segunda-feira, maio 13, 2019

O Round 2 perto do fim e nós, nas cordas, a aguardar o empate técnico

Breve

Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me «bom dia» mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da 
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda hei-de esquecer-me de ti.

Rui Costa, "Mike Tyson Para Principiantes"


quinta-feira, maio 09, 2019

enmadeirados

são saudades. ou só saudades?
de qualquer forma pesam como chumbo
num aquário, onde esvoaçam peixes.
lá no fundo, são bonitas
e nós prezamos a beleza
a ancorar-nos a vida
e os sorrisos.
não denoto sofrimento no teu.
está luminoso como sempre 
e nunca devia ter deixado de ser.

sexta-feira, abril 05, 2019

B.O.G.

A minha insuspeita paixão pela saga Dragon Ball, não me ilude quanto à geral pouca complexidade das narrativas e moral das suas histórias (apesar da sua iconografia, do suspense, da fantasia, das lutas, etc). De resto, e apesar do amor dos fãs, a "franquia" emudeceu durante uns bons anos.
O filme "Battle of Gods" mudou este estado de coisas, à custa de uma cena em particular. Com a elegância e pujança de um clássico.

Algum contexto: Beerus, o Deus da Destruição, acorda após um longo sono, e é avisado de uma profecia na qual um ser, denominado "Super Guerreiro Deus", seria capaz de o desafiar em batalha; confrontando Son Goku, um dos poucos Super Guerreiros conhecidos, Beerus constata que o mortal, apesar de poderoso, nem sequer serve para aquecimento; Son Goku, que no final da série Dragon Ball Z ascendera acima de todos os deuses então conhecidos, e a um poder capaz de destruir um universo inteiro, resume-se à insignificância; após uma parafernália de lutas com Beerus, os personagens descobrem, através das bolas de cristal, que um Guerreiro do Espaço apenas poderia ascender ao estado de "Super Guerreiro Deus", através de um ritual no qual 5 Guerreiros do Espaço, de coração puro, transmitiam a sua energia a um 6º, o qual ascenderia a esse nível, capaz de desafiar o impiedoso e diletante Deus da Destruição.
Son Goku (obviamente) é o escolhido para ascender ao nível profetizado, e pela primeira vez Beerus encontra um adversário digno desse nome. Son Goku, porém não está satisfeito, ou entusiasmado: os insofismáveis poderes foram-lhe dados e não adquiridos à custa do seu esforço. O que diverte e intriga Beerus. À medida que o combate se desenrola, Beerus prolonga a luta o quanto pode, saboreando o desafio, mas a diferença entre ambos é notória. Incapaz de manter o estado Son Goku retorna ao seu nível básico. Beerus desinteressa-se. Cumprida a profecia, restava-lhe destruir o planeta - o seu trabalho e especialidade.

Aí entra a cena em questão: Son Goku não desiste e continua a comprar uma luta que não pode ganhar. De algum modo, através da luta, que mais não foi que um treino com Beerus, o Guerreiro do Espaço aprendeu e apreendeu a força do Super Guerreiro Deus. 
Beerus constata-lhe o óbvio: ele superou todas as expectativas, mas já não é um deus. A luta não faz sentido.
Son Goku, o mortal mais forte que os deuses, que vence por lutar para não perder, pergunta-lhe que diferença faz ser ou não ser um deus. Quando ele está ali, perante o desafio, com vontade de lutar, com capacidade para o fazer, e sem recuar.

Esta cena, para mim, é uma analogia a toda a história do desenho animado. Que ascendeu a níveis estratosféricos de popularidade e relevância, e se quis reinventar, com o que aprendeu, para ser melhor, para não parar de lutar. Porque o status quo, mesmo para um "deus" nada significa, quando não se está disposto a lutar por mais, e a aprender com quem é melhor.

Dificilmente um desenho animado ensinaria a adultos e graúdos uma lição de motivação tão valiosa. Sobretudo uma que já tanto nos deu.


segunda-feira, abril 01, 2019

"não é verdade. é metade de um coração."

a meio da ponte, num passou bem
como os homens da wish you were here
desejamos estar ali.
desejávamos estar ali
a arder por dentro, e não num passou bem
passamos bem
passamos
e não há bem nenhum




quinta-feira, março 21, 2019

estudos, esboços & esquissos

Uma rima não é o meu mambo.
Eu vivo para cantar, mas não sambo.
Todo o esforço é inglório quando
És um escanzelado com uma fúria de Rambo.

Uma rima no tempo da adolescência
Era a arma para vomitar a essência
Do que nem às paredes gritava. Paciência!
Hoje calo-me por conveniência.

Quem é que quer enfrentar demónios todo o dia?
Chapar no espelho uma cara que não dormia
E não mostrar a mais ninguém, por simpatia?
Fica sempre na gaveta a melhor poesia.

Eu escrevo esta letra por medo.
Falo demasiado para poder guardar segredo
De ser figurante nesta vida
Protagonista do meu degredo.

Rimar de punhos bem fechados: é a cena.
Vociferar contra o Estado
Como se fosse culpado
ou se o Estado fosse a cena.

Engrandecer o inimigo
Para enobrecer a sua queda.
Mas quando eu combato, meu amigo,
É para continuar na merda.

Para carregar o peso duma luta sem sentido.
Ou a de todos aqueles que estão a contar comigo.
Em cada passo em frente, sinto o peso desses mundos.
Tenho de me rir se me vejo como o Atlas de Milhundos.

terça-feira, março 12, 2019

quanto mal mereço?


Não pelo todo, meu amor.
Avalia o que eu te diga pela capa.
Pela aparência. Pela rama.
Desliga-te do corpo encorpado.
Ignora a carga dilacerante do discurso.
Tudo se resume à pergunta
Que dei de barato em primeiro lugar.

quinta-feira, fevereiro 28, 2019

um sonhador sem qualidades



um sonhador sem imaginação. sem meios, sem ambição. oportuno para ser ladrão.
um homem sem qualidades pode ver as maiores verdades sem receio de inimizades.
ser ou não ser mesquinho não é marco para o seu caminho. viver é algo que se faz sozinho.

domingo, fevereiro 10, 2019

indie not


Será mais que falta de jeito. Mas eu não tenho jeito para perceber o quê. (Aqui, quem tem a técnica és tu.)
Não posso fazer de conta que não sou quem sou. Ou que não tens um olfacto sensível para as inseguranças do mundo.
Estas qualidades, ou falta delas, expõem-nos muito. Não sou optimista o suficiente para crer que supero este obstáculo.
Está tudo bem quando acaba bem, ou até quando começarmos a ser quem somos.

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Cardoso

Estamos sós
podíamos dar uma volta
pela tarde, pela cidade.
Há pessoas à espera de um olá
e quero ouvir-te
a dissertar sobre tudo,
os teus heróis dos livros,
dos desenhos animados.
Passamos pelas missas
onde ainda há esperança,
fé num amanhã eterno.
Paramos para lanchar
eu pago-te o lanche.
Não te faltará nada.
Vemos o sol,
vemos o nosso pequeno mundo.
Quero ouvir-te cantar,
quero cantar também,
ensinar-te o que sei
sem te querer ensinar.
Podemos dar a nossa volta
e regressaremos sempre a casa
fresca, graças à cal que caiamos
na última Primavera.
O nosso campo está lá fora.
A tangerineira e a nogueira já dormem.
As galinhas e os coelhos também.
Em breve partirás para os teus pais
mas amanhã estarás aqui,
sempre comigo.


quarta-feira, janeiro 16, 2019

zero sum

"Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo, ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum."

José Miguel Silva