quarta-feira, outubro 30, 2019

Da sinceridade


"I'm losing sleep, I'm losing friends
I've got a love hate love with the city I'm in
I'll count the hours, having just one wish
If I'm doing fine there's no point to this"

terça-feira, outubro 29, 2019

ouriço de recusas

nunca fui de falar sobre as estrelas
(tenho a cara de olhos no chão
e por via disso problemas de costas).
escrevo sobre o que sei e o que sinto.
com a mesma certeza do tempo
que mói, autoritário, a sua mó
sem se desviar um milímetro
pelo delta de leitos de pedra
que se estendem à sua frente.
o etéreo não me seduz se não o sentir na pele
como vento e o frio:
a minha imaginação voa sem limites
e vai beijar o lado de dentro
das grades do meu crânio.

no entretanto, acredita-se no caminho
que só se faz caminhando.
sem fé, o caminho não existe.
a missão faz-se pelo caminho que se escolhe.
o caminho é uma religião.
que também aceita não-praticantes.


quarta-feira, outubro 23, 2019

"não sejas mimelo, Pedro"



"Just a simple conversation
About nothing much at all
Couldn't keep me in the room
I just kept walking
Down the hall
But now I understand
Just what a fool I'd been
No matter what the context
I won't have that time again
(And I'll live with that)"

segunda-feira, outubro 07, 2019

"Na praça há o paredão dos velhos que vêem passar a juventude; ele está sentado em fila com eles. Os desejos são já recordações."

Italo Calvino, "As Cidades Invisíveis"



sábado, outubro 05, 2019

desculpa, mas Nakata é um pouco burro, e não sabe ler.

"Eu tenho a poesia toda metida no meio
do teu silêncio, digo, o
que só cega cabe a demorar
um pouco mais a vinda da ausência que
se vem
é porque o mundo foi feito de outra forma
e nós não estávamos lá para dar a nossa
ou simplesmente sorrir.

Frio__pessoa de querer bem e
afligir cabeça de família, dinheiro
para o mês. Não consigo suportar
a palavra de o amor não ser 
um acto de vontade. Não quero vencer
porque isso seria a forma mais
discreta de emigrar e eu não quero
ser discreto, se os documentos
subidos a custo para eu poder
ouvir música, sozinho no meu quarto,
às cinco da manhã.

Que te basta perceber de mim?
(Não foi fácil descobrir que eu sou
do tamanho do teu mundo.)
Diz assim o teu mestre de yoga:
árvore, era uma vez
depois de muitas vezes descobriu
que estava presa à terra
e ao ar
e ao sol
e à chuva
e não apenas ao seu corpo.
Então a árvore teve que escolher:
ou era vaidosa ou não era ignorante.
Tu achaste nisto uma metáfora.
Eu pensei (mas não disse):
- Não é fácil ser amigo de uma árvore.
- Porquê?
- O sol, a chuva, o ar.
- Nada. Um copo de água.

E fui deitar-me na minha apetência pela
tarde até acordar com a água verde a subir-me
pelas costas. Foi simples levantar-me. Havia uma
casa mas ninguém se aproximou. Deixaram-me
reparar sozinho as consequências da que podia
nem sequer ter existido."

Rui Costa, "Como Eu Comi a Cabeça do Escorpião Budista", em "Mike Tyson Para Principiantes"


sexta-feira, setembro 27, 2019

quarta-feira, setembro 25, 2019

ser-não-vivo


"A minha vida acabou quando eu tinha vinte anos. Desde essa altura não tem passado de uma série de reminiscências, um corredor longo e sombrio que não leva a lado algum. Contudo, não tive outro remédio senão continuar a viver, sobrevivendo a cada dia vazio que passava, sabendo que vinha aí mais um dia vazio por preencher. Durante todos esses dias cometi uma quantidade de erros. Não, isso não é correcto - às vezes tenho a impressão de só ter cometido erros. Sentia-me como se estivesse a viver no fundo de um poço fundo, completamente fechada dentro de mim, amaldiçoando o meu destino, detestando tudo à minha volta. De quando em quando, ganhava coragem e atrevia-me a sair de dentro da minha casca, encenando aos olhos dos outros uma existência digna desse nome e celebrando o facto de estar viva. Aceitando o que me aparecia à frente, arrastando-me penosamente, amorfa, pelo mundo, sem sentimentos e fazendo pela vida. Dormi com muitos homens. Cheguei mesmo a viver uma relação que era uma espécie de casamento, mas sem nenhum significado para mim. Acabou tudo num instante, sem nada para contar a não ser as cicatrizes deixadas por tudo o que deitei a perder e desprezei."

Haruki Murakami, "Kafka À Beira-Mar"

terça-feira, setembro 24, 2019

"I took the mother road / down to goddess flesh"



"Dirijo-me ao coração da floresta. Sou um homem oco. Personifico o vazio que devora tudo o que tem substância. Por isso nada há a temer. Absolutamente nada.

E dirijo-me ao coração da floresta."

Haruki Murakami, "Kafka À Beira-Mar"

quinta-feira, setembro 19, 2019

Do que eu tenho saudades, ex-amor,
É do tempo
Que ora jaz entalado entre dois arquivos
um mais morto que o outro.
Era tempo,
e não talento,
o que eu tinha a sobrar-me nas mãos
nas pachorrentas tardes
a meio da semana
no Porto deserto.