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segunda-feira, junho 30, 2025

o dia de todos os santos

O enraizamento da devoção aos santos na fé cristã faz esquecer, ainda que por descuido, que aqueles foram homens e mulheres como nós, em tempos. Raras vezes a santidade lhes foi atribuída à nascença. Muitas vezes conquistada através da morte. E, quase sempre, reconhecida depois dela. Mas como nós, e como Cristo, nasceram, cresceram e morreram.

Se formos justos, aqueles que reconhecemos como santos, apesar de humanos, foram menos que pessoas. O que se compreende. Se assim não fosse, a sua fé e integridade física não teriam sido testadas e sobrecarregadas até á sua sagração como mártires, e à recompensa divina de conviver com o próprio Senhor. Por comparação, aqueles que aproveitaram a plenitude do seu tempo na terra, a ela regressaram de forma mais definitiva.

Já os santos, acometidos de intervenção divina, prometeram-se a um lugar nos céus, ainda em terra. O seu cálculo, porém, foi pouco esclarecido, visto que os céus pertenciam a um só Senhor, ao qual pecadores, como eles nunca se equiparariam. Subidos ao Éden, imediatamente, aceitaram as consequências da sua falta de previdência, e se remeteram aos lugares secundários do eternidade, bem assim, como no culto.  

Ainda assim, a todos os seres celestes e divinos a sua presença era inusitada, à falta de melhor expressão, e difícil de explicar. No entanto, a tal desígnio os haviam devotado os costumes dos homens, com o beneplático divino do Todo Poderoso, e já não era coisa pouca.

Impedidos de se sentar à direita ou à esquerda do Pai, acederam em se sentar atrás dele, do Filho e do Espírito Santo. Assim, se multiplicaram num vasto auditório durante a evangalização da fé e o decorrer dos milénios. Nunca precisaram de se organizarem ou sindicalizarem. Para hierarquias bastavam os anjos, já para providenciar pelas preocupações terrenas estava lá a Mãe de Deus. Quando entendiam dever exprimir alguma ideia, faziam-no através da voz de São Pedro, o primeiro dentre eles. Mais por educação do que por imperativo das suas funções. Afinal de contas, Deus conhecia todos os seus pensamentos, pelo que a liberdade de expressão era uma formalidade.

Porém (e porque há sempre uma adversativa nas grandes histórias ou nas grandes reflexões), Deus permitiu-se a que os seus desígnios fossem progressivamente mais insondáveis, à medida que a sua doutrina alastrou pelo mundo. De tal modo que a sua localização, se tornou ela própria insondável. Ao mesmo tempo que os filósofos terrenos se insurgiam contra a ditadura dogmática do pensamento divino, proclamando a morte Dele, e os seres humanos o substituíam nos seus pensamentos por bens materiais, Deus, efectivamente, desapareceu de cena. Assim na erra, como no Céu. E com Ele, todos os anjos, arcanjos, a Virgem, e claro, logicamente, o Filho e o Espírito Santo.

Foi, portanto, uma santa assembleia muito confusa aquela que se deu conta da ausência de Deus, quando mais necessitavam do seu conselho. E assustada ao constatar que repousava sobre os seus martirizados ombros, a responsabilidade de gerir os destinos do reino dos Céus, sem qualquer legitimidade, hereditária ou democrática. É que na Terra, os homens haviam-se voltado a matar uns aos outros, e enquanto o faziam, rezavam a alguém que não acreditava que os ouvisse. Apenas os santos tinham ficado para responder à chamada.

terça-feira, março 23, 2021

A reter

 De onde tinham vindo os eucaliptos?

O pai plantara-os na sua ausência, durante a recruta. Mas, confrontado, o velho negara. Os eucaliptos sempre ali tinham estado, dissera-lhe. Que já o seu paizinho os havia plantado, e que ele se limitara a acrescentar mais alguns. Era árvore que crescia rápido, e garantia bom dinheiro. Ele discordara. Não se lembrava daquelas árvores ali. Iam secar tudo. As pereiras, as nogueiras, a horta. Iam dar cabo do quintal do avô. O pai mandara-o deixar-se de merdas.

Pela primeira vez, desde que se lembrava, sentira o terrível poder da mudança. Inelutável e irracional. Avassalador triturador de memórias, que se tornavam cambiáveis por dinheiro. O refúgio idílico da sua infância era e não era ao mesmo tempo. Todos os dias o esperava, do lado de lá da rua, quando acordava, com uma cara e nome novos que nunca mais poderiam ser alterados.

Reprimiu o que sentia com mestria, como aprendera em casa e na tropa. Por pouco não vertera uma lágrima. As boas memórias já não existiriam no mesmo plano da realidade. Apenas a mudança e as suas consequências eram certas. Quem não mudasse nada, seria mudado. Aprendera a lição à primeira. Fora sempre bom aluno.

sexta-feira, março 12, 2021

A looser, a drunk and old man walk into a bar

Voltou a entrar no café. O pai via o noticiário da manhã de braços cruzados atrás do balcão, com a sua postura hirta e desconfortável. O Manel ria-se com os seus botões, entretido a fazer perguntas retóricas sobre tudo e mais alguma coisa. Os camionistas já tinham saído. A tijoleira do chão ressoava, por causa do nevoeiro. Estava um frio desgraçado e todos eles vestiam casaco dentro de portas. Portugal era mesmo uma merda.

quarta-feira, outubro 10, 2018

28 anos depois

Hall de entrada de um condomínio, entre o elevador e a porta, Estados Unidos. Joe Rogan, polémico nomeado pelo Partido Republicano, ensombrado por uma série de acusações de assédio e violação, preside à sessão. À sua frente, à direita, o candidato do Partido Republicano, à esquerda o do Partido Democrata. Ambos afinados pela mesma bitola, discurso, tom, moral e cara. O público, políticos, jornalistas e curiosos, escondiam-se nas sombras do campo periférico de visão. Eu, nervoso, frente a frente com o triunvirato de protagonistas, ia respondendo às suas perguntas e considerações sobre o meu carácter, com a desenvoltura e comedimento que a solenidade da situação me permitia. Não estava, de todo confortável. Timidamente em desespero, coloquei em causa a legitimidade do presidente do comité para me estar a inquirir, quando também ele falhara para com o povo e a lei. Nunca conseguira refutar, inequivocamente, as acusações que lhe haviam feito, e que não pondo em causa a sua competência, haviam aniquilado o seu bom nome e credibilidade junto da opinião pública, condições indispensáveis para o bom cumprimento do seu mandato. Os candidatos trocaram olhares apreensivos. Rogan respondeu laconicamente, comprometido e cansado, com a certeza de estar numa posição inatacável.
Entretanto, foi entregue um envelope a Rogan que o abriu, cautelosamente. O documento que lá se encontrava, desdobrado, revelava a letras garrafais RAIVA FEMININA. Rogan levou uns dedos trémulos à face, e envelheceu subitamente, enrugando, perdendo cabelo, que ficara grisalho, enquanto os olhos e a boca espumavam sangue. Num assomo de loucura, perante o pânico dos presentes, gritou-me: "O que importa se sou acusado, quando vou morrer?" E riu-se para mim. Uma gargalhada rouca e ensanguentada salpicou a minha cara.
Apenas tive tempo de fugir, já condenado.

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

A Mulher da Loja de Ouro

Fechada entre 4 paredes, ela fazia o ganha pão de muita gente; alapada erguia muitas mais 4 paredes, clones daquela, ao pormenor, em muitos mais lados, com muitas mais como ela, alapadas, prontas a erguer outras tantas 4 paredes, em tantos outros lados. À frente, a mesa, atrás a imagem de nosso senhor jesus dinheiro, um quadro pechisbeque de um euro, como se quem entrasse na merda daquela garagem não soubesse já ao que ia, não soubesse por que ia ou pelo que com que dali queria ir. Estes cabrões gananciosos são todos iguais. Não há doutrinas, nem ensinamentos, nem ideologias, nem mandamentos, nem crenças, nem manias na hora de entrar mais dourado que uma caixa de pescado e sair mais forrado que um casaco de penas. Todos, todos silenciosos e ponderados, calculavam a passos rápidos o que negociar diante dela, rápido, àquela mesa de negócio, pequenina, que mais lhes parecia uma mesa de talho ou de operações, só que enfeitada com uma calculadora ao invés de bisturis ou cutelos. Mas nas mãos dela, aquela calculadora também podia ditar a carnificina. Ou apagar uma. Entre as 4 paredes nunca se ouvia um pio. Nem o capanga que a menos de meio metro da parede atrás dela lhe protegia as costas de qualquer cabrão que se quisesse auto-promover a gringo. Mas tranquilo, até o capanga relaxava, dormia, comia ou pinava, ou o que quer que fosse que fazia lá atrás. A escória queria-a viva, claro, e bem viva, para lhes trocar o ourinho. Depois já se sabia. Chegava as 18h, ela fechava o tasco, fazia de conta que o capanga não existia, ia buscar os putos ao infantário e ia para casa fazer o comer.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

o precipício.

Ela pensava nele a toda a hora. Por muito incompreensível que fosse. Ela era assim: uma máquina de paixões e exímia na nobre arte de as expor. Ou antes, de as berrar. Descobrira havia uns anos que berrar era uma forma de passar pontos de vista aos fracos de espírito que a discussão ou o debate dificilmente superavam. E o que alguns fracos de espírito em particular, ainda percebiam menos era como é que essa forma apaixonada e desassombrada de ter pé na existência humana era passível de coabitar com o mais belo pôr-do-sol observado da mais bela falésia, ou de conviver entre raparigas lindas de morrer e brutamontes implacáveis e dedicados, ou mesmo com lágrimas, genuínas, de comoção. Ela percebeu que pensaria nele a toda a hora, e pensaria nele assim para todo o sempre, desde o dia em que fora arrastada por amigas para um concerto dele. Uma das amigas conhecia o vocalista que passava os fins-de-semana com os pais numa casa perto da sua, na cidade delas, e passava o resto da semana lá longe, com o resto da banda. Uns durões, uns engatatões, e uma merda de banda. Mas eles esfolavam-se por uns saltos do público. Eles berravam cada palavrão como se fosse um ámen e cada concerto fosse a missa do galo. A amiga não desistiria enquanto não fizesse a sua jogada; ela foi atirada aos leões que batiam no coração dele, que era o baterista. Provavelmente, à data seria o mais dotado musicalmente, e sem dúvida, em palco, o mais explosivo. Igualmente o mais calado. Ela perguntou-lhe pela tatuagem embrionária do braço dele; ele respondeu-lhe que ele próprio a desenhara e que demoraria a completar, muitos anos, até percorrer o braço todo, como o sangue das veias, que correm uma vida inteira. Ao canto, a amiga e o vocalista comiam-se, junto ao palco ela decidia fazer uma tatuagem e os dois apaixonavam-se. Ele ensinara-lhe tudo o que ela sabia, como ele próprio aprendera, na base do instinto, da força de vontade, à excepção do amor, que a ele faltara e a ela agora sobrava. Corriam, como dois cães, meio país para ver concertos, encontrar-se, amar-se às escondidas nos jardins de terreolas sem nome, onde houvesse uma música, uma festa, um tatuador que lhes desenhasse o destino, ou uma farra que os fizesse esquecer que no amanhã cresceriam. Ela não percebeu ao certo como desembocou no dia em que se apercebeu que crescera, mas o dia marcou-se-lhe a fogo na mente. E no pulso. Enrolando o Jack de um microfone nas rosas tatuadas que se enrolavam no seu pulso, decidiu que faria ela também uma banda. Teria já dois ou três anos de namoro? Parecia já ter envelhecido até ás portas da morte do lado dele, renascido e ainda ter chegado a tempo de se apaixonar outra vez. Ela era indubitavelmente outra. A faculdade já a conhecera, e já se convencera que a teria de esquecer pois ela tinha esse magnífico dom de falar como se mordesse, quando a mordiam sem ninguém ver. Logo não se compadecia. Percebeu o quão berrar podia ser inútil num mundo civilizado e calculou a melhor forma de se afastar dele, sem que deixasse de poder aproveitar-se das suas vantagens. Hipocrisia com hipocrisia se paga. Fartara-se das epifanias de maturidade do grosso das suas amigas e conhecidas, das desistências de inúmeros fracos de espírito, e lamentava a partida de guerreiros de coração de ouro a quem a vida vergou antes das derrotas. Ele continuara por perto, sempre a ampará-la no seio da sua mente, e ela não o esquecia. Ainda que ele estivesse no outro lado do mundo, aparentemente irreconhecível para o jovem baterista que ela conhecera em tempos e a fizera ter vontade de partir este mundo e o outro em dois, em quatro, em vinte mil pedaços. Aparentemente porque a sua aparência se tornara um meio de fidelizar o exterior da sua podre condição de ser humano ao fogo que lhe ardia nas vísceras e que água alguma abafava. Ela era mais modesta, mais prática, mais incisiva, eventualmente, impiedosa. E ele agora estava longe, nunca do seu coração, e ela queria uma banda. Ao passo que ele já deixara a sua, porque a sua música não era suficiente para pôr cá fora o que vivia por dentro. No fundo, sabiam que esse sonho teria de acabar porque tanto sentimento precisava de um vaso onde depositar as sementes e aquela banda era arremessá-las contra o vento. Não foi surpresa para ela que ele tivesse deixado esse sonho; nem que para ele tivesse sido um desgosto de uma vida, que não assumiu, ela, porém, não deu conta de uma nota de crescimento, naquela decisão. Apenas na sua própria decisão, de fazer verter o líquido vivo da sua própria essência em canções de guerra. Não mendigou a ninguém: logo só lhe restaram duros juntos de si. Como os fiéis pajens de uma linda princesa de tatuagens nos braços, calças esfarrapadas e com uma voz capaz de esmurrar qualquer arruaceiro. Todos eles, menos ela, já sabiam ao que iam. Chegou-se a pensar que a exposição constante ao fracasso a iria massacrar, mas ela levantava-se sempre uma e outra vez. Sabia de que massa era feita a carne dos guerreiros, até sorria só de pensar que a sua podia não ser desse género. Pensava nele, como pensava a toda a hora, e erguia a voz às guitarras, e aos baixos e às baterias da sua pequena irmandade até a garagem ameaçar sucumbir de pequenez. Entretanto ele não voltava. Nem comunicava se voltava. E às tantas voltou e ela não soube. Os meses passaram-se, e a chuva já lavava a calçada com as suas lágrimas. Essas dores de crescimento ela sentiu bem, como não sentira as espinhas secar, os ossos a subir, ou as formas de mulher a desenhar-se. Só mesmo o sufoco do seu coração a bater pequenino, e cada vez mais pequenino. Nas horas em que parecia perder o controlo e se enviava país fora em busca de rastos e restos dele por esse mundo que ele não entendia e que ela aceitava na medida que os unia, mas sem sucesso. Era pior do que se ele tivesse morrido. Pegar no microfone era uma tortura maior do que carregar uma cruz, ou suportar as próprias contas com os próprios rendimentos, que com os próprios pés eram levados a uma repartição de finanças para serem devidamente tributados, sob o olhar pouco auspicioso da desconfiança alheia por uma rapariga tão bonita a viver sozinha, com os demónios que marcara na pele e que a haviam abandonado para sempre. De tanto segurar aquele microfone, as marcas do cabo cicatrizariam no seu braço. Os colegas já só lhe reconheciam a voz pelas letras em inglês, porque de resto ela não a partilhava com mais ninguém. Depois do êxtase de ter a própria alma a comandar os seus actos, ela atravessava a fase mais dramática do crescimento: a perda. A maior de todas. A pior de todas. Que por ser tão dura e tão inultrapassável, não permitia que ela deixasse de crescer. Que ela ficasse ali para sempre, que ela suprisse a sua falta, que ela aprendesse com essa falta. Tudo o que ela podia ter era ele, só ele poderia lá estar, e mesmo não estando ela era capaz de jurar que fazia pela sua cabeça o percurso diário dele, em cada pormenor, sobreposto ao seu próprio percurso que se desmazelava e deteriorava com um esfarelamento de areia molhada, descambado por uma criança maldosa. A única excepção, era a voz. E as palavras que ela trazia nas pontas dos dedos, sussurradas por estas para as folhas de papel, que ela, a final, com uma visão de profeta contestatária erguia lá ao alto, contra a luz da garagem, declamando-a à fúria de todos os átomos da Terra que a quisessem ouvir. Às tantas, chegou o primeiro concerto. Tivera de atar ligaduras aos pulsos. De massajar os ombros. Beber muita água. Desejavam-lhe sorte, mas ela preferia que lhe desejassem paz. De sorte precisava quem não trabalhava, e esse não era o seu mal, nem dos seus. Tinham trabalhado muito no duro. E não lhe fazia diferença que fossem dos primeiros a actuar, ou não pesasse tão pouco o seu nome na hora de estipular o cachet. Porém, movidos pela curiosidade que a voz de uma rapariga que desabridamente amassava carros, rachava passeios e estalava os prédios velhos das redondezas da sua sala de ensaios, alguns desconhecidos juntavam-se nas filas da frente para assistir ao fenómeno; alguns sabiam até os refrões de trás para a frente. Os seus colegas de banda estavam ansiosíssimos por libertar a fera do fruto do seu trabalho, mas temiam pela imprevisibilidade da outra fera, a que ditava o seu comando e que, não sendo instável, era imprevisível. Pois, o problema é que ela queria mais que eles se fossem foder todos. Não teria problema nenhum em deixar isso bem claro. E quando subiram ao palco, era isso que ela queria. Sempre com ele na cabeça, no coração e na pele, ela queria que eles se fodessem todos. Todos eles que tinham viajado de tão longe para a ver. Que fossem para a puta que os pariu, os que se atropelavam em cima do palco e como irmãos e irmãs a abraçavam como nunca nenhuma família de sangue o fizera, e que estariam tão presentes dali em diante no resto do caminho como ele, que desaparecera, não estaria nunca mais. Pela primeira vez nesta história ela chorou de felicidade. Uma lágrima marota, camuflada pelo seu sarcasmo autoritário. Faltava uma música, e ela então viu. Viu-o a ele. No único sítio, se houvesse um sítio ali para ele, onde ele poderia estar. Como estava. A vê-la. Sorridente. Como ela. Mais velha e crescida, mulher que pegara em armas, como ele homem feito, desfeito e reconstruído, abatido pelos sonhos, náufrago da ilusão que regressara para um amor que já se perdera. E ambos o sabiam. Mesmo quando se sorriram como se o mundo tivesse pedido aquele desfecho para morrer em paz. Mas não: faltava-lhes uma música. Ele chegou-se à frente de punhos cerrados. Ela enrolava o cabo nas mãos enquanto o baterista dava a contagem nas baquetas. Começava a música, e ele trepava, duma assentada, joelhos, cotovelos e cabeças até chegar ao palco. Ela, do alto dele, para ele que se erguera até si, berrava o fim do mundo que lhe dissera dentro da sua cabeça, quando ele estava tão longe quanto o fim do mundo podia estar. E cara a cara, por instantes, quando a voz dela rasgou a sala de concertos, com a calculada paragem dos instrumentos, ela e ele, cara com cara, quase em câmara lenta, disseram sílaba por sílaba, de curtas e grossas palavras, o quanto o amor era uma merda. Ele caiu no caos que ela inaugurou. E nenhum dos dois voltou a deixar o sorriso da cara que essa noite lhes deu. Sem se esquecerem, sem esquecer que se haviam amado, sem medo do passado, e dali em diante, sem medo do futuro.



terça-feira, agosto 10, 2010

homem que é homem vai à missa de manhã ao domingo

Ele, homem feito, era homem de ir à missa todos os domingos. Homem de fé, ou de hábitos, ou fé nos hábitos, cada um saberá o que lhe chamar. Era uma urgência muda que o fazia levantar às sete da manhã do primeiro dia de cada semana, que não lhe tolhia os músculos da mesma forma nos restantes dias, à mesma hora, para ir trabalhar, altura em que almadiçoava a sua sorte, mulher, filhos, patrão, segurança social e governo por não ter outro remédio. Aos domingos de manhã sabia que passo dar a seguir ao passo anterior, desde que saía da cama. Ora, começava por se pôr fora de casa o mais rápido possível em direcção ao único tasco da freguesia que àquela hora já se encontrava aberto. O cheiro gorduroso do estabelecimento, de si, transmitia-lhe logo alguma paz interior. Supunha, ironicamente, uma paz semelhante à que as beatas já sentiriam, naquele preciso momento em que marcavam lugar nas filas da frente da igreja para as suas primeiras rezas. Pedia um bagaço e acendia um cigarro, com um remorso incontornável, que fazia parte do vício. O bagaço pelo escabeche medonho na privacidade de o lar ou amuo furioso que a mulher faria se o apanhasse, ou pelo desgosto da sua mais nova se o visse a puxar do maço que lhe fizera prometer deixar a bem da sua saúde. Mas para um pecador se redimir, tinha de existir uma dose de pecado. E era na redenção que se viciara, pelos vistos. Sem dar muita conversa ao taberneiro, ficava-se pelos cabeçalhos do jornal desportivo com as letras grandes dos jogos da véspera, que tinham sido morronhentos, como sempre, sem espectáculo, defraudantes e desesperantes para quem os assistiu ao vivo: todos os grandes pela hora da morte, e no entanto os três lá na frente. Como sempre. Deixava os cêntimos da praxe no balcão, e vinha até á porta dar uma olhadela ao movimento que não existia, às nuvens que ameaçavam chuva e nevoeiro a todo o instante e para a sua terra de sempre, marcada pelas cicatrizes da construção civil e as agruras de maus anos agrícolas. E seguia para a igreja, velha como velha era quando lá ia aprender a doutrina da catequese, em pequeno, mas caiada de branco por um padre qualquer que puxara os cordelinhos certos quando aterrara naquela paróquia antes de o recambiarem para outra com medo, decerto que fizesse um trabalho demasiado bom. A igreja já se encontrava quase cheia. Óptimo: podia ficar de pé à vontade, perto dos guarda-ventos, sem que ninguem se sentisse constrangido a oferecer-lhe um lugar para que ele tivesse de o recusar parecendo mal-educado, coisa que não era. Na missa, como nos comboios e como na vida, só se ofereciam lugares se os houvesse a mais. Benzia-se, e esperava o padre. Provavelmente, quando regressasse a casa, teria um assado à sua espera: o pensamento reconfortava-o. Sorria pela primeira vez em toda a semana. A missa começava e aguentá-la-ia de pé até ao fim, ouvindo o padre, rezando em surdina com a multidão, entregando os restantes trocos no peditório, cumprimentando os senhores ou senhoras do seu lado com um aperto de mão e abstendo-se de receber o Senhor, porque desde criança que não se confessava, mas a verdade é que a sua missa acabava sempre, naqueles 5 minutos posteriores a ter-se benzido.

domingo, junho 08, 2008

no conversionalist I

Estava tudo muito certo no ferro-velho ferrugento. As grades amontoavam-se por cima de carros apanhados na orla dos 200, as jaulas apodreciam logo acima dos frigoríficos, vigiadas de perto por uma estupidez de televisores escangalhados e antenas, ambos estrategicamente posicionados no espaço para que nada fugisse ao seu ângulo de visão. Tudo isto era muito certo. Tudo isto era muito bem. Eis, senão quando um televisor cai.
BANG! Crash. Uma das grades tombou e a escuridão que tapava vomitou aquela imensidão de cães. Cães correndo com o diabo na sua sarna e pêlo seboso. Cães atropelando a poeira quieta pelo peso arraçado da sua corrida. Desencadeando-se em matilha contra as paredes do ferro-velho que não se lembravam sequer! de tal manifestação de vida, nos seus já ancestrais anos de labirinto de trazer por casa. E os cães eram todos eles cardume. Duelo inédito por aquelas paragens. O labirinto não sabia como estacar. Mas a matilha contra-atacava no jogo de pés. Revolteando na busca de um jusante para a sua fúria, desse propósito não desviando a atenção um rafeiro que fosse. Pois era o que levava cada um deles a manter os olhos bem abertos.
Houve, então, certa cruzamento de lixo que a matilha ultrapassou na sua ânsia de sentido ou fuga. Para trás, na transversal que passaram, ficou o pobre esfarrapado garageiro, sucateiro apenas por sentido de oportunidade. Vista que fora a frente da matilha, o garageiro levou o gargalo do whisky á boca; do seu lado esquerdo continuavam ainda os rafeiros na parafernália da correria. Ao olhar ensanguentado do garageiro isso, porém, não era de muito valor. Era apenas a curiosidade de um achado curioso; um par de cêntimos no chão talvez o alegrassem, de facto. Procurou no bolso meia dúzia dde cigarros amassados; talvez se tivesse deitado por cima deles, porque o certo era que já lá ia algum tempo desde a última vez que se levantara. Acendeu um deles após 3 tentativas do isqueiro velho que se preparava para ser a nova aquisição das paredes do ferro-velho. Vislumbrou por momentos, na profundidade do seu raciocínio, a curiosidade de naquele síto ser tudo velho: ele, as suas roupas, as suas coisas, a maquinaria. Só os jecos corredores é que pareciam novos, mas não podia afiançar. Deixou o fumo misturar-se na barba suja e deixou-se estar. Apagou a beata ao lado do joelho. Deu mais cinco goles no whisky. Coçou a camisa coçada.
Talvez o melhor fosse ir prender os cães.

Três personagens nesta história seriam personagens a mais.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

De A a Zé

Zé era um puto. 13 pr'aí, dizia-se.Um sacana dum fedelho safado. Mal-educado e respondão: constava-se, talvez uma má educação em casa. Ou apenas palavras amargas ditas no carinho de uma mão pesada. Ou então mimo a mais, mesmo. O Zé gostava de rock n roll. O Zé não devia gostar de rock n roll porque quem gostava de rock n roll tinha dinheiro para gostar de rock n roll. Logo, depreende-se, que ouvia orelhudos mais orelhudos que outros, e que as guitarras não eram para todos, mas para alguns e isso deixava o Zé de orelhas a arder. Foda-se! Foda-se, foda-se, foda-se... O Zé não era propriamente pacato. Nem no vocabulário, nem a agir. Nem a pedir a autorização (porque não a pedia), nem a bater à porta (porque era o único sítio do mundo aonde ele não batia). Depois havia quem se queixasse disto e do Zé e daquilo e do Zé: a verdade é que ele conseguia ser um verdadeiro popular lá na escola dele, o que era para todos os efeitos notável dado o seu historial, problemático, vá lá!, nem tanto, mas bizarro. Cuspia muitas vezes, o Zé. Em especial quando via os freaks a passar com ar de intelectualóides sofredores. E por aquelas bandas o que mais havia era freaks. Que ainda no dia anterior iam c'os paizinhos tomar um pingo ao salão de chá onde o café é a 80 cents. Aquilo não lhe entrava na puta da cabeça. Por isso ia entrar pela cabeça dalguns putos adentro no campo de futebol. Vá lá, às vezes só nas pernas, porque a bola tinha cara de fenómeno, pois afinal era quadrada e isso não era coisa que se visse todos os dias. Quem dera aos professores poder dizer o mesmo dele. Sim! Porque o José não faltava a aulas. O Zé envenenava-as com a sua presença e imposição da sua pessoa e da sua prosa refinada: ligeiramente a mesma postura com que ouvia o seu rockzinho. O resultado tinha tanto que se lhe dissesse que volta e meia o Zé juntava as duas coisas e os professores adoravam.
Mas havia um pormenor que deixava o Zé particularmente deleitado. Era saber que ele era o futuro, e que seria a selecção do resto do mundo a ficar com ele.

segunda-feira, setembro 17, 2007

a césar o que é de césar

O poeta velho. É um mendigo sem amigos. Esfarrapado, bêbedo, nauseabundo. Busca auxílio aos primeiros que se lembra. Os ex-colegas de profissão e de curso, que tanto bem lhe querem, que tanto bem lhe prometeram querer. Amizades eternas, camaradagens valentes. Os meus versos tirar-me-ão da penúria um dia. Até lá não podemos esperar, respondem eles. Resmunga. Julgava-os amigos, os colegas, por terem partilhado vida e emoções. Não percebiam que ele não tinha culpa? Recorre então aos seus amigos de sempre. Só lhe poderiam ajudar as pessoas com quem partilhara histórias e lembranças da criança que ele não era mais. Alguns bateram-lhe a porta, igualmente. És um lodo, latem-lhe na cara. Sou maior do que alguma vez sonharás! vais ver. Outros tentaram ainda ajudá-lo. Não se lembravam dele por fraco. Mas a sua doença era já avançada. O vício era incurável. Tiveram de o pôr fora de suas casas, afastá-lo de suas famílias, longe das suas vidas. Infiéis! Pagãos! Cretinos! Tecnocratas! Judas! Palmadinhas no ombro e uma, facada nas costas. Um dia vereis! Ao fim de tanto a rastejar, varreu-se-lhe da ideia a quem mais recorrer. Vagueava por aí, por ali, a declamar a média voz, qual tolo, lutando por todo e qualquer rasgo de papel que encontrasse e desesperando com todos os meios por lápis ou canetas. Trazia consigo a obra de uma vida. E essa! levá-lo-ia alto. Aqueles sacanas traidores… Nem por comida lutava ele assim.
Morreria, claro, de fome, num beco. Sorte. Por sorte, passava um aprumado rapaz de 20 anos seus por ali. Aquela cena chocou a sua apurada sensibilidade. Como a descrever? Diabos! Expressão não era o seu forte. Tivesse ele a técnica… Divagava quando reparou no maço de folhas que segurava o velho. A curiosidade falou mais alto. Pegou nelas. Decerto ninguém iria, decerto, ser acusado pela família do defunto, porque decerto, não a tinha, de invasão de missivas privadas. Leu. Fascinou-se! Como era possível? O seu fascínio levou-o a perder a noção do tempo. Dias, horas, minutos, segundos. Quanto tempo estivera a devorar aquela obra em bruto? Era a obra de um vida! E ele com toda a vida pela frente… 20 anos. De bons estudos e bom gosto. E ao ver assim a sua alma, a nu, decidiu. Seria poeta. Poeta de uma vida. A obra estava já na sua cabeça. E nas suas mãos. Deixou o mendigo no beco e foi publicando a sua herança, primeiro discretamente, e à medida que a crítica se vergava e os prémios se sucediam, aumentava a sua pose clara superior. Dava colóquios, palestras, conferências, dirigia revistas, magazines, programas de rádio e televisão. Disse-se ser inclusive um dos maiores jamais nascidos. Mas implacável! Acusou de plágio um velho mendigo que publicou um poema seu num jornal, aquando dos seus vinte anos, para juntar dinheiro, muito provavelmente, para droga. Onde já se viu! Nem os génios avant-la-lêtre se respeitam hoje em dia.

terça-feira, março 20, 2007

la famille

Porquê Marie?

Porquê?
E feita a pergunta, uma lágrima fugia-lhe do olho e corria directa para um mar de lágrimas. Porquê Marie?
Era Janeiro e Marie não percebia o que havia de errado. De olhos inchados e rosto húmido dava uma arrumação na casa que o Natal não deveria ter desarrumado de tal maneira. Era sábado e ali estava ela. Sozinha, mais o pequeno Jean a dormitar no quarto ao lado e Sébastian a acabar os trabalhos de casa no escritório; os outros filhos em casa dos amigos; Pierre, o marido, em reunião. Não conseguia perceber, e também não conseguia parar de chorar. Dobrou um braço e com o outro segurou a cabeça, como que rezando ao pranto que se fosse. E lá a prece haveria de ser atendida. Foi já de olhos limpos que Marie enfrentou a pilha de louça deixada pelo almoço, e com esses mesmos olhos e uma cara risonha ajudou Sébastian numa pergunta da escola particularmente complicada para um menino de 8 anos. Não voltou a remexer no assunto o resto da tarde, nem sequer á noite quando a família se reuniu para o jantar e Pierre, a beijou com entusiasmo na face: concluíra um negócio fantástico. As horas de refeição eram horas sagradas e ela, preferia naquele momento nada ter a ver com os problemas que a atormentavam. Adorava ver-se ali no meio daquelas cinco adoráveis crianças, seus filhos e filhas, que concebera em seu ventre, amamentara em seu seio e apoiara nos primeiros passos. Adorava ver-se ao lado do homem que amava, e que a amava, desde que se lembrava. Tão embevecida que ficou com o quadro, que uma lágrima não conseguiu evitar. “Tu vas bien, Marie?” “Oui, oui, ça va bien. C’est la famille…” e Pierre concordou num aceno, e embevecido também ele olhou a cena. A pressa do quotidiano quase que lhes roubava aqueles pequenos momentos. Conversas cruzadas sobre a mesa, birras, risos. “La famille”. Quando se foram todos deitar, Marie ia mais tranquila, ainda que ligeiramente inquieta.
Os dias lá foram passando. Janeiro acabando, dando lugar a Fevereiro. Todos os dias Marie, assim que chegada do trabalho, ia à janela ver chegar cada um dos filhos: primeiro chegavam sempre Jean, Sébastian e Nicole, na carrinha do infantário, depois chegava Paul com Marc, o seu amigo de longa data e por último Julliete, a sua mais velha, que vinha sempre acompanhada de outras amigas, como ela de 14 anos. Chegada após chegada, lhes ia abrindo a porta, dando-lhes as boas vindas com um sorriso caloroso, a eles, ás suas conversas, birras e descobertas desse dia, trocando pequenas saudações com os vizinhos que iam também chegando a casa. Depois de pousados os casacos e descalças as botas, todos eles tentavam furtar-se às tarefas que a mãe e a escola lhes punham em mãos. Porém Marie, no meio da balbúrdia lá impunha ordem e a sua vontade prevalecia, ainda que com a ajuda da sempre solícita e madura Julliete. Pierre não tardaria e o jantar queria-se pronto. Esta era a rotina. A doce rotina que os motivava a guardar cada um daqueles momentos algures entre a memória e o coração. Marie chamava com dois bater de palmas os filhos para a mesa, que para não variar tinham estagnado em frente da televisão. “Julliete c’est la seule qui m’aide. Allez. Allez!”. Resmungando, lá dispersavam as crianças para a cozinha ou para os quartos conforme as funções destinadas. Foi numa dessas alturas, depois de ter tirado os filhos da sala e os mandado às suas tarefas, que Marie deu consigo presa, também ela ao pequeno ecrã. E ela que até nem era grande apreciadora. Nem gostava. Aquelas imagens que se sucediam sem parar. Aquele ruído e papaguear constante. Sem no entanto nada ver. Sem nada ouvir. Nada escutar. Nada, senão aquela pergunta. Porquê? Porquê Marie? Porquê?
Era quarta-feira. Caía a tarde, chegava a noite, e Marie voltava uma vez mais àquele desagradável e impiedoso choro. Voltou a apoiar na mão na cabeça, como que rezando. Ouviu vagamente o barulho dos filhos no andar de cima. Engoliu em seco e decidiu sair à rua: nenhuma das suas crianças a haveria de ver assim. Não levou casaco, embora fizesse frio naquela altura do ano. Não se importou muito, embora na verdade temesse uma constipação. De braços bem cruzados e passo tenso, enfrentou a rua, deserta como seria de esperar àquela hora. Ainda com uma lágrima teimosa no canto do olho, Marie ia ouvindo, das casas por onde passava, ora vozes mais elevadas, ora risos, discussões, pedaços de histórias, o burburinho que uma família faz quando uma família se reúne. Era como se na verdade não tivesse chegado a sair de casa. Era a sua família em cada casa, cada janela, em cada vulto que passava por detrás das persianas. Como poderia ela, Marie, mãe, não se sentir embevecida? Embevecida, como sentada à mesa entre os seus, sangue do seu sangue. Aquela era uma boa vizinhança. Gostava dela. Gostava daquele lugar. Dos seus filhos. Os seus meninos, adoráveis meninos. De Julliete, uma mulherzinha tão prestável a Jean, o seu pequeno, o último a lembrar-lhe a maternidade como quem dá a lição de uma vida. Como podia ela não se sentir embevecida? Como? Perdeu a conta ás vezes que calcorreou o quarteirão. Com um braço no peito e o outro ora segurando a testa ora tapando a boca, como quem reza. Perdeu a conta às vezes que a reza desembocava no pranto, e o pranto em mais caminhada. Não perdeu, contudo a noção do tempo: voltou a casa no fim de jantar. De olhos enxugados. Sorriso recolhido. Pierre à porta, esperava-a, com um ar completamente desconcertado. “Je suis arrivé et Je t’ai pas trouvé. Je suis concerne.” “Excuse moi, Pierre. J’ai mal à tête et J’ai besoin d’un peu d’air. Aprés, J’ai trouvé une amie…” “Les femmes, les femmes. Toujours, les mêmes…” suspirou Pierre aliviado, passando o braço sobre os ombros gelados da mulher, tirando-a da rua. Fazia frio e a Marie soube bem um bocado de calor. Assim como ser levada para a casa que conhecia como a sua mão pela mão do seu homem. Até ao luxo de entrar de olhos fechados se deu. Abriu-os, perante o primeiro passo no hall. Uma pergunta entrara-lhe sorrateira pela porta que Pierre fechava, entrando casa adentro antes que a fechasse. Porquê? Carregou-se, o rosto de Marie, por momentos. De tal forma que fechou ela a porta, com uma secura que inexplicavelmente passou despercebida a Pierre. Talvez o amor nos impeça de conseguir estar atentos a certos pormenores. Porquê? Boa pergunta, Marie.
Porquê?
O mês continuou, mas mais lentamente. Não apeteceria ao tempo, moer na sua mó, ou pelo menos não com muita pressa. E a cada novo dia, Marie deparava-se com aquela pergunta em cada ida ao supermercado, em cada espelho de casa de banho, na secretária do emprego, de cada vez que passava os olhos pela televisão, em cada beijo de despedida ao marido e filhos. E cada vez mais, era difícil reprimir o que sentia. Cada vez mais se desorientava quando face a face com aquele maldito “porquê?”. Marie encarava-o como aquele alguém que se conhece vagamente, que nos irrita solenemente e se gosta de ver ao longe. E esforçava-se por sorrir-lhe. Dia após cada longo dia daquele longo mês de Fevereiro. Volta e meia o sorriso fugia-lhe para o esgar. Porquê? Não sabia. Mas sabia que devia manter a postura. Aos fins-de-semana de manhã, quando Pierre e os miúdos ficavam até mais tarde na cama, ela ia para a cozinha adiantar o almoço e chorar à vontade. Levando a mão à testa, quase rezando a tudo que se fosse. Outras vezes, ao arrumar os quartos ficava subitamente séria, fitando uma ou duas fotos mais antigas. Rosto carregado e impassível. Nessas alturas não chorava. Não sabia porquê, e fechando os olhos com força, nem o queria. Fora isso, continuava a ser uma funcionária pontual e exemplar, a preocupar-se com a saúde de Pierre, assegurando-lhe invariavelmente a roupa lavada e a pasta do trabalho em sítio visível, a esperar o fim do dia para ver os filhos chegar a casa, a preparar refeições com carinho e a ajuda de Julliete, e a embevecer-se com a própria felicidade e daqueles que a rodeavam. Mas Marie, bem lá no fundo tinha um temor. Já nem tanto pela pergunta, mas assustava-a que pudesse ser a resposta.
Era sexta-feira. Parecia ser sexta-feira já à tempo demasiado, e enquanto esperava que chegasse a carrinha do infantário com Jean, Sébastian e Nicole, fitou aquele tempo um tanto sombrio, cheio de nuvens e a ameaçar chuva. Estavam atrasados. Pierre chegaria mais tarde por causa de uma reunião importante da empresa. E logo nesse dia que Marie já não suportava estar mais tempo sozinha. Ela, mais a casa e o mau tempo. Levou as mãos á cara e chorou como quem chove. Não se recordava de já ter chorado assim. Foi com alguma apreensão, portanto, que viu a carrinha do infantário chegar. Devia manter a postura. Ninguém a poderia ver assim. Ninguém. Porquê? Não sabia, ou não o sabia ao certo, ou não o queria saber. Recebeu os filhos e a desculpa esfarrapada do trânsito dada pela responsável para o atraso. Só a preocupava os filhos secos. Nicole resmungava do tempo e Jean chorava. Sébastian cumprimentou o vizinho, que entrava naquele preciso momento na casa ao lado e Marie sorriu pela reputada boa educação do filho. Porém, ali só lhe interessava os filhos secos e abrigados em casa. Fechou o sorriso, acenou ao vizinho e bateu a porta. Deu o lanche aos meninos, e de seguida pôs Jean no parque, mandou Sébastian e Nicole fazer os trabalhos de casa, e foi para a janela esperar a chegada de Paul, que deveria vir à boleia com Marc e o pai deste. Arrepiava-a o estado que o filho pudesse chegar senão apanhasse boleia. Trincou o lábio, e esperou. Uma eternidade em cada segundo e a sua preocupação aumentava. Paul lá chegou entretanto, saindo do carro e correndo para o alpendre. Marie olhou o relógio e viu que afinal só tinham passado cinco minutos desde a chegada da carrinha do infantário. Por momentos, parecera-lhe mais. Do alpendre, enquanto perguntava a Paul como tinham sido as aulas acenava ao pai de Marc, agradecendo-lhe a boleia. O senhor retribuiu o aceno com um sorriso, desaparecendo com o carro no meio da chuva. Marie meteu Paul dentro de casa, mandou-o trocar de roupa, e de seguida lanchar e fazer trabalhos de casa. E de novo, regressou à janela. Fazia-se tarde. Faltava Julliete. Como viria ela? Marie levou a mão à boca. Não se lembrara de confirmar como e com quem viria Julliete para casa. Com aquele tempo aterrador. Que raio de mãe seria ela? “Julliete, elle vient seule?” perguntou a Paul quando o viu passar no corredor. “Je crois qu’ellle vient avec la mére de Joanne”. Marie não conteve uma lágrima a escorrer pela cara, depois de a virar ao filho e esperar que fosse verdade o que ele lhe dizia. Não tardaria até que Julliete chegasse tão encharcada como Paul. Marie, ao ir recebê-la à entrada quis saber o motivo do atraso. Mas Julliete limitou-se a sorrir e a constatar à mãe que se limitara a chegar à hora de sempre. Marie olhou para o relógio: a filha tinha razão. Abraçou-a, beijou-a na face direita e pediu-lhe desculpa. “Te dérrange pas, maman. Pas de problème”, disse-lhe Julliete, olhando-a com benevolência e retribuindo o beijo. Entraram as duas. Marie deixou o rosto carregar-se, antes de fechar a porta para poder olhar a rua com desdém e temor. A porta estaria bem melhor fechada. Que Pierre não se demorasse muito tempo na reunião. Porquê? Aquele tempo metia-lhe medo.
Dispensou a ajuda de Julliete na preparação do jantar, preferiu que ela fosse fazer os trabalhos de casa. Assim que entrou na cozinha, o telefone tocou. Era Pierre. A avisar que chegaria algum tempo depois de jantar, e que seria melhor não contar com ele. Negociavam com uma velha raposa, que não se deixava ir com meias conversas e dali ninguém arredava pé antes de estar tudo bem resolvido. Marie compreendeu à primeira, mas Pierre queria deixá-lo bem claro. Começava até a ser enfadonho. “Pas de problème, Pierre.”. Mas para ele havia: odiava o facto de ser privado de jantar com a família. Só quando Marie disse que ou começava a preparar o jantar ou as crianças iam tarde para cama, é que ele se tocou e despediu-se com beijos para todos. Desligou. O amor de Pierre pela família tomava por vezes dimensões de cegueira. Cada um ama à sua maneira, pensou Marie, enquanto descascava as batatas. Uma gota de sangue caía na banca. Uma gota do seu sangue, mais precisamente. Distraíra-se e cortara-se com a faca. “Mérde.” Lavou a ferida. Fechou a torneira e o golpe não se fechara. Pousou a mão na banca e ali ficou. Ali ficou a tentar estancar a ferida. Porquê? Porque sangrava. Porquê? Porque estava magoada. Mas porquê? Porquê Marie? Porquê? E já não encontrou resposta. Não se conseguia lembrar de nenhuma. Não conseguia sequer perceber a pergunta. Seria assim tão difícil? Seria? Porquê? Porquê Marie? Porquê? Levou as mãos à cabeça. Deixou nos cabelos o sangue da ferida. Começou a chorar. Em silêncio. Só com lágrimas. Uma mão, levou-a ao peito e a outra levou-a à boca. Tapando-a, como se rezasse. Num pranto sem voz, contínuo. E ininterrupto. Limpou as lágrimas com a mão esquerda e pôs um penso rápido no dedo magoado. Voltou a pegar na faca para acabar o que tinha começado, mas em vão. Não conseguiu. Não conseguia. Porquê? Não sabia. E não queria saber. Arregaçou as mangas. Fechou o rosto e pegou numa caneta que encontrou e numa folha. Queria escrever. Mas de suas mãos só saíam “porquês?” e “famílias”. E não era essa a sua intenção. Não. Essa não podia ser a resposta. Não conseguia acabar o que tinha começado. Recuou dois passos, a medo. Pousou a caneta. As lágrimas voltavam de novo. Pegou desta vez num marcador. Foi até à porta e abriu-a. Ainda chovia e Marie estava aterrorizada. Chorava. Levantou o braço e na parte de fora da porta escreveu: “appellez à la police.” Fechou a porta. Entrou na cozinha, pegou na faca e decidiu acabar aquilo que tinha começado. Chovia. Deixara de chorar.
Subiu as escadas e entrou no quarto dos rapazes, onde estavam Jean e Sébastian. Jean dormitava. Sébastian veio pedir á mãe ajuda no trabalho de casa de francês. Marie vertia lágrimas em silêncio. Sébastian perguntou-lhe o que tinha a “maman”. Marie tinha uma faca. Levantou-a. Sébastian caiu. Rápido. Demasiado rápido. Mais rápido até do que julgara. Jean dormia ainda. O seu mais novo ali deitado mais parecia um anjo. Marie esforçou-se por não o acordar. Evitou soluçar, mas não conseguiu evitar dar-lhe um beijo. Levantou a faca novamente. Apagou a luz antes de sair do quarto, não queria ver o seu filho de 3 anos morto na cama, e o seu de 8 morto no chão, a segurar um caderno. O sangue deles cobria o seu avental. Se pudesse também o não veria. Entrou na casa de banho onde estava Nicole. “Maman?” O grito da menina de 11 anos perfurou a noite chuvosa. Marie perdeu o controlo sobre o choro e o soluçar. O sangue de Nicole escorria pela tijoleira da casa de banho e a sua mãe começava a perder o controlo. Ao abrir a porta, Marie deu de caras com Paul que a olhava completamente desorientado. Que se passava? Que faca era aquela? Que sangue era aquele? Que se passava? “Maman?” Marie de lágrimas nos olhos acenou que não e pela quarta vez levantou a faca naquela noite. Paul não mexeu um músculo. Quando caiu, caiu também ele, com lágrimas nos olhos. Os olhos que toda a gente dizia serem iguais aos de Pierre. Agora, apagados. Marie levou a mão à boca, na vã tentativa de controlar os gemidos. Tardaria ainda Pierre? Quando viria? Que fazer quando ele chegasse? “Oh mon Dieu.” Começava tudo a ficar confuso. Podia parar ao menos de chover. Mas não. Não! Agora ela tinha de acabar o que tinha começado. O rosto voltou a fechar-se e assim se dirigiu ao quarto das meninas, onde estava Julliete. Abriu a porta e um tremendo choque na cabeça e as luzes apagaram-se por momentos. Marie caiu, chorou e encarou a filha, também de lágrimas nos olhos, que lhe lançara com o candeeiro à cabeça. A custo Marie voltou a levantar-se, sem ousar largar a faca. “Ma petite…” “Tu va pas me tuer. Tu va pas me tuer!” “Ma petite…” “Non Maman!” Pela quinta vez Marie levantou aquela faca, mas pela primeira não matou ninguém. Julliete desviara-se e lançara á cara da mãe uma estatueta que tinha na mesa-de-cabeceira. Pela segunda vez Marie perdeu o equilíbrio e a visão. A estatueta acertara-lhe no olho esquerdo. Julliete tentou fugir. Marie agarrou-a. Julliete empurrou-a. A mãe soluçando. A filha gritando.“Tu va pas me tuer, maman! Tu va pas me tuer!” Mas Marie não conseguia articular a voz. Não conseguia. Preparava-se para voltar a erguer a faca. Julliete segurou-lhe na mão e tentou tirar-lha. Ambas choravam. “Tu va pas me tuer, maman… Tu va pas me tuer…” “Ma petite…” Marie começava a ceder. Deixava de ter forças para outra coisa que não fosse chorar. “Porquoi maman? Porquoi?”
Ambas choravam. Ambas choravam quando pela sétima vez naquela noite a faca de Marie fora erguida. Ambas choravam. Ambas caíram. Ambas, no sangue uma da outra. Julliete desfalecia. Marie achava estar na hora de acabar o que começara. Fechou os olhos. E não os abriu.



Alertados por uma série de gritos, os vizinhos daquela pacata cidade belga, e que tão bem conheciam a família Duchamps, acorreram à casa desta a fim de saberem o que se passava quando deram de caras com a alarmante mensagem “appellez à la police” escrita na porta. Por coincidência, havia quem já a tivesse chamado ao local. Rapidamente se entrou em contacto com Pierre, e menos de meia hora depois a polícia chegava ao quarteirão, entrava naquela casa e dava de caros com um dos mais macabros homicídios de toda a história da Bélgica. Aquela mulher, na casa dos 40, classe média alta, sem cadastro ou problemas clínicos matara os seus 5 filhos com uma arma branca e, ao que tudo indicava, tentara suicidar-se, embora sem sucesso. Rapidamente foi levada para um hospital. Bastava de mortes naquela noite. Ninguém sabia ainda quem ou como iria explicar a Pierre Duchamps o que se passara naquela noite, na sua casa, com a sua família.
No dia seguinte, por toda a Bélgica, em silêncio ou em voz baixa, houve uma pergunta que por diversas vezes viria a ser repetida: porquê?
Porquê Marie?

Porquê?