quinta-feira, setembro 02, 2021

Nils & Bianca

 


Como era, mesmo? Lembras-te? Algo do género de estudar até à 1h ou 2h, num quarto que nem uma cela, iluminado por um candeeiro que fixava a temperatura em 40 graus centígrados. Sem aragem. Com janela aberta! No beiral, eu, de cigarro (sempre) absorvia as luzes dos carros que passavam e a imagem dos estudantes, para quem o Verão já existia. Pensava em ti. Sempre. Mesmo não sabendo de ti, mas sabendo de cor os passos que estarias a dar. Sentava-me, novamente, à secretária, e tu comigo. No computador, sucediam-se conversas triviais com quem achava estarem condenados como eu, só que não, não é? As pessoas nunca são o que escrevem, quando as lemos, são mais um letreiro do que uma carta. No tampo da mesa, a matéria pousada: a mesma da primeira fase, em que reprovara. E eu para ali, de porta e coração trancados por dentro, por falta de alternativa, à custa de vistas curtas e um pescoço torto. Sem esperança, por só saber ouvir música triste.

terça-feira, julho 13, 2021

arcade fire na faup chapter 1

 caía a ficha: ainda ninguém passara a laika.

a música que eles ouviam nas directas de entrega.

o pessoal ia saltar como os seus dedos 

rasgavam alçados nas folhas brancas.

Mas arcade fire não é indie meio beto?

o will butler é um génio, foda-se. quem é este gajo?

ele não estuda aqui. deixa-o estar.

um bando de amigos improvável um ano antes

fielmente acompanhado por um penetra,

opinava apaixonadamente enquanto dançava

sobre se papa roach ou offspring seriam bons

para suceder na lista aos génios de neon bible.

os tipos não gravaram um álbum, tipo, numa igreja para

tipo, estarem encafuados entre punks e nu metaleiros de quinta

diz lá quando é o sporting-académica, e cala-te.

Hoje não há jogos - respondia o novato, alheado do código.

Pois, claro que havia. Jogava-se em casa.

Ninguém emigrado, todos por perto.

Irmãos ainda antes de ser amigos.

Num armário envelhecido cai 

um post it para me lembrar 

de arcade fire na faup.

sexta-feira, julho 02, 2021

band of every man for himself

 


Cresci sob a ameaça de perder os meus amigos no final de cada ano lectivo ou ciclo de estudos, ou na iminência de uma mudança  mais significativa na minha vida. Nessas alturas, concretizava-se o receio de ser traído que, durante esses períodos tentava emudecer. Afinal não eram amigos, nem leais, nem bons colegas, e queriam seguir a sua vida para um sítio sem mim. Envelheci sob a necessidade de me reinventar. De conseguir antecipar essas mudanças de ciclo. Mas quando os ciclos são tão longos, ao ponto de não se conseguir distinguir a sua origem, como na trajectória de um cometa, dificulta a preparação para inevitável partida.
Uma vez, todo moca, observei que os avós não têm amigos, só família. Os amigos ou se afastam, para as respectivas famílias, ou morrem. Como resposta ouvi que, embora o meu ponto fizesse todo o sentido, era demasiado cedo para uma pessoa fazer algo para evitar tão trágico estado de coisas. Toda a gente se riu. Talvez não fosse assim tão cedo. Mas já tarde demais.

sexta-feira, maio 14, 2021

diamond eyes pt ii

Os olhos claros fazem-te perder o norte. Sejam azuis cor de céu, ou verdes translúcidos, pérfidos como o ciúme. Ou até castanhos aos quais as lentes de contacto tenham conferido tonalidades outonais de dourado. Sempre a mesma armadilha escondida em cada "não" proferido como um "talvez", em cada sorriso lânguido às piadas da vida, mas que se encerram na despedida, como se a ansiassem. Como um tolo no meio da ponte, voltas ao início da travessia, quando achas estar a chegar ao lado de lá. Inglório labirinto de espelhos em que carregas a culpa de querer ser feliz, mas te divertes como um catraio ante a visão do que o mundo tem de mais belo.

quarta-feira, maio 12, 2021

terça-feira, março 23, 2021

A reter

 De onde tinham vindo os eucaliptos?

O pai plantara-os na sua ausência, durante a recruta. Mas, confrontado, o velho negara. Os eucaliptos sempre ali tinham estado, dissera-lhe. Que já o seu paizinho os havia plantado, e que ele se limitara a acrescentar mais alguns. Era árvore que crescia rápido, e garantia bom dinheiro. Ele discordara. Não se lembrava daquelas árvores ali. Iam secar tudo. As pereiras, as nogueiras, a horta. Iam dar cabo do quintal do avô. O pai mandara-o deixar-se de merdas.

Pela primeira vez, desde que se lembrava, sentira o terrível poder da mudança. Inelutável e irracional. Avassalador triturador de memórias, que se tornavam cambiáveis por dinheiro. O refúgio idílico da sua infância era e não era ao mesmo tempo. Todos os dias o esperava, do lado de lá da rua, quando acordava, com uma cara e nome novos que nunca mais poderiam ser alterados.

Reprimiu o que sentia com mestria, como aprendera em casa e na tropa. Por pouco não vertera uma lágrima. As boas memórias já não existiriam no mesmo plano da realidade. Apenas a mudança e as suas consequências eram certas. Quem não mudasse nada, seria mudado. Aprendera a lição à primeira. Fora sempre bom aluno.

sexta-feira, março 12, 2021

A looser, a drunk and old man walk into a bar

Voltou a entrar no café. O pai via o noticiário da manhã de braços cruzados atrás do balcão, com a sua postura hirta e desconfortável. O Manel ria-se com os seus botões, entretido a fazer perguntas retóricas sobre tudo e mais alguma coisa. Os camionistas já tinham saído. A tijoleira do chão ressoava, por causa do nevoeiro. Estava um frio desgraçado e todos eles vestiam casaco dentro de portas. Portugal era mesmo uma merda.

domingo, fevereiro 21, 2021

hatred machine

 Na passagem da juventude para a vida adulta temos, não poucas vezes, de recalcular energias que gastamos com determinadas causas, revoltas, desgostos. Deixamos de esperar, e de fazer para, que aconteçam coisas más a quem nos faz mal. Aprendemos a reconciliar-nos com inevitáveis momentos tristes da vida, que superaremos, com maior ou menor dificuldade, sem entrar numa espiral tóxica, vingativa e de recriminação. 

Porém...

Cismas são piores que doenças. E há pessoas que podemos derrotar no próprio jogo. Ou, para ser mais exacto, no próprio desporto. Até podemos fazer isso sem dar a outra face, ou flanco. Se o Michael Jordan podia criar inimizades imaginárias para ser o melhor de sempre, porque não posso eu recorrer às minhas inimizades reais para ser melhor do que pessoas sem carácter? Ver o "The Last Dance" reconciliou-me muito com os meus demónios. Agora sei que posso competir com eles, em vez de conviver com eles até os esquecer. Que até gente com muita mais auto-estima do que eu o faz, e se dá muito bem com isso.

No final, para me superar tive de largar o vício do fumo que me atormentava há uma década (pelo menos, por agora). Ou seja, o ódio fez-me agarrar à vida. É, mesmo caso para dizer, "o que não mata, torna-te mais forte".

E essa merda é a verdadeira vitória.