segunda-feira, março 23, 2015

When I heard at the close of the day

"When I heard at the close of the day how my name had been receiv’d with plaudits in the capitol, still it was not a happy night for me that follow’d,
And else when I carous’d, or when my plans were accomplish’d, still I was not happy,
But the day when I rose at dawn from the bed of perfect health, refresh’d, singing, inhaling the ripe breath of autumn,
When I saw the full moon in the west grow pale and disappear in the morning light,
When I wander’d alone over the beach, and undressing bathed, laughing with the cool waters, and saw the sun rise,
And when I thought how my dear friend my lover was on his way coming, O then I was happy,
O then each breath tasted sweeter, and all that day my food nourish’d me more, and the beautiful day pass’d well,
And the next came with equal joy, and with the next at evening came my friend,
And that night while all was still I heard the waters roll slowly continually up the shores,
I heard the hissing rustle of the liquid and sands as directed to me whispering to congratulate me,
For the one I love most lay sleeping by me under the same cover in the cool night,
In the stillness in the autumn moonbeams his face was inclined toward me,
And his arm lay lightly around my breast – and that night I was happy."

- Walt Whitman, "Calamus"

sexta-feira, março 20, 2015

o último poema

A poesia acabou contigo
E com este trabalho.
Depois veio o carro,
Tive de saber conduzir a minha vida.
Ainda há pouco eu era fato e gravata,
Homem em missão a sul do douro.
Agora sou só Penafiel.
Como na primária. Como na prisão.
A poesia acabou comigo
A escolher ser eu.
Deixei tudo o que existe.
Só existe saudade.
E se eu sou saudade
Então sou saudade do que nunca tive
Do que nunca fui.
Pois esse tempo passado avança
Enquanto estagno.
Mais um copo, mais um cigarro
Mais um analgésico para a memória.
Quando o pano cai
Nem o comediante sou.
A História começa com o Comediante morto.
Nunca enganei ninguém. Sou mau advogado.
Nunca fui bom para mim
Não poderia ser bom para o mal.
Apenas um caso perdido. Um beco sem saída.
Não há poesia em nada disto
Porque a poesia acabou contigo.
Não a levaste. Não é tua para a devolveres.
Nem deste trabalho.
Nem do meu carro.
Nem do futuro.
Porque tudo isso acabou.
E não recomeça
Enquanto eu não acabo.

quinta-feira, março 19, 2015

saudades de: a) um tempo justo; b) um fim para a tormenta; c) ti


"E um fado que me conte
Quanto é triste esta partida

Deixar tudo o que existe
É tão forte esta saudade
Minha alma lá persiste
Ao deixar a faculdade"

segunda-feira, março 16, 2015

a corda do elefante sem corda / a culpa morre solteira


"O condutor sentava-se no seu assento de ferro e sentia-se orgulhoso das linhas rectas que ele não traçara, do tractor que ele não possuía nem amava e do poder que ele não podia controlar. E, quando aquela plantação crescia e era colhida, nenhum homem havia esmagado um torrão quente nem peneirado a terra por entre as pontas dos dedos."
- John Steinbeck, in "As Vinhas da Ira"

domingo, março 08, 2015

oito do três


"Acho que estás enganado. Não se trata de um assassino em série louco que se pôs a ler a Bíblia de pernas para o ar. É apenas um vulgar filho da mãe que odeia mulheres."
Stieg Larrson, in "Os homens que odeiam as mulheres"

sábado, fevereiro 28, 2015

(o bom, o mau) deixa-os pousar


o sol, veio de boleia com a noite, e ultrapassou o nevoeiro de primavera de gás, dia adentro. metereologia, meus amigos, começa sempre pela meteorologia. para sacar cervejas do frio e preparar bifanas ou desabotoar os botões dos punhos das camisas e arregaçar-lhes as mangas. mas no final, tudo acaba com o tempo. porque o tempo passa, sem sermos heróis ou vilões. o maniqueísmo e a catequese estão mortos. o rock não é hardcore, a cerveja é contada e o futebol é a passo que não de corrida. 'deixá-los pousar' de arte a ciência porque as nossas pernas já não são as de brinca na areia.
haja sol. haja uma meta. haverá sempre mais um sprint. mesmo quando o tempo já tiver acabado.

sábado, fevereiro 21, 2015

"i had such fuckin hopes for us"


o teu sentido prático desaponta-me. 
eu também sei que não vou a lado nenhum, e não me troco por ninguém.
tive medo que não estivesses a compreender,
por isso repeti-te muitas vezes que te amava;
que se partisses, me arrancavas pele e carne, como arame farpado.
(depilação de carne com aço)
as tuas hesitações não venceram a oportunidade.
só aumentaram a dor.
eu disse-te e mostrei-te as cicatrizes que iam ficar abertas.
fi-lo a cantar
com berros e pontapés no ar.
eu tinha tantas esperanças para nós!
encontrados nos cruzamentos do futuro,
que tipo de dança vamos dançar?

"I'm begging, please come back to me!
A life is now at stake
If you don't soon return
You're gonna drive me to my grave"

domingo, fevereiro 15, 2015

o frio é um lugar estranho

Por estes dias, o cinzento é omnipresente. Eu diria que o próprio ar é cinzento. Como um filtro fotográfico, a meteorologia realça a cor de chumbo das imagens que os olhos captam. Em reacção, o corpo pede malgas de nescafé quente com açúcar, um aquecedor a óleo ligado no interior de uma casa velha onde as madeiras rangem quando o vento sopra, ou algum colega de andar arrasta a ressaca para a sala, para uma matiné domingueira de SporTV.
O Inverno, e a iminente Primavera, relembram-me saudades do meu Bintoito. Porém, a imagem que me surge mais nítida são a das viagens que faço por esta altura. Delft, Barcelona, Paris, com destaque para as centro-europeias. A geografia dessas latitudes compreende melhor esta época do ano. Nós, "latinos" somos duros mas os chiares de joelhos e pingos no nariz dobram-nos como plasticina.
O meu corpo surpreende-me com uma carência, mimela, de frio a sério. Do sol gelado sobre a Torre Eiffell e os Campos Elísios; mãos acolchoadas à procura da câmara para registar tudo; a companhia do Leitão no papel de guia e turista pela Paris que quer conhecer pelos olhos de outra pessoa; o rio, as ilhas, uma cidade com charme de uma aristocrata poetisa e musa. A Holanda falta-me nos serões de panrico com nutella, num quarto com aquecimento no máximo e na habitualidade serena da legalidade daquelas paragens; Delft existe sem correr, como os canais debruados de neve; as pessoas geladas deslocam-se em bicicletas: têm tempo e assim é melhor. Quem diria do enérgico Nuno Sousa um exemplar cidadão holandês? A forma simples como, sacramentalmente, a noite do grupo de tugas, não poucas vezes acompanhado de brasileiro e sueco, se dirigia das suas residências para determinados bares onde os cantos da casa são conhecidos até de olhos fechados. A busca incessante de um EP local como se de um Santo Graal se tratasse. Amanhã poderia estar abraçado a essas rotinas como se fossem minhas desde sempre; a familiaridade do percurso e dos companheiros são determinantes. Ainda que ensombrado pelo desgosto, vigiado pela inocente rapariga do brinco de pérola no hangar, e a neve parecesse que nunca se iria embora.
O meu corpo, carente e mimelo, quer festa. Deitar-se num colchão improvisado numa cidade diferente, e sujeitar-se a aventuras com pessoas que conhece desde sempre. Habituou-se mal. Conseui aldrabá-lo, porém, com a incursão às aldeias de xisto, nas montanhas. As montanhas! Senti-o como se tivesse 5 anos outra vez a brincar no monte do meu avô, ou no quintal entre as espigas de milho.
Por agora, Penafiel, o meu inferno, é tudo o que me resta. Igual em todas as alturas do ano. Como o meu ADN.

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Boaz and the dogs


Fantasmas de olhos claros
verdes, azuis, cristalinos
assombram os meus olhos
e as imagens onde pousam.

Fantasmas de olhos claros
omnipresentes, unos, no passado e presente.
Delineados em marca d'água
nas ondas da memória
no mar que nada esquece.

Fantasmas de olhos claros,
vultos calados que escrutinam,
pacientes, a minha ânsia,
observam, sem dó, a minha sede
e o fumo que não sai da minha boca.

Fantasmas de olhos claros
marcados na minha carne
do lado de dentro da pele,
são assombrações.
Os seus corpos nunca pertenceram aos olhos do meu.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

bitch, don't kill my vibe


Perseguido como uma presa
por caçadores mortos
numa planície morta
espalhada até
montanhas mortas.
Aqui só existo eu
a ser caçado.
Assombrado e perseguido.
Olho em frente.
Olho em frente
senão caio e morro
esmagado,
caço.
O além é só uma latitude e longitude diferentes daqui.