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terça-feira, agosto 23, 2016

desert sessions junto ao cais


"Esse medo, sendo algo que não saía, era já como um dado físico concreto: como um nariz torto, como um olho cego, como alguém que coxeia. Hinnerk não saía à rua sem o medo, não ficava em casa sem medo, não adormecia sem o medo, e mesmo nos momentos em que a consciência se tornava menos construída, quando a individualidade apresentava a estrutura mais frágil - como nos sonhos -, mesmo aí uma espécie de azedume fixo permanecia constante no meio da aparente loucura de imagens que se sucediam sem controlo, misturando espaços, tempos, possibilidades e impossibilidades."

Gonçalo M. Tavares, "Jerusalém"

terça-feira, dezembro 30, 2014

"You Come At The King, You Best Not Miss."


"A santidade, historicamente, não funcionava, e tal era, para ele, naquele momento, uma descoberta importante. O progresso depende apenas da velocidade do mal e das respostas que este provoca (...)."
- Gonçalo M. Tavares, in "Jerusalém"

quarta-feira, dezembro 03, 2014

caixa de vidro

"Quem comete um erro é excluído; é fechado dentro de uma caixa. Quem está fora vê apenas uma caixa. Mas quem está fechado, excluído, consegue ver cá para fora. Vê tudo, vê-nos a todos."

- Gonçalo M. Tavares, in  "Jerusalém"

 

segunda-feira, novembro 17, 2014

no tempo dos surdos-mudos



"A frase vem aí o homem dizia ao mesmo tempo: tu não és um homem, e dizia também: não quero ser como aquele homem."

- Gonçalo M. Tavares, in "Jerusalém"

domingo, agosto 02, 2009

"O espelho"

«O senhor Valéry não era bonito. Mas também não era feio.
Há muito tempo atrás havia decidido trocar os espelhos por quadros de paisagens. Desconhecia, pois, o seu aspecto exterior actual.
O senhor Valéry dizia:
— É preferível assim.
E explicava:
— Se me visse bonito ficaria com medo de perder a beleza; e se me visse feio ficaria com ódio às coisas belas. Assim, não tenho medo nem ódio.
E sem ser bonito nem feio, o senhor Valéry passeava pelas ruas da cidade, olhando, com atenção, para as pessoas com quem se cruzava.
Ele explicava:
— Se me sorriem percebo que estou bonito, se desviam os olhos percebo que estou feio.
Teorizando dizia ainda:
— A minha beleza é actualizada a cada instante pela cara dos outros.
Por vezes, depois de se cruzar com alguém que desviava os olhos, o senhor Valéry, percebendo, passava a mão pelo seu cabelo, penteando-se ao mesmo tempo que procurava um outro rosto dentro de si próprio, agora mais agradável.
O senhor Valéry comentava, em jeito de conclusão:
— O espelho é para os egoístas.
— E o desenho? — perguntaram-lhe.
— Hoje não há desenho — respondeu o senhor Valéry, e despediu-se logo de todos com um movimento brusco, mas gentil.
As pessoas gostavam do senhor Valéry.»

- in 'O Senhor Valéry' de Gonçalo M. Tavares