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sábado, maio 23, 2020

A desconfiança como método.

"É de ficarmos pasmados. Se os erros «mais comuns» de português chegam a 500, então os erros comuns e os menos comuns hão-de orçar pelos vários milhares, e o idioma seria um campo de minas, onde cada deslocação centimétrica levaria ao desastre. Mas, que fazer, as sacerdotisas e os sacerdotes do Erro são gente empenhada, sempre a segurar-nos pelo braço, não fôssemos nós afundar-nos num precipício.
(...)
Esta convicção de ser um instrumento irremediavelmente adulterado aquele com que nos exprimimos é, se virmos bem, comum a todo este clã, qualquer que seja o grau de ingenuidade ou de charlatanice. Caracteriza-os a desconfiança como método, que só convém incentivar a insegurança generalizada no utente. Aos olhos destes novos normativistas, tudo quanto no idioma não for lógico, racional, arrumadinho, feito a régua e esquadro, é banido como incorrecto, impróprio, condenável. O velho mantra «A língua está enferma» motiva-os, a todos, na nobre missão de nos desmoralizarem."

Fernando Venâncio, in "Assim Nasceu Uma Língua - assi naceu ũa lingua"

sábado, abril 04, 2020

"tudo o resto são descrições"


"A atitude  de fundo, nas páginas que se seguem, é a de objectificar as palavras, encará-las como criações, como soluções, o que elas, como produtos históricos, deveras são.
(...)

Anote-se , de passagem, a originalidade da palavra luar. Ela existe em português, existe em galego, mas não a achamos noutras línguas europeias. Em espanhol diz-se luz de luna, em catalão llum de luna, em francês clair de lune, em inglês moonlight, em alemão Mondlicht, em neerlandês maneschijn. Em suma: enquanto luar é um conceito, tudo o resto são descrições."

Fernando Venâncio, "Assim Nasceu Uma Língua - assi naceu ũa lingua"