domingo, agosto 10, 2014


"Por outro lado, procedendo sem a hipocrisia social, bem sei que arrepelo a ira e espírito de facção de chauvinistas, zoilos, discípulos de Pangloss, patriotas encartados e de quantos se nutrem da fressura sagrada dos anhos que o Poder imola em suas aras. Mas a mim dá-me gosto, que mais não seja, proporcionar-lhes motivos de azedume, dado que os não considerem de meditação."

- Aquilino Ribeiro, Nota Preliminar de "O Malhadinhas"

quinta-feira, julho 31, 2014

houve ir. um imperioso ir. desenhar estratégias, contar mantimentos, montar grupo. dia após dia, à boleia das próprias pernas, à boleia do comboio, à boleia do planeta. um impiedoso ir: tirei férias de ser eu. mas na prisão da realidade só se cumprem dois dias: o primeiro e o último. quando cheguei, lá estava eu à minha espera. estático, infeliz, sem mundo e sem futuro.



"Cause you are a single grain
A mere molecule
Mistaken for a king
Lonely a simple fool"

sexta-feira, julho 11, 2014

polícias descalços & cangalheiros sem esperança

"A life. A life, Jimmy, you know what that is? It's the shit that happens while you're waiting for moments that never come."

Clarke Peters, como Lester Freamon,"The Wire"

segunda-feira, julho 07, 2014

no medicine for regret

"O coto de vela quase consumido iluminava vagamente o quarto de tecto baixo, onde um assassino e uma prostituta acabavam de ler juntos o Evangelho".
- Dostoyevsky, in "Crime e Castigo"



segunda-feira, junho 30, 2014

tristeza com filtro de califórnia



"Mas agora que cantei da tristeza
não observo já os mais leves traços
e a minha maneira de me matar
é deixar cair ambos os braços."

Ruy Belo, "Tristeza Branda" in "Homem de Palavra(s)"

sexta-feira, junho 20, 2014

"Sou novo. Tenho por isso a razão pelo meu lado
Deixai os pássaros cantar as crianças brincar
o tempo não urge o coração não arde
Quem sou eu? Eu só e minha tarde"

- Ruy Bello, "A Minha Tarde" in "Homem de Palavra(s)"

quarta-feira, junho 18, 2014

como os cães, eles sentem os medos. mostra-lhes o cenho. arrebenta-os.

 “I was having more and more shows where I was spending time thinking ‘What am I doing here?’ Not in an ‘I’m not enjoying this’ kind of way, but more in a supreme state of self-consciousness. Like, ‘It seems really weird to be on a stage with people staring at me.’ ”
Bryan Herweg



(negar o absoluto. sentir o medo ser sentido. a tornar-se para sempre. no pelicano. pródigo regresso)

sábado, junho 07, 2014

pós-gótico tropical

"I can't say the job made me this way. More like bein' this way made me right for the job. I used to think about it more, but you reach a certain age, you know who you are. Now, I live in a little room out in the country behind a bar... work four nights a week... in between I drink. And there ain't nobody there to stop me. I know who I am. And after all these years, there's a... victory in that."

- Rusty Cohle, em "True Detective"

terça-feira, maio 27, 2014

Parabéns Embaixador!

Ouvi falar do senhor há pouco tempo, e tenho pena. Nunca o vi ou conheci, e com mais pena fico. Tenho para mim que me dedicaria a atenção, a paciência e as gargalhadas que dedicou a todos aos alunos, aos seus pares, aos seus amigos e colegas durante décadas e décadas. Décadas e décadas, sim escrevi bem. Um homem, sem pretensões de instituição, que até ao fim dos dias dançou de sorriso na cara, e nunca quis mais nada para além isso. O mesmo homem que levou uma dança de chão para uma dança de céu. Desde a fundação, à divulgação, à passagem de testemunho. E a tratar cada parceira como a única e derradeira rainha. Todos podem dançar, todos devem dançar: ensinou ele. Deu o exemplo a dançar até ao fim da canção, com vitalidade e alegria de viver. É das últimas grandes lições que aprendi recentemente: é possível viver intensamente, viver com o corpo todo a transpirar vida, pronto para se enraizar em tudo e para saltitar sem nada atrás. A alegria como um fim em si mesmo, à mão de semear e fácil de obter, despendendo o mesmo carinho que merece qualquer coisa bela e delicada.
A dança dele não podia ter sido outra senão o que foi. Todos nós devíamos dançar como ele: como se a nossa felicidade dependesse disso. Afinal, a vida é mais dança do que jogo.
Faria hoje 100 anos. Faleceu aos 94. Um bem haja Embaixador: saltaste o mundo todo, nem o Lindy himself, conseguiu semelhante.


(Eis Mr. Manning aos 91. Um século a atrapalhar mas sem atrasar a precisão e graciosidade dos movimentos.)




(E claro, a que no entender dos entendidos é e será a melhor coreografia de Lindy Hop alguma vez filmada. Coreografada, mas não creditada, a Mr. Manning, que também a executa no seu fato macaco. Tinha 27. E em 1941 como em 2014 ainda deixa qualquer um burro)

segunda-feira, maio 26, 2014

10 anos após Gelsenkirchen - as Europeias que interessam


26 de Maio de 2004. Portugal preparava-se para receber o Europeu, Mourinho continuava o ultimate bad ass, os portistas amaldiçoavam o Scolari à Bella Gútman por não convocar o Baía, o Carlos Alberto ainda podia ser o próximo Ronaldo (o original), e o Ronaldo (o "Xianinho") ainda jogava no Sporting com um penteado maravilhoso. Há 10 anos atrás, a Alemanha viu uma equipa portuguesa vencer uma equipa francesa, após uma fulgurante caminhada que passou pelo "abate" dos ingleses do United, e dos super-hermanos do Depor. Era Portugal num pedestal e pôr o resto da malta toda às vénias.Há 10 anos atrás, fomos pela 2ª vez em dois anos à final da competição europeia em que estávamos inscritos. E ganhámos. E se em 2003 foi uma batalha, a suar até ao último segundo, em 2004 foi limpeza. 3 - 0. Indiscutível, indefensável, sem argumentos. Tão limpinho, que o Mourinho nem lhe deu para outras tonterias á excepção de beijar o caneco. Mais uma prova do toque divino de PdC, Jorge Costa e Baía entram no altar das lendas, Deco transforma-se em mais um D. Sebastião prestes a embarcar, e uma data de heróis, de ilustres desconhecidos e ninjas, que ficam para sempre ligados à (verdadeira) última grande vitória do futebol português.