece antes de nascer, o que só acontece depois do sol se pôr. Como quando nos juntávamos para celebrar o teu nascimento. Celebrá-lo-ei sempre, e não o aniversário da tua partida, precisamente um mês depois de a parabenizarmos a ela, que ainda hoje pergunta por ti e quando te vais deixar de brincadeiras e regressar a casa.

Sabes? Nós não importamos. Ninguém importa ou se importa. E é uma merda que já não possa ir para o monte encenar histórias até ao anoitecer, nem tu estejas em casa, a dormitar à minha espera. Não importava que não existisse mais ninguém. Nós chegávamos.

Ficar homem não é tão difícil quanto pensava, mas dói muito. Ter medo, dói muito. Apesar de me teres dito que não havia mal nenhum em ter-se medo, que toda a gente tinha. Que tu tinhas. Eu não queria ter medo, e por isso entrava pelo mar bravo adentro, a desafiar as ondas capazes de me derrubar.

Nos dias que correm, acho que nunca houve tantos medrosos como agora. Já não somos só nós. E os loucos que desafiam a natureza, rapidamente se arrependem, porque não têm ninguém que os arraste pela mão, do mar para fora. Do lado de lá da praia, há os que se escaparam a escolher, e se divertem com a indecisão de quem como nós, ficou pelo caminho, no areal. A fazer o melhor que podem.

Pelo caminho, a meio, é onde quero fazer a minha casa. O mais perto possível da saudade que tenho de ti.