segunda-feira, novembro 19, 2018

transacção



andaste meia ponte para me mandar embora
eu andei outra meia para dizer que não havia paixão.
regressamos aos pontos de partida
de lágrimas nos olhos.

quarta-feira, novembro 14, 2018

she eyes me like a Pisces when I am weak


lamento balbuciar onomatopeias e não histórias.
nada como uma boa história para encurtar distâncias.
como a que separa o teu sono da realidade, 
e a que te separa de mim.

segunda-feira, novembro 05, 2018

confronto a uma mão.

Neste silêncio as casas gritam. 
Podia também dizer assim: 
As tuas mãos segam na sombra 
Deixam a fruta madura à porta 
do coração.

- Rui Costa, em "A Nuvem Prateada das Pessoas Graves"

 

P.S.: Percebi agora que me roubaste a desforra. Seria novamente Mike Tyson contra um principiante, ou arrancar-te-ia uma orelha? Eu continuo a dançar, aos socos com a vida. Não é justo não medirmos forças, porque um está morto na vida, e outro vivo na morte.

quarta-feira, outubro 31, 2018

Ele não. Ele nunca.

Um dia não haverá um lugar sem cancro. Sem sujidade ou ódio.
Um dia não restará discórdia. Seremos unos na nossa miséria.
Um dia estaremos condenados. Nesse dia não teremos opinião.
Um dia chegará a nossa vez.
Sofreremos o que tememos anos a fio, quando paralisámos:
que o mundo fosse assustador.
Um dia ninguém se lembrará que vivemos no paraíso,
e deixamos o ódio consumir tudo.


terça-feira, outubro 23, 2018

óbvias. mas lições.

1. Só se desilude quem se ilude.

2. Ser-se demasiado boa pessoa é um problema.

3. As pessoas sensíveis estão condenadas a viver momentos difíceis neste mundo.

4. Antes de procurares outros para te completarem com as coisas que têm e te faltam, procura primeiro em ti essas coisas, e aprende-as.


segunda-feira, outubro 15, 2018

os nomes têm sombra?

dar nome é dar vida.
(dar à luz?)
caminho entre sombras,
logo,
estarei vivo.
caminhando ensombrado.
perdoa o meu nome.
eu peno
porque me condeno
e não por ser condenado.

quarta-feira, outubro 10, 2018

28 anos depois

Hall de entrada de um condomínio, entre o elevador e a porta, Estados Unidos. Joe Rogan, polémico nomeado pelo Partido Republicano, ensombrado por uma série de acusações de assédio e violação, preside à sessão. À sua frente, à direita, o candidato do Partido Republicano, à esquerda o do Partido Democrata. Ambos afinados pela mesma bitola, discurso, tom, moral e cara. O público, políticos, jornalistas e curiosos, escondiam-se nas sombras do campo periférico de visão. Eu, nervoso, frente a frente com o triunvirato de protagonistas, ia respondendo às suas perguntas e considerações sobre o meu carácter, com a desenvoltura e comedimento que a solenidade da situação me permitia. Não estava, de todo confortável. Timidamente em desespero, coloquei em causa a legitimidade do presidente do comité para me estar a inquirir, quando também ele falhara para com o povo e a lei. Nunca conseguira refutar, inequivocamente, as acusações que lhe haviam feito, e que não pondo em causa a sua competência, haviam aniquilado o seu bom nome e credibilidade junto da opinião pública, condições indispensáveis para o bom cumprimento do seu mandato. Os candidatos trocaram olhares apreensivos. Rogan respondeu laconicamente, comprometido e cansado, com a certeza de estar numa posição inatacável.
Entretanto, foi entregue um envelope a Rogan que o abriu, cautelosamente. O documento que lá se encontrava, desdobrado, revelava a letras garrafais RAIVA FEMININA. Rogan levou uns dedos trémulos à face, e envelheceu subitamente, enrugando, perdendo cabelo, que ficara grisalho, enquanto os olhos e a boca espumavam sangue. Num assomo de loucura, perante o pânico dos presentes, gritou-me: "O que importa se sou acusado, quando vou morrer?" E riu-se para mim. Uma gargalhada rouca e ensanguentada salpicou a minha cara.
Apenas tive tempo de fugir, já condenado.

terça-feira, outubro 09, 2018

curtas

são poemas com pessoas lá dentro.
mesmo quando são uma merda.
comprimidos pela azáfama do tempo
que a imaginação não nos nega.

quinta-feira, setembro 27, 2018

a meio caminho de monstro, para não precisar de amigos


"I'm a troubled man, changed by the things I do
True, but it's funny how they all remember you
It all could be different, time to do something new
I've given everything, I want to be a happy man too
Got to understand, blamed by the friends I lose
Who's getting outta hand, do you think they depend on you?
It all could be different, try to do something new
I've given everything, I want to be a happy man too

Buy yourself a dream, how's it looking?
Buy yourself a car and a house to live in
Get yourself a girl, someone different
Buy yourself a dream and it won't mean nothing"