sexta-feira, dezembro 31, 2021

wolves in the throne room

 a arte ou imita a vida ou não imita merda nenhuma.

já a vida é uma conta de somar

de circunstâncias mais sensibilidade, ou falta dela.

traumas enlegados em cima de traumas,

de ódios de estimação e amores a camisolas.

a vida é 

uma puta duma confusão, portanto.

nos dias de hoje, a arte comanda os sonhos

e os sonhos, já se sabe, comandam a vida.

mas antigamente, no tempo que hoje desculpamos

sempre! o que é hoje indesculpável,

a vida era comandada por ambições,

legados,

sobrevivência,

ou pura mesquinhez,

que se podia rectificar no Santíssimo Sacramento 

ou no tasco com bagaços, ambos ao Domingo.

vai daí, a geração mais bem formada de sempre,

os nativos da era digital,

ou outro palavrão qualquer

que nos colem nas costas,

tem de psicanalisar o caralho destes restos analógicos,

destas heranças de moralismo jacentes

na psique colectiva lusitana, 

de que alguns cantautores conseguem sacar hits, 

mas nenhum consegue exorcizar.

netos duma sociedade fascista falida

a renderizar numa quarta dimensão

movida a vapor de lítio de grandes conglomerados,

definhamos com peste, que nem medievos.


sexta-feira, dezembro 24, 2021

areia do mesmo chão

" [três]

nos dias que são dias
paramos diante
de torres invertidas
de tragédias imorais
de um reflexo na água
como se fossem
a mesma Coisa

são a mesma Coisa
as tragédias e os seus inversos:
são da mesma matéria
e têm iguais densidades

o amor tem
a densidade da tragédia
e às vezes
o mesmo cheiro

nasceu do mesmo
pedaço de terra"

Maria Beatriz Seabra, "Caminhar em Terra Mole"


sexta-feira, dezembro 17, 2021

de férias num sítio onde nunca é agosto

Encontrámo-nos na Boavista? Por detrás dos prédios. Onde já houve uma Arena. Ou no Brasília, que pulsou os anos 80 pelos seus corredores agora vazios. Na Boavista tudo é uma novidade que acabou. Onde é sempre dia de semana, há lugar para estacionar, e o céu é sempre triste. O Petúnia, fechado para o jogo ilegal mas ainda aberto para mercearia (falava-se que o Pinto da Costa e o Pedroto eram habituais; no jogo, não nas compras), permite uma meia de leite e uma meia torrada, na sua copa. Os outros meios estão algures nos cinzeiros por esvaziar da Casa Agrícola. Que, a propósito, é o pior sítio do mundo para se evocar agricultura ou para terminar namoros. Porque o Bom Sucesso não é sinónimo de bom sucesso, na verdade, e já que falamos dele, é até um pouco feio, e fora da escala. Como o novo mercado, só que na horizontal. Um exemplo acabado da falta de alcance do significado "cidade líquida". Espelho de uma cidade curta, que se estende preguiçosa, fracturada até ao mar. Com o qual só se relaciona de nome. E onde morre com a dignidade do cemitérios dos estrangeiros, há muito esquecidos pelos locais.


quinta-feira, dezembro 16, 2021

o mais Fixe

 Lembro-me de em miúdo pensar que ele seria um óptimo James Bond, se o James Bond fosse português. Acabou por ser o Homem do Bussaco e o Scar, o que é muito mais fixe. Aliás, ele foi sempre o mais fixe em qualquer bocadinho de cena que tivesse.

Vou ter saudades tuas, como de um velho amigo. Mesmo sendo tu um dos Imortais.

sábado, novembro 13, 2021

"porque não pões um fim nessa vida sofrida?"

"Eu vivi sempre em guerra
A lamber pés de puta
Não percebo as razões
Estou perdido na mata
De cabeça madura
Sempre dando na fruta
Desta vez eu desisto
De lutar contra a merda
Eu sou feito de perda
É mais do que um desabafo
É uma voz que desperta
Um consolo de abutre
No direito à vivência
Do pacote completo
Não lamento palavras
São o meu alimento"

terça-feira, novembro 09, 2021

the stay golden

 


"We are stardust

Billion year old carbon

We are golden

Caught in the devil's bargain

And we've got to get ourselves

Back to the garden"

domingo, setembro 26, 2021

o insustentável peso da ausência de cor

"As pegadas não são as marcas dos nossos pés, são as marcas das nossas paixões, das nossas obrigações, dos nossos castigos, dos nossos prazeres. São o lugar por onde andamos, e isso revela muita coisa, mais do que impressões digitais e biografias oficiais. As pegadas, por vezes, deixam pássaros atrás delas, outras mostram quem pisamos, evidenciam quem seguimos. As pegadas de Isa eram, sobretudo, os seus pés atrás de Aminah, revelando a sua enorme devoção. As de Aminah eram, sobretudo, os seus pés a afastarem-se de Isa, revelando a sua enorme vergonha."

Afonso Cruz, "Para Onde Vão os Guarda-Chuvas"


quinta-feira, setembro 02, 2021

Nils & Bianca

 


Como era, mesmo? Lembras-te? Algo do género de estudar até à 1h ou 2h, num quarto que nem uma cela, iluminado por um candeeiro que fixava a temperatura em 40 graus centígrados. Sem aragem. Com janela aberta! No beiral, eu, de cigarro (sempre) absorvia as luzes dos carros que passavam e a imagem dos estudantes, para quem o Verão já existia. Pensava em ti. Sempre. Mesmo não sabendo de ti, mas sabendo de cor os passos que estarias a dar. Sentava-me, novamente, à secretária, e tu comigo. No computador, sucediam-se conversas triviais com quem achava estarem condenados como eu, só que não, não é? As pessoas nunca são o que escrevem, quando as lemos, são mais um letreiro do que uma carta. No tampo da mesa, a matéria pousada: a mesma da primeira fase, em que reprovara. E eu para ali, de porta e coração trancados por dentro, por falta de alternativa, à custa de vistas curtas e um pescoço torto. Sem esperança, por só saber ouvir música triste.