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quinta-feira, julho 06, 2017

paranóia, paranóia

cresce a minha intolerância com os "jeitos", os "arranjos", e as "conivências". a sua mera possibilidade provoca o meu ranger de dentes, levantar de sobrolho e rosnar de impropérios. a visão de três ou quatro casas, umas em cima das outras, com portas e janelas em cima da estrada, num quelho qualquer arrepia-me os pelos do pescoço e cheira-me a cunha. a construção de uma rotunda com duas saídas e um mamarracho de ferro ao meio é encarada com um insulto à pessoal. cada árvore abatida solitária num jardim, ou fuzilada em grupo num monte, para mim são clareiras, a crescer viralmente, quais buracos de bombas em cidades em guerra. e em cada nomeação, em cada contrato, em cada programação eu vejo uma intenção e um cheque que lá não devia estar, e o denominador comum de prejuízo a longo prazo, que foi conscientemente calculado pelos especialistas (provavelmente, primos, tios, ou sócios de quem os encomendou). assim, com o avançar da idade, a minha visão apodrece. o problema é meu que antes via bem, e não via estas relações inimagináveis. ou sentia este sufoco, esta abafada ameaça de trovoada.

"I've got this epic problem
This epic problem's not a problem for me
And inside, I know I'm broken
But I'm working as far as you can see

And outside, it's all production
It's all illusion, set scenery
I've got this epic problem
This epic problem's not a problem for me"

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Tire Me

eles bem tentaram. deixaram-me às tiras. por sorte, não engoli as tripas do chão que me beijaram. eles esperaram que fosse o coração. por onde andaram a passear o seu verão. estou cansado, e os dias passam por mim, desfeito, os raios de sol passam por mim, são caços por outros caçadores, que passados por mim, prosseguiram. eles bem tentaram. eu bem tentei. os dias bem passaram mas eu não emigrei. os continentes bem desalinharam, como eu sonhava, mas eu fiquei. fatiado, mas fiquei, alinhado. bem sei, o sol queimará mais forte de ora em diante, logo é cedo para a fatiga. para o objectivo que desobriga de ficar. e continuar, cansado, num tempo sem tempo, a olhar para um passado sem ninguém senão sombras da memória límpida que construí e me prende, contra o vento, os trapos do corpo.


noise field from xgabberx on Vimeo.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Pratica(mente): Fugazi

"Não penso no futuro, e não perco muito tempo no passado, embora seja responsável pelo meu passado, de outra forma não estaria ao telefone consigo. A banda nunca foi uma loja ou um negócio. Sempre nos preocupámos com a música, antes, durante e depois dos concertos. E procurámos fazer coisas esteticamente interessantes, que estimulassem as bandas a desafiar o domínio do mercado. Para que fosse a música, e não o dinheiro, a guiar as pessoas."

- Ian Mackaye, in "Fugazi: quando o rock era rebelião", retirado do site da "Ípsilon"


Como é bom ouvir um dos grandes falar assim. Isolado neste maciço mundo de massas, é cada vez mais difícil encontrar ecos de opiniões sinceras, marcadas por uma inocente inclinação para o mal e desmesurados saltos apaixonados pela música.