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terça-feira, fevereiro 09, 2021

I’ll keep you safe and sacred / just keep your heart close to mine

09 de Fevereiro. O dia amanhece antes de nascer, o que só acontece depois do sol se pôr. Como quando nos juntávamos para celebrar o teu nascimento. Celebrá-lo-ei sempre, e não o aniversário da tua partida, precisamente um mês depois de a parabenizarmos a ela, que ainda hoje pergunta por ti e quando te vais deixar de brincadeiras e regressar a casa.

Sabes? Nós não importamos. Ninguém importa ou se importa. E é uma merda que já não possa ir para o monte encenar histórias até ao anoitecer, nem tu estejas em casa, a dormitar à minha espera. Não importava que não existisse mais ninguém. Nós chegávamos.

Ficar homem não é tão difícil quanto pensava, mas dói muito. Ter medo, dói muito. Apesar de me teres dito que não havia mal nenhum em ter-se medo, que toda a gente tinha. Que tu tinhas. Eu não queria ter medo, e por isso entrava pelo mar bravo adentro, a desafiar as ondas capazes de me derrubar.

Nos dias que correm, acho que nunca houve tantos medrosos como agora. Já não somos só nós. E os loucos que desafiam a natureza, rapidamente se arrependem, porque não têm ninguém que os arraste pela mão, do mar para fora. Do lado de lá da praia, há os que se escaparam a escolher, e se divertem com a indecisão de quem como nós, ficou pelo caminho, no areal. A fazer o melhor que podem.

Pelo caminho, a meio, é onde quero fazer a minha casa. O mais perto possível da saudade que tenho de ti.


quarta-feira, maio 15, 2019

CR Hat

O Cardoso usa boina
para não apanhar sol
quando passeia.
Simplesmente, tapa
a careca e deixa ver
quem lá vem.

O Ribeiro usa o chapéu.
O mesmo chapéu
desde que pôde usar chapéu.
Porque os homens usam chapéu
sempre que não estão
em casa.
À porta de casa, sempre,
ele tem-no posto,
porque nunca se viu
homem que é homem
sem chapéu.

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Cardoso

Estamos sós
podíamos dar uma volta
pela tarde, pela cidade.
Há pessoas à espera de um olá
e quero ouvir-te
a dissertar sobre tudo,
os teus heróis dos livros,
dos desenhos animados.
Passamos pelas missas
onde ainda há esperança,
fé num amanhã eterno.
Paramos para lanchar
eu pago-te o lanche.
Não te faltará nada.
Vemos o sol,
vemos o nosso pequeno mundo.
Quero ouvir-te cantar,
quero cantar também,
ensinar-te o que sei
sem te querer ensinar.
Podemos dar a nossa volta
e regressaremos sempre a casa
fresca, graças à cal que caiamos
na última Primavera.
O nosso campo está lá fora.
A tangerineira e a nogueira já dormem.
As galinhas e os coelhos também.
Em breve partirás para os teus pais
mas amanhã estarás aqui,
sempre comigo.


terça-feira, fevereiro 20, 2018

demasiado boa pessoa

Determinado dia, no quartel da guarda, ao ver um chegar o meu avô, um biltre fardado comentou "vem aí um que é sério demais". O, então, jovem Cardoso estacou, perguntou se a boca era para ele, e face ao emudecimento do artista, vociferou-lhe "não existe ser-se sério demais. ou se é sério, ou não se é sério!"
Em tantos anos de histórias do velho guarda, tinha-me escapado esta sua preciosa lição: como bem responder a um insulto disfarçado de elogio.

terça-feira, novembro 08, 2011

Ensinamentos

O meu avô hoje ao almoço brindou-me com uma das suas histórias do tempo de GNR, que apesar de simples, se revela numa tirada bastante assertiva, sobretudo nos dias que correm. De resto, as coisas mais simples e espontâneas, são não poucas as vezes as mais poderosas. Entrava o meu avô no quartel quando apanhou um colega a dizer que o problema do Cardoso (o meu avô) era ser demasiado sério. O meu avô não se ficou e perguntou o que é que era isso de ser demasiado sério. Porque um indivíduo ou é sério (e nesse caso era um elogio), ou se não é sério, ao largo com ele! Ninguém lhe respondeu, claro.

sexta-feira, janeiro 14, 2011

A cena toda são eles!

O Cardoso Guarda e a Dona Gracinha, nos tempos de mocidade. A montagem é manhosa mas o sentimento não. Hoje, com 85 e 83, respectivamente, com saúde para dar e vender e a mandar o status da velha escola. Sem dever nada a ninguém e de cabeça bem levantada.