quarta-feira, abril 30, 2008

O PROCESSO

Estamos exactamente a meio da aula e, a minha mão direita crava-se em murro na minha cara. Talvez o queixo escancarado e dormente a irrite. Com os olhos semi-cerrados iria lindamente um fiozinho de saliva que não chega e, de certo não chegará por uma questão de respeito. Mas o quadro em si é indubitavelmente deprimente. O re-cambiamento para uma pré-primária seria uma medida mais acertada.
O quadro em que se enquadra a situação nem é por aí fora relevante à continuação desta história. De momento apenas interesso eu ali no centro da esfera da minha própria decadência física e, apenas me interessa a sucessiva dormência com que bombardeio os meus músculos e as minhas veias e o meu cérebro. O objectivo é claro, impossibilitar de todo, a verbalização das frases que caem que nem petardos hooligans no seio dos meus neurónios.
Em semelhante processo, pretendo inclusive, eliminar a própria emissão de pareceres e tiradas, ainda que condenadas, de momento, a morrer dentro de mim. Pois senão, o que aconteceria se a verdade viesse ao de cima? Se o que há para dizer fosse dito? Se os pontos fossem irremediavelmente postos nos 'is'?
Se eu em verdade a confrontasse comigo?
Eu sei, que concretizando estas questões, eu acabaria a dizer o oposto do que penso, pois dizendo o que penso não me acreditariam. Ela não me acreditaria. Dizendo o que não penso, ela limita-se então a desacreditar-me. É uma faca de dois excessivos legumes.
Prefiro portanto deixar ao abandono todo o processo, aniquilá-lo lentamente enquanto se esperneia ao propagar-se; abafá-lo silenciosamente por entre a flacidez da carne do meu corpo.

domingo, abril 13, 2008

por Rilke

A minha luta é esta:
sagrado de saudade
divagar pelos dias.
Depois, largo e forte,
com mil raízes fundo
mergulhar vida dentro -
e, amadurecido em dor,
ir longe pra além da vida,
longe, pra além do tempo!

sábado, abril 05, 2008

Pensamento caseiro de 31/3/08

Todos nós gostamos de artistas e de génios como se gosta de animais num zoológico. Bem exuberantes e exóticos, a fascinar por detrás das grades. E mesmo com o ferro interposto restringimo-nos ainda a uma certa distância de cautela para não nos magoarmos com o animal. Entristece-me é que se possa achar bastante e benemérita a troca de amendoins por sentimentos, para que nos sintamos bem com a nossa consciência no momento de os deixarmos sós, à noite.

quarta-feira, abril 02, 2008

'Mas o homem não foi feito para a derrota - disse. - Um homem pode ser destruído mas não pode ser derrotado. Tenho pena de ter morto o peixe. Agora vem o pior, e nem sequer me resta o arpão. O dentuso é feroz e hábil e forte e inteligente. Mas eu fui mais inteligente do que ele. Talvez não. Talvez estivesse só mais bem armado.'

in 'O Velho e o Mar'

sexta-feira, março 21, 2008

Hu Jintao

A opinião pública é a nova arma de destruição maciça.
Poderosa e de força aumentada pela crescente
imediatividade da informação: inversamente
proporcional à velocidade a que nos chegam aos ouvidos
as boas novas, que aumenta a cada dia,
cresce a dificuldade em pôr açaimes a essa
informação. A consciência deste facto, desta
equação, torna a multidão sem rosto,
um inimigo
a acautelar.
Nas mesas de voto, como nas mafiestações,
nos blogs, como nas revoltas e vandalizações.
Na arte como em raivosos e simples pregões.

Então e quando
a informação não passa o muro?
Quando há curiosidade
particular em saber o que se passa
num certo sítio?
Então e quando
as portas se estampam
todas na nossa cara!?
O que fazemos nós,
os detentores dessa tal bola de fogo?
O facho de luz mais vibrante da democracia global?
Essa
que não admite
atropelos
de ninguém
a verdades
universais
como
os Direitos Humanos?

Confiamos nos nossos governantes.

Confiamos nos nossos governantes,
exactamente os mesmos em quem
as nossas esperanças falham
no que se refere a impostos,
obras infraestruturais de elevada importâncias
e remodelações no sistema de ensino,
e em relação aos quais a nossa desconfiança
explode de 5 em 5 minutos.

Mas então e se
o muro quebrasse,
algo,
pouco,
não importa,
passasse.
O que faríamos?
Como reagir
e que reacção
exigíriamos
aos nossos
governantes?

....
O nosso sofá continuaria com o nosso peso em cima, acho.
Bem como o balcão do fafé continuaria ocupado, pelo jornal.
Entre janelas de Windows e programas de texto
a nossa atenção desviar-se-á por alguns momentos
a certos sites informativos em busca de uma ou outra notícia.
E
a isso se resumiria
e
resumirá
o nosso inconformismo face
à intolerabilidade de toda a situação.

A verdade é que
os mesmos que admitem um Kosovo
não admitem um
Tibete.

E o cerne está quase todo aí.
Bem vistas as coisas,
quase todos os restantes desenvolvimentos
são prolongamentos do mesmo cancro.
E o mal, ainda que
dificilmente cortado pela raíz,
alastraria
inevitavelmente.

Não importa à quanto tempo anexado pela China,
no que toca ao sentido de Nação,
pois a história do mundo sempre se fez
de avanços e recuos no mesmo globo de vidro
onde o espaço está contado.
Mas importa á quanto tempo essa anexação
resulta num assassínio cultural
e físico.

Todos sabem porque é que o Dalai Lama vive na Índia.
Todos sabem que tem legitimidade para pedir
autonomia (e ja ninguém fala em independência)
a um território que sempre a teve.
Todos sabem que no Tibete já cada vez menos há
tibetanos.
E TODOS sabem
que as manifestações que têm sido feitas
num território tão implacável ao discurso livre
como o é a China
visam tirar proveito das atenções centradas nelas
por causa dos Jogos Olímpicos.

Não.
A situação tibetana não é
a situação pacata
que a China sempre pintou.
E nós nunca supusemos
que fosse de outra forma.
Por esse mesmo conhecimento
a melhor forma
que arranjamos para combater o genoícido tibetano foi!
ignorar mais uma vez
que ele estava
e está
e estará
a acontecer.

O Dalai Lama continuará a dar com portas fechadas
por esse mundo fora.
Da mesma maneira que continuaremos a dar com informação altamente condicionada
quando pretendermos exercitar a nossa curiosidade
sobre o que se passa no Tibete.

Quero regressar agora ao ponto de partida:
enão e a bomba que temos nas mãos?
A nossa opinião pública?
O nosso discurso livre?
E a nossa democracia?
Essa arma
que destrói governos, acaba com guerras, impõem condutas e sanções
e garante a paz no mundo?

Onde é que ela está?

Eu digo:
no bolso.
Até lá felicitamos o Kosovo pela sua independência
e pelos maus dos Sérvios terem ficado mal na fotografia,
independentemente do que isso quiser dizer.

domingo, março 16, 2008


E quando daquele pedaço de chão, eu fiz o céu!
lá estavas tu,
calada
e paciente.
(foto: Nuno Sousa)

domingo, março 09, 2008

sheep

O transplante falhou.
Quando o muro começou a cair.

Apenas sobrou uma pedra do músculo-mestre. Tive pena. Porque apesar de tudo até gostava dele. Oficializou-se a coisa: dali para diante apenas o calhau ficaria no lado esquerdo da caixa toráxica.
Não se abandonem contudo, a leviandade fácil de achar que me rendi à primeira. Ou à segunda. Não foi com duas tretas que me convenci do facto duro e irrecuperável.
Eu tentei sentir. Tentei ver tudo com outros olhos. Refugiar-me no lirismo. E no sangue quente da inspiração. Cortei até os pulsos com a faca afiada da depressão antes de acordar alagado em suor. No fim, por fim, saiu-me 'Vidas'.

O transplante falhara.
O muro caíra.

Dei uma vista de olhos no que eu dizia ser a emoção. Não me admirei já tal 'cena' me ser estranha. A idade e o calhau não dão para mais. Nem para os gastos da dor. Nem para as infâmias da inadaptação. Um presente eterno, como o do livro. E a música é apenas banda sonora. As pessoas, essas, apenas pessoas. Apenas. Quem diria...
Quem me diria tão calado na hora de cantar?



'sooner or later God' ll cut you down'

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Madrid

Mãe.
Voltei.
Barba por fazer. O cabelo oleoso e a pele cansado. Eu sei, mãe. Não pareço neste momento o melhor dos filhos. E tem dias em que o aspecto não engana.
Não me sinto de facto, o melhor dos filhos.
Parti, mãe. Tive de partir e tu não o sabias. Tive de ter a necessidade de ver o mundo por outros olhos. De encarar um novo dia, de uma nova forma que me tem escapado, mãe. Não me merecias semelhante silêncio. Mas eu acho, mãe, que o melhor seria assim. Mais eficaz.
Volto da mesma maneira que parti. À excepção dos pormenores odiosos que já referi. Volto também com o mundo nos olhos. Mas tal não alterou o homem que sou. Sempre o mesmo mendigo de palavras, insatisfeito.
Peço-te desculpa, aqui no meu regresso,
para quando tiver de partir outra vez.

sábado, fevereiro 09, 2008

your pearly whites

Burn! Queima! Isto é assim. Yeah! Assim como se fosse feito de mais do que palpites: feito de anti-corpos em choque. Eu sei bem do que falo. Deverias e poderias sabê-lo também, mas tu... não és tanto a favor desses jogos de contra-baixos e elefantes da mesma maneira que eu sou a favor da destruição maciça das pessoas. Sim! De genocídios, massacres e uma vala comum para o mundo todo. Oh oh. Eu sei bem do que falo.
Eu vou querer esconder o caco médio da minha alma atrás do punho fechado: quando chegar a hora eu vou cravá-lo no teu olho. Nessa altura quero ver como é que ainda vais olhar para mim cheia de pena e de peninha. O teu sangue a jorrar vai alimentar a minha fome de carne. Pelo menos temporariamente, pois ambos bem sabemos que o ser humano consome e consome e consome e consome sem necessitar. Isso distingue-o das bestas! E para consumir, alguém terá que produzir. Daí a magia do amor.
Vem amar o caralho! O reles! O baixo! O precário! O brejeiro! Façamos com dotes de graça a nossa volúpia uma explosão! de luxúria no meu quarto cheio de pó e bibelôs. O orgasmo será o bom do arremesso para partir aquela louça toda. Depois, só depois vamos falar das intelectualiadades todas, se o acorde era acima ou abaixo do novo silogismo da lógica de Kant, e do subconsciente inerente à falta precária de políticas populistas no cartaz da ordem do dia. Com um pouco de sorte, ainda te levo a uma exposição de Dali. E lá o júbilo vai parecer feito de merda, porque eu vou rejubilar como se não houvesse amanhã, aliás não vai haver amanhã porque não me apetece que o haja. Percebeste?
Apanhaste?
Cappicce?
Não?
Os meus braços são cobras, filha.
Os meus braços são cobras, e todas as pessoas são um veneno.




'Don't drink from this fountain, you are liable to drown, and I might ask this once or twice.
What is this?
This, my gaping mound of wires.
My flapping speakerbox.
Human connection of disconnection.
Why exist?
Why take the risk?
Another day brings you close to your last hour.'

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

pirómano

Incendiário. Eu fiz dois fogos dum fósforo pequeno. É fácil: é só friccionar a ponta vermelha. E vê-lo estalar depois entre os dedos. O calor emite uma sensação de poder. De criação melhor dizendo. Mas como em todas as criações, há centelhas que se escapam das nossas mãos. Como areia por entre os dedos, amontoando-se para lá do nosso alcance. Merecem o meu carinho, como o merecem todos os renegados: à minha obra já só interessa queimar-me.