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sexta-feira, abril 08, 2022

díptico

I

Caminho, pequeno, entre quelhos e ruelas.
Assoberbam-se prédios românicos defuntos
à minha volta, à minha passada. 
Não fazem mal. 
A catequese está quase a começar.
É sempre Outono. O céu cinzento.
Joga-se à bola nos paralelos
dos intervalos da catequese.
Eu regresso a casa dos avós pelo caminho
de onde vim.


II

Saio da escola, pequeno. Enfrento a avenida.
A mochila excede-me. Não se ouve vivalma.
Toda a gente vai na direcção de onde tem de ir
Sem se importarem. Eu não me importo.
Não faz mal.
Prefiro ser invisível e caminhar
porque caminho sozinho.


sexta-feira, dezembro 24, 2021

areia do mesmo chão

" [três]

nos dias que são dias
paramos diante
de torres invertidas
de tragédias imorais
de um reflexo na água
como se fossem
a mesma Coisa

são a mesma Coisa
as tragédias e os seus inversos:
são da mesma matéria
e têm iguais densidades

o amor tem
a densidade da tragédia
e às vezes
o mesmo cheiro

nasceu do mesmo
pedaço de terra"

Maria Beatriz Seabra, "Caminhar em Terra Mole"


terça-feira, fevereiro 09, 2021

I’ll keep you safe and sacred / just keep your heart close to mine

09 de Fevereiro. O dia amanhece antes de nascer, o que só acontece depois do sol se pôr. Como quando nos juntávamos para celebrar o teu nascimento. Celebrá-lo-ei sempre, e não o aniversário da tua partida, precisamente um mês depois de a parabenizarmos a ela, que ainda hoje pergunta por ti e quando te vais deixar de brincadeiras e regressar a casa.

Sabes? Nós não importamos. Ninguém importa ou se importa. E é uma merda que já não possa ir para o monte encenar histórias até ao anoitecer, nem tu estejas em casa, a dormitar à minha espera. Não importava que não existisse mais ninguém. Nós chegávamos.

Ficar homem não é tão difícil quanto pensava, mas dói muito. Ter medo, dói muito. Apesar de me teres dito que não havia mal nenhum em ter-se medo, que toda a gente tinha. Que tu tinhas. Eu não queria ter medo, e por isso entrava pelo mar bravo adentro, a desafiar as ondas capazes de me derrubar.

Nos dias que correm, acho que nunca houve tantos medrosos como agora. Já não somos só nós. E os loucos que desafiam a natureza, rapidamente se arrependem, porque não têm ninguém que os arraste pela mão, do mar para fora. Do lado de lá da praia, há os que se escaparam a escolher, e se divertem com a indecisão de quem como nós, ficou pelo caminho, no areal. A fazer o melhor que podem.

Pelo caminho, a meio, é onde quero fazer a minha casa. O mais perto possível da saudade que tenho de ti.


segunda-feira, outubro 15, 2018

os nomes têm sombra?

dar nome é dar vida.
(dar à luz?)
caminho entre sombras,
logo,
estarei vivo.
caminhando ensombrado.
perdoa o meu nome.
eu peno
porque me condeno
e não por ser condenado.

terça-feira, outubro 09, 2018

curtas

são poemas com pessoas lá dentro.
mesmo quando são uma merda.
comprimidos pela azáfama do tempo
que a imaginação não nos nega.

segunda-feira, abril 24, 2017

two faces. and counting.

"Alison, I built this whole life, I'm building a whole house just to prove to everybody that I don't love you anymore, that I don't need you, that I don't want you, that I don't miss you. But the truth is that I do. I need you, and I want you, and I miss you, and I love you, and I'm tired of pretending that I don't."

Cole, "The Affair"

"You're scared. I think you're giving up because we've made a mess of everything, and it's too complicated. If you leave Luisa now, you can't play the good guy anymore. Then you're an asshole just like me. Yeah, but maybe you're a happy asshole instead of a miserable hero."


Allison, "The Affair"


quinta-feira, abril 20, 2017