domingo, abril 24, 2011

A culpa é minha por nunca te ter conseguido explicar no que consistia uma festa. É que a magia não reside na festa em si, mas no que vem depois. A festa é um desencontro ritmado. Todos querem o mesmo, uns encontram e entretêm-se, enquanto os restantes os invejam. Mas o que vem depois é tão mais puro. A culpa é minha. Por nunca to ter dito, embora tenha tentado mostrar. Mas não dava para te pôr a música que pus nos meus ouvidos ou as memórias que correram na minha cabeça. Tão pouco o sorriso dos meus lábios. Nas veias só as saudades das terras que nunca pisei e das lembranças que são só minhas, não importa quantas pessoas me envolvam e decepcionem com o meu discurso por não o entenderem. Eu falo isto por mim. Porque isto já é a memória de um tempo mais puro do que o acordar de amanhã. Gostava que tivesses visto. Os meus vales viram. As minhas árvores também. As árvores medonhas, que as intempéries da minha adolescência curvaram para me verem. Solenes, como o compasso, assistiram a um movimento que eu desenhei como se a noite não se completasse até eu a dançar. E digo-te, percorreu-me dos calcanhares à ponta dos dedos maltratados. Julgo, até, que a presunção me mataria se o sentimento não fosse tão genuíno. E o céu estava tão lindo. Estrelado como das vezes em que me escapulia até mais tarde, no Verão, para o ver. A solidão da noite, a minha amante por excelência que, não obstante, os desgostos, me recebe e acarinha como numa lua-de-mel após a morte de um ente querido. Eu não acabo esta noite, porque a noite vem de trás, vem comigo, até quando entro em casa e a música acabou. Não teria chegado até tão longe sem elas. Não teria chegado até esta caneta e estas páginas se não fosse para dizer o quanto estou feliz.

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