terça-feira, dezembro 29, 2015


"Assim, durante a minha primeira semana em Mill City, fiquei na barraca a escrever, a todo o vapor, um conto tenebroso acerca de Nova Iorque que, achava eu, iria agradar a um realizador de Hollywood, e o defeito que a história tinha era ser demasiado triste. Remi mal conseguia lê-la, de modo que se limitou a levá-la para Hollywood umas semanas depois, Lee Ann andava demasiado chateada e odiava-nos de mais para se dar ao trabalho de a ler. Passei incontáveis horas de chuva a beber café e a escrevinhar. Por fim, disse a Remi que aquilo não servia; queria um emprego; era obrigado a fumar cigarros à custa deles. Uma sombra de desilusão perpassou pelo rosto de Remi; ficava sempre desiludido com as coisas mais estranhas. Tinha um coração de ouro."

Jack Kerouac, "Pela Estrada Fora"

quarta-feira, outubro 28, 2015

karate-fighting-tha-shit-outta-you

Mestre e discípulo
mandam as boas maneiras que estejam no topo de montanhas
e o sol se ponha.
Duas graciosas danças
sincronizadas na firmeza.
Duas sombras, dois vultos escuros que performam.
O espectador sonha, a alma voa e o mundo fica a salvo
mesmo que não faça sentido.






quinta-feira, outubro 08, 2015

Nome de Guerra: Jorge

.

"Para que meus inimigos tenham pés, não me alcancem
Para que meus inimigos tenham mãos, não me peguem, não me toquem
Para que meus inimigos tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo um pensamento eles possam ter para me fazerem mal

Armas de fogo, meu corpo não alcançará
Facas, lanças se quebrem, sem o meu corpo tocar
Cordas, correntes se arrebentem, sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge"

quarta-feira, setembro 30, 2015

MASTER AND COMMANDER


Há algum tempo que não escrevo sobre futebol neste espaço; a vitória do Porto, tornou urgente mudar esse facto. Trouxe-me a comichão nos dedos e a ansiedade ao peito que revelam a maior das comoções, que o futebol tem o condão de provocar. Mas não pretendo desfiar sobre tácticas, jogos entre linhas, cadernetas de cromos ou outro desses temáticas que pululam um pouco por toda a internet. O que pretendo é declarar a minha "paixoneta" por André André, o Cinderella Man do momento.
André André tem tudo o que um fervoroso adepto portista pode ambicionar e dá-lhe até mais do que podia sonhar. Começa pelo nome: um dos nomes mais fantásticos dos últimos tempos (na I Liga, só fica atrás de Fransérgio), que fica no ouvido, apetece comentar e gracejar com ele, só por existir. Há toda uma mística que nasce quando um mero nome não nos deixa indiferente. Depois temos o legado do pai, um lendário todo-o-terreno portista com um currículo de títulos do tamanho do pulmão dele, quando o futebol era durinho, os jogadores não se mediam pelos nomes nas camisolas e quando se mediam, não se vergavam. A história do André Jr. então dava um filme (se é que já não há!): pai na estrutura do Porto, onde só faz uma época nas camadas jovens e é reenviado para o Varzim, clube da terra e onde fez formação; o Varzim por aí abaixo e subsiste numa luta pela sobrevivência entre II Liga, CNS e distritais, mas André destaca-se e consegue chamar a atenção do Vitória, também ele debilitado financeiramente; André pega de estaca, cimenta uma equipa com a sua inteligência ímpar do jogo e o espírito de líder, ganha uma Taça de Portugal, chega a capitão, e consegue ser uma das figuras do campeonato num clube que não sabe se fica nos 5 primeiros lugares ou tem de lutar para não descer; e só já depois de passar a linha dos 25 anos, e qualquer agência de rating desaconselharia uma loucura por semelhante jogador, eis que o Azulão deu a mão à palmatória e recuperou o filho pródigo que nunca devia ter deixado partir. Com 26 anos já é fácil rotular um jogador de velho para o Porto, mas ao André só dá vontade de o abraçar porque traz a maturidade de quem já viu  muito futebol português e muito Porto.
Resta o presente, aquela vontade de comer relva mesmo quando não sabe se é ou se vai continuar a ser titular num meio campo com mais opções do que o dobro das posições; mas ele também tem uma raça com o dobro de um jogador normal, como se percebe pelo nome (não resisti). É que além disso, os nossos ouvidos são constantemente martirizados com "toca André André, corta André André, golo de André André" e parece que estamos a ouvir uma lengalenga, ou que algo não está bem com o relato. Mas está! É que o rapaz está mesmo em todo o lado. E ninguém se atreve a dar-lhe esse palavrão de "jogador-vagabundo", que joga onde lhe apetece; não, o André joga onde é preciso. Mais, joga e faz jogar (a meu ver é o patrão que faltava no meio campo do Porto desde que o Moutinho saiu), marca golos porque está sempre onde é preciso, qual ponta-de-lança (e tem o sangue frio que alguns pontas-de-lança de queixo grande e são vendidos por 30 milhões de euros não têm), é dos primeiros a defender, a cometer aquele amarelo cirúrgico, ou o corte imperial que lança o contra-ataque.A cereja no topo do bolo é a sensação boa de que aquele jogador só podia jogar ali: o profissional de futebol tem de estar pronto para jogar em qualquer lado, ainda que não seja no clube do coração, mas aquela alegria não estaria ali de outro modo, nem aquela vontade de dobrar o mundo se fosse preciso para chegar mais depressa à outra baliza. Porque o André André é mais do que um jogador portista, mais do que um jogador que sente a camisola, e muito mais que um jogador com anos de casa. O André André é um jogador à Porto. Que desde o primeiro minuto de Dragão ao peito, até ao último que pisar em campo, vai ser um homem de corpo inteiro, uma espinha só, direita e inquebrável, líder e trabalhador, irracional nas paixões e cerebral nas acções, acima de tudo irredutível na vontade de superar tudo, porque o mundo não chega para o impedir de chegar onde deve estar. Sem empresários, sem cunhas, sem clubes de piça na Romérnia, no Chipre ou caralho a quatro, pelo meio.
Apaixona-me no André André, além do seu jogo e da sua história, a sua celebração de um futebol sem holdings franchisadas de offshores, de percentagens de comissões por cláusulas de rescisão do tio do agente que é advogado num fundo de investimento, ou outro elaborado esquema financeiro que substitua o mérito pela influência dos representantes. O André André é um jogador como os que existiam no tempo em que os clubes de futebol tinham jogadores de futebol, e não activos financeiros ou profissionais do marketing e da especulação. Um futebol mais genuíno e mais apaixonado, como aquele que ainda se vê pela II Liga, no CNS e em alguns clubes amadores. Se quem joga futebol não te arrebata como tu arrebatarias se estivesses no lugar deles, então ver futebol serve para quê?
Por fim, até a alcunha lhe assenta. "Guerreiro" seria um epíteto facílimo de lhe colar, "Conquistador" um bocadinho óbvio, e já há o tenista e um rei que o usam, agora "Mestre" é pô-lo no patamar da cancioneiro popular, aquele que sobrevive a gerações. Como sobrevive o que jogadores como ele são capazes de fazer, não importa quantos vaidosos e presunçosos cheios de brincos, tatuagens, álcool no sangue, coca nas narinas, e dinheiro na conta, achem que são capazes de fazer melhor sem o fazerem.
Obrigadão Dr. Dre! Vemo-nos em casa do Osvaldo!

segunda-feira, setembro 28, 2015

"Tu não tens jeito para mim, eu não tenho jeito para nós."


"Eu e nós não adianta. 
É que eu tenho relações, não mantenho relações. 
Não consigo conjugar o meu trabalho com os teus sonhos."

segunda-feira, agosto 24, 2015

voo picado sobre o desconhecido


"O povo rude da Carteia não podia entender esta vida de excepção, porque não percebia que a inteligência do poeta precisa de viver num mundo mais amplo do que esse a que a sociedade traçou tão mesquinhos limites."

Alexandre Herculano, "Eurico, O Presbítero"

quarta-feira, agosto 12, 2015

IGNITION 2015: "ESTAVA ESCRITO NOS ASTROS / O ENCONTRO DOS SÁBIOS"


Ao longo dos anos tenho-me servido deste espaço para divulgar as edições do Ignition, festival da minha terra organizado pela Câmara Municipal de Penafiel e por uns amigos meus. Desde 2006 que ano após ano, este festival foi aumentando a ambição e a intensidade. Nunca se assumiu como super-estrela, mas como um raçudo duro de roer. Em 2006 os cabeças-de-cartaz eram os D3ö e os Orangotang. Em 2010 eram os The Computers, os Robot Orchestra e os Maybeshewill, que agora andam por festivais de "elite" mundo fora. Enquanto durou, o Ignition encheu-me as medidas e a das pessoas da minha geração. Na altura não havia Valada, Sonicblast, Amplifest, Indie, D'bandada, e só um muito pequeno Milhões de Festa. Havia portanto um nicho na oferta cultural por preencher, e uma vontade de ferro de o ocupar todinho.
Depois veio 2011 e a crise. Os tempos deixaram de estar para brincadeiras, o país gastou os últimos trocos nos esquis para vir por ali abaixo. 5 anos depois da última edição, no seu já mítico formato Rock 'n' Rally, o Ignition voltou a fazer peito, disposto a pedir pulsos no braço de ferro com os melhores. Eu embarquei a bordo da nave da Cosmonaut para esta aventura inenarrável de fazer o Ignition acontecer fosse no mato, fosse na Lua. Ficamo-nos por Novelas.

Do estaleiro nas oficinas da Câmara Municipal de Penafiel, saiu o trabalho dos alunos do INDA, do bacherelato em design e arquitectura da Universidade de Chulalongkorn em Banguecoque que havia de ser o Palco Pop-Up, itinerante na cidade de Penafiel a dar concertos de graça de L, Big Red Panda, The Sunflowers, e 10.000 Russos.
Como um workshop nunca vem só, seguem-se em Agosto os Laboratórios Ignition a cargo de Nuno Pimenta, La Fresquera, fPoetics, Epiforma e Zé Burnay, a abrir o festival à comunidade para construir e desenhar o festival a que os próprios vão. Nunca um compromisso tão grande foi oferecido a troco de tão pouco.
Mas eis que o cartaz fecha, e para todos os efeitos é dum cartaz de música que se trata. Brontide, Toundra, Girl Band, The Octopus Project, Vision Fortune, Suum Cuique, Sudakistan, Turzi, Lukid, Killimanjaro, Equations, Filho da Mãe, Catacombe, El Páramo, The Japanese Girl, Desligado, Twisted Freak, Maga, Jesse, OroborO, Frank Nefasto, e Equipo Atómico Maradona Megamix. Poder juntar em 3 dias de Setembro nomes que há muitos anos quero ver ao vivo é dum prazer sem limites. Prazer que rebenta a escala ao receber feedback positivo de fãs de música espalhados por esse Portugal fora com a mesma fome de concertos únicos em sitios únicos que eu e os meus temos. As noites sem dormir vão valer a pena, e o nome de Penafiel a circular no mundo da música vai ter a melhor das razões de ser.
Esperamos o embarque dos demais Cosmonautas. Cabem todas na nossa nave de madeira.

Dias 11, 12 e 13 de Setembro - Quinta de Carrazedo, Penafiel.
Bilhetes de 3 dias a € 10,00 até 15 de Agosto e a € 15,00 partir dessa data.
Bilhetes diários a € 7,50.

Site: http://www.ignitionfest.pt/
Facebook: https://www.facebook.com/ignitionfest
Instagram: https://instagram.com/ignitionfestpt/
Youtube: https://www.youtube.com/c/IgnitionfestPttv
Bilhetes: http://www.bol.pt/Comprar/Bilhetes/28473-ignition_penafiel_2015-ignition

sábado, julho 25, 2015

"As the riders loped on by him, he heard one call his name
If you want to save your soul from hell a-ridin' on our range,
Then cowboy change your ways today or with us you will ride,
Tryin' to catch the devil's herd, across these endless skies."

 

sábado, julho 11, 2015

dinner in hell for two.


"Once I’m dead, I won’t even be able to remember you. So I’ll win, no matter what. I’ll live, no matter what!"

- "Attack On Titan"


segunda-feira, junho 29, 2015

"this is the end, friend."


a emoção acabou. o estremecimento, a vertigem, o arrepio. tudo acabado.
reina o medo, através de golpe de estado sem derramamento de sangue.
o medo imobiliza, prende e compra-te vícios.
cria-te ilusões para não achares que estás a viver morto,
mas morto de medo.
a esperança num sol depois das nuvens acabou.
só o medo existe.
e eu sonho com entrar em pânico.
porque o medo imobiliza, prende, compra-me vícios
e amarra-me à morte.
o pânico empurra tudo e todos, o pânico age.
o pânico é sobrevivência, nem que a sanidade fique no caminho.

quinta-feira, junho 11, 2015

a alma dos árvores


ama-te a ti própria
como eu te amei.
como eu me amo hoje.
como amo o vento que me rasga
e eleva.


"Run, run my little one
Run out to sea
Run, run my little one
What do you seek?

The canvas is high
The scheme of a life
Written in the wind
The pen, the knife"

segunda-feira, junho 08, 2015

"O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto."

Ruy Belo, "Homem de Palavra(s)"

 

segunda-feira, junho 01, 2015

o sonho mágico do cáustico maldito

«'That's Mr Battle,' said Garry. 'He's crazy, but you can't help to liking him.'
Battle seemed to be dancing, singing, whispering, and talking all at once.»

Malcolm Lawry, "Lunar Caustic"


terça-feira, maio 19, 2015

terça-feira, maio 05, 2015

they come down / they come down the Wall


"Eu estarei em qualquer sítio na escuridão. Estarei em toda a parte, em qualquer sítio para onde a senhora se puser a olhar. Onde quer que que se lute para que as pessoas com fome possam comer... eu estarei presente. Onde quer que a polícia esteja a bater num tipo, eu estarei presente. Imagine se o Casy soubesse disto! Estarei onde se vejam duas criaturas a gritar de raiva... e estarei onde as crianças sorriam porque têm fome, mas saibam que a ceia não tarda. E quando a nossa gente comer aquilo que planta, e morar nas casas que construir... então também eu estarei presente."

John Steinbeck, "As Vinhas da Ira"

terça-feira, abril 14, 2015

blowin' in the wind



"Fá-lo compreender que está a roubar-nos o tempo. Faz com que ele se sinta na obrigação moral de comprar. As pessoas em geral têm sentimentos. Não gostam de prejudicar ninguém. Faz com que elas sintam que estão a dar prejuízo, a fazer-nos perder tempo. Depois, impinge-lhes o calhambeque."

John Steinbeck, "As Vinhas da Ira"

quarta-feira, abril 01, 2015


"Os grandes proprietários atacavam o que lhes ficava mais próximo: o governo de poder crescente, a unidade trabalhista cada vez mais firme; atacavam os novos impostos e os novos planos, ignorando que todas essas coisas são efeitos e não causas."

John Steinbeck, "As Vinhas da Ira"

sábado, março 28, 2015

"The End Of An Era"


Porque Mad Men está a acabar, colou, ficou, e no fim de uma era de metáforas a roçar a perfeição televisiva, amor vida e dinheiro só me faz evocar o vulto elegantemente sombrio de Don Draper.

terça-feira, março 24, 2015

"with a hole in your belly and a gun in your hand"

"A coisa que me preocupou mais foi que aquilo não tinha pés nem cabeça. Não nos pomos a pensar se a coisa está certa quando um raio mata uma vaca ou nos cai em cima uma inundação. Já se sabe que é assim mesmo. Mas, quando uma porção de homens nos agarram e nos fecham à chave durante quatro anos, deve haver nisso alguma significação. Dizem que os homens meditam sempre no que fazem. Para ali me meterem, me conservaram e alimentaram durante quatro anos. Isso, ou deve fazer com que eu não queira voltar a praticar o crime ou então deve ser um castigo para que eu fique com medo de voltar a praticá-lo. - Aqui Tom fez uma pausa... - Mas, se o Herb ou qualquer outro se virasse contra mim, tornava a fazer o mesmo. Fazia-o até antes de poder pensar. Especialmente se estivesse bêbedo."

- John Steinbeck, "As Vinhas da Ira"

segunda-feira, março 23, 2015

When I heard at the close of the day

"When I heard at the close of the day how my name had been receiv’d with plaudits in the capitol, still it was not a happy night for me that follow’d,
And else when I carous’d, or when my plans were accomplish’d, still I was not happy,
But the day when I rose at dawn from the bed of perfect health, refresh’d, singing, inhaling the ripe breath of autumn,
When I saw the full moon in the west grow pale and disappear in the morning light,
When I wander’d alone over the beach, and undressing bathed, laughing with the cool waters, and saw the sun rise,
And when I thought how my dear friend my lover was on his way coming, O then I was happy,
O then each breath tasted sweeter, and all that day my food nourish’d me more, and the beautiful day pass’d well,
And the next came with equal joy, and with the next at evening came my friend,
And that night while all was still I heard the waters roll slowly continually up the shores,
I heard the hissing rustle of the liquid and sands as directed to me whispering to congratulate me,
For the one I love most lay sleeping by me under the same cover in the cool night,
In the stillness in the autumn moonbeams his face was inclined toward me,
And his arm lay lightly around my breast – and that night I was happy."

- Walt Whitman, "Calamus"

sexta-feira, março 20, 2015

o último poema

A poesia acabou contigo
E com este trabalho.
Depois veio o carro,
Tive de saber conduzir a minha vida.
Ainda há pouco eu era fato e gravata,
Homem em missão a sul do douro.
Agora sou só Penafiel.
Como na primária. Como na prisão.
A poesia acabou comigo
A escolher ser eu.
Deixei tudo o que existe.
Só existe saudade.
E se eu sou saudade
Então sou saudade do que nunca tive
Do que nunca fui.
Pois esse tempo passado avança
Enquanto estagno.
Mais um copo, mais um cigarro
Mais um analgésico para a memória.
Quando o pano cai
Nem o comediante sou.
A História começa com o Comediante morto.
Nunca enganei ninguém. Sou mau advogado.
Nunca fui bom para mim
Não poderia ser bom para o mal.
Apenas um caso perdido. Um beco sem saída.
Não há poesia em nada disto
Porque a poesia acabou contigo.
Não a levaste. Não é tua para a devolveres.
Nem deste trabalho.
Nem do meu carro.
Nem do futuro.
Porque tudo isso acabou.
E não recomeça
Enquanto eu não acabo.

quinta-feira, março 19, 2015

saudades de: a) um tempo justo; b) um fim para a tormenta; c) ti


"E um fado que me conte
Quanto é triste esta partida

Deixar tudo o que existe
É tão forte esta saudade
Minha alma lá persiste
Ao deixar a faculdade"

segunda-feira, março 16, 2015

a corda do elefante sem corda / a culpa morre solteira


"O condutor sentava-se no seu assento de ferro e sentia-se orgulhoso das linhas rectas que ele não traçara, do tractor que ele não possuía nem amava e do poder que ele não podia controlar. E, quando aquela plantação crescia e era colhida, nenhum homem havia esmagado um torrão quente nem peneirado a terra por entre as pontas dos dedos."
- John Steinbeck, in "As Vinhas da Ira"

domingo, março 08, 2015

oito do três


"Acho que estás enganado. Não se trata de um assassino em série louco que se pôs a ler a Bíblia de pernas para o ar. É apenas um vulgar filho da mãe que odeia mulheres."
Stieg Larrson, in "Os homens que odeiam as mulheres"

sábado, fevereiro 28, 2015

(o bom, o mau) deixa-os pousar


o sol, veio de boleia com a noite, e ultrapassou o nevoeiro de primavera de gás, dia adentro. metereologia, meus amigos, começa sempre pela meteorologia. para sacar cervejas do frio e preparar bifanas ou desabotoar os botões dos punhos das camisas e arregaçar-lhes as mangas. mas no final, tudo acaba com o tempo. porque o tempo passa, sem sermos heróis ou vilões. o maniqueísmo e a catequese estão mortos. o rock não é hardcore, a cerveja é contada e o futebol é a passo que não de corrida. 'deixá-los pousar' de arte a ciência porque as nossas pernas já não são as de brinca na areia.
haja sol. haja uma meta. haverá sempre mais um sprint. mesmo quando o tempo já tiver acabado.

sábado, fevereiro 21, 2015

"i had such fuckin hopes for us"


o teu sentido prático desaponta-me. 
eu também sei que não vou a lado nenhum, e não me troco por ninguém.
tive medo que não estivesses a compreender,
por isso repeti-te muitas vezes que te amava;
que se partisses, me arrancavas pele e carne, como arame farpado.
(depilação de carne com aço)
as tuas hesitações não venceram a oportunidade.
só aumentaram a dor.
eu disse-te e mostrei-te as cicatrizes que iam ficar abertas.
fi-lo a cantar
com berros e pontapés no ar.
eu tinha tantas esperanças para nós!
encontrados nos cruzamentos do futuro,
que tipo de dança vamos dançar?

"I'm begging, please come back to me!
A life is now at stake
If you don't soon return
You're gonna drive me to my grave"

domingo, fevereiro 15, 2015

o frio é um lugar estranho

Por estes dias, o cinzento é omnipresente. Eu diria que o próprio ar é cinzento. Como um filtro fotográfico, a meteorologia realça a cor de chumbo das imagens que os olhos captam. Em reacção, o corpo pede malgas de nescafé quente com açúcar, um aquecedor a óleo ligado no interior de uma casa velha onde as madeiras rangem quando o vento sopra, ou algum colega de andar arrasta a ressaca para a sala, para uma matiné domingueira de SporTV.
O Inverno, e a iminente Primavera, relembram-me saudades do meu Bintoito. Porém, a imagem que me surge mais nítida são a das viagens que faço por esta altura. Delft, Barcelona, Paris, com destaque para as centro-europeias. A geografia dessas latitudes compreende melhor esta época do ano. Nós, "latinos" somos duros mas os chiares de joelhos e pingos no nariz dobram-nos como plasticina.
O meu corpo surpreende-me com uma carência, mimela, de frio a sério. Do sol gelado sobre a Torre Eiffell e os Campos Elísios; mãos acolchoadas à procura da câmara para registar tudo; a companhia do Leitão no papel de guia e turista pela Paris que quer conhecer pelos olhos de outra pessoa; o rio, as ilhas, uma cidade com charme de uma aristocrata poetisa e musa. A Holanda falta-me nos serões de panrico com nutella, num quarto com aquecimento no máximo e na habitualidade serena da legalidade daquelas paragens; Delft existe sem correr, como os canais debruados de neve; as pessoas geladas deslocam-se em bicicletas: têm tempo e assim é melhor. Quem diria do enérgico Nuno Sousa um exemplar cidadão holandês? A forma simples como, sacramentalmente, a noite do grupo de tugas, não poucas vezes acompanhado de brasileiro e sueco, se dirigia das suas residências para determinados bares onde os cantos da casa são conhecidos até de olhos fechados. A busca incessante de um EP local como se de um Santo Graal se tratasse. Amanhã poderia estar abraçado a essas rotinas como se fossem minhas desde sempre; a familiaridade do percurso e dos companheiros são determinantes. Ainda que ensombrado pelo desgosto, vigiado pela inocente rapariga do brinco de pérola no hangar, e a neve parecesse que nunca se iria embora.
O meu corpo, carente e mimelo, quer festa. Deitar-se num colchão improvisado numa cidade diferente, e sujeitar-se a aventuras com pessoas que conhece desde sempre. Habituou-se mal. Conseui aldrabá-lo, porém, com a incursão às aldeias de xisto, nas montanhas. As montanhas! Senti-o como se tivesse 5 anos outra vez a brincar no monte do meu avô, ou no quintal entre as espigas de milho.
Por agora, Penafiel, o meu inferno, é tudo o que me resta. Igual em todas as alturas do ano. Como o meu ADN.

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Boaz and the dogs


Fantasmas de olhos claros
verdes, azuis, cristalinos
assombram os meus olhos
e as imagens onde pousam.

Fantasmas de olhos claros
omnipresentes, unos, no passado e presente.
Delineados em marca d'água
nas ondas da memória
no mar que nada esquece.

Fantasmas de olhos claros,
vultos calados que escrutinam,
pacientes, a minha ânsia,
observam, sem dó, a minha sede
e o fumo que não sai da minha boca.

Fantasmas de olhos claros
marcados na minha carne
do lado de dentro da pele,
são assombrações.
Os seus corpos nunca pertenceram aos olhos do meu.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

bitch, don't kill my vibe


Perseguido como uma presa
por caçadores mortos
numa planície morta
espalhada até
montanhas mortas.
Aqui só existo eu
a ser caçado.
Assombrado e perseguido.
Olho em frente.
Olho em frente
senão caio e morro
esmagado,
caço.
O além é só uma latitude e longitude diferentes daqui.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

o regresso nunca foi possível


"So let's face it this was never what you wanted
But I know it's fun to pretend
Now blank stares and empty threats
Are all I have, they're all I have.

So drown me and if you can
Or we could just have conversation.
And I fall, I fall, I falter
But I'll find you before I drift away"

"o regresso nunca foi possível.
      o verdadeiro fugitivo não regressa, não sabe regressar.
reduz os continentes a distâncias mentais.
aprende a fala dos outros - e, por cima dele, as constelações vão esboçando o tormentoso destino dos homens.
      pressinto uma sombra a envolver-me. ouço músicas...espirais de som subindo aos subúrbios da alma.
      e acendo o lume das pirâmides, onde o tempo não foi inventado, e renego a alegria.
      não semearei o meu desgosto, por onde passar.
      nem as minhas traições."

- Al Berto, in "Horto de Incêncio"

quarta-feira, janeiro 07, 2015

exploding tree


"Are you, are you
Coming to the tree?
Where I told you to run,
So we'd both be free.
Strange things did happen here
No stranger would it be
If we met at midnight
In the hanging tree."