sábado, maio 23, 2020

A desconfiança como método.

"É de ficarmos pasmados. Se os erros «mais comuns» de português chegam a 500, então os erros comuns e os menos comuns hão-de orçar pelos vários milhares, e o idioma seria um campo de minas, onde cada deslocação centimétrica levaria ao desastre. Mas, que fazer, as sacerdotisas e os sacerdotes do Erro são gente empenhada, sempre a segurar-nos pelo braço, não fôssemos nós afundar-nos num precipício.
(...)
Esta convicção de ser um instrumento irremediavelmente adulterado aquele com que nos exprimimos é, se virmos bem, comum a todo este clã, qualquer que seja o grau de ingenuidade ou de charlatanice. Caracteriza-os a desconfiança como método, que só convém incentivar a insegurança generalizada no utente. Aos olhos destes novos normativistas, tudo quanto no idioma não for lógico, racional, arrumadinho, feito a régua e esquadro, é banido como incorrecto, impróprio, condenável. O velho mantra «A língua está enferma» motiva-os, a todos, na nobre missão de nos desmoralizarem."

Fernando Venâncio, in "Assim Nasceu Uma Língua - assi naceu ũa lingua"

domingo, maio 10, 2020

insaites

- o que é surpreendente, e difícil em ti, é que tu não esqueces.
- sim. por norma perdoo, mas não esqueço.
- isso assusta qualquer um que lide contigo.
- é como carregar o peso do mundo.

 

terça-feira, abril 21, 2020

A Chegada a Hollywood

Os isolamentos atingem-me no goto, como se fossem uma bola demolidora, e o goto um saco lacrimal. Fico mais susceptível que uma grávida a ver os "Love Actually" desta vida.
(Disse isolamentos porque desta vez foi este distanciamento social a ditar os metros de distância dum calor humano qualquer. Normalmente são fins de paixões assolapadas, tapetes profissionais tirados debaixo dos pés e o diabo a sete. Tudo eventos que me remetem para um canto escuro a fim de alinhar os chacras.)
O que me comoveu, vou partilhá-lo antes que me perca na logística das omeletes e arrozes de tomate. Uma série sobre um programa televisivo de luta livre feminina, em que o realizador escolhido para dirigir o projecto é um frustrado, sensação série B dos anos 70, que ainda não percebeu que os 80 já vão a meio. Ao longo de três temporadas, vemos este estranho clone de Stan Lee, amargo mas apaixonado, severo mas disruptivo, a ambientar-se a uma zona fora do seu conforto, a apaixonar-se, a reinventar-se profissionalmente, a descobrir que tem uma filha, que o idolatra desde criança, e que, por sinal, tem muito mais talento do que ele.
Chega, então, o momento de poder ser o pai presente que nunca quis ser. Presente nas reuniões de trabalho, das quais a filha impaciente quer baldar-se para fazer as coisas como ele fez na sua idade. Ele não deixa, insulta-a, não a quer ver desperdiçar talento, nem que para tal tenha de ir ao beija-mão de todos quanto desprezou nos seus tempos áureos. Quando a busca começa a compensar, e os resultados a aparecer (afinal a qualidade tende a ser recompensada), o homem tem um ataque cardíaco. Não houve uma queda aparatosa. Não houve um "amo-te minha filha". Nada. Apenas uma estóica atitude de "não vais foder tudo agora, morte".
Aguentado o tempo suficiente para dar as chaves do carro à filha para ir festejar sozinha a sua conquista, pede a um traseunte qualquer que lhe chame uma ambulância. Fintou a morte por pouco, e à filha nem uma palavra. Diz ao médico que não tem a quem contactar. Regressa a casa, e a miúda não lhe perdoa, no trato execrável que lhe herdou, não ter ido celebrar com ela. Ele manda-a foder. Ela quer que ele realize o filme dela, e não aceita que a sua carreira comece de outra forma.
E comovi-me. Com este simples, e caricato exemplo, de homens e mulheres que vivem a vida a achar que merecem tudo de mau, porque deram tudo de mau que tinham, e aguentam  até a morte, para fazer algo certo por quem ainda tem a vida toda pela frente. Não é mentira que este sofrimento solitário leva a muitos mais fardos, e não poucas vezes se revela um ridículo desperdício de energia emocional, evitável se as pessoas falassem, sem medo, do que sentem.
A cena é que os velhos não falam de sentimentos. Amam, fodem tudo, e orgulham-se quando acertam, pelo menos uma vez. Normalmente, só se gabam quando a velhice lhes vence a casmurrice.

sábado, abril 04, 2020

"tudo o resto são descrições"


"A atitude  de fundo, nas páginas que se seguem, é a de objectificar as palavras, encará-las como criações, como soluções, o que elas, como produtos históricos, deveras são.
(...)

Anote-se , de passagem, a originalidade da palavra luar. Ela existe em português, existe em galego, mas não a achamos noutras línguas europeias. Em espanhol diz-se luz de luna, em catalão llum de luna, em francês clair de lune, em inglês moonlight, em alemão Mondlicht, em neerlandês maneschijn. Em suma: enquanto luar é um conceito, tudo o resto são descrições."

Fernando Venâncio, "Assim Nasceu Uma Língua - assi naceu ũa lingua"

sexta-feira, abril 03, 2020

o tempo não está para brincadeiras

à espera que o nada aconteça
para eu acontecer sem mais nada
não que solução não apareça
ou que se concluiu esta jornada.
mas eu estou sentado nesta mesa
a rever os dias da minha agenda parada
e a angústia que o meu medo professa
acomoda-se na insónia da noite passada.

segunda-feira, março 23, 2020

"falta cumprir-se Portugal"

"- Já é tempo de acabar o século do rato e começar o da andorinha - disseram os mais resolutos. E de facto já sob o torvo e mesquinho predomínio dos ratos se sentia, entre a gente menos à vista, incubar um movimento impetuoso das andorinhas, que apontam para o ar transparente com um ágil golpe de cauda e desenham com a lâmina das asas a curva de um horizonte que se alarga.
Voltei ao cabo de vários anos a Marozia; a profecia da Sibila considera-se cumprida há muito tempo; o velho século está enterrado; o novo está no auge. A cidade mudou, claro, e talvez para melhor. Mas as asas que vi por toda a parte são as de desconfiados guarda-chuvas sob os quais pálpebras pesadas se baixam sobre os olhares; há gente que julga voar, mas já é muito se se elevarem do solo desfraldando balandraus de morcego."

- Italo Calvino, "As Cidades Invisíveis"

segunda-feira, março 16, 2020

prison blues

As rodas dentadas da existência
desaceleram
de vagar
sem ningém acreditar
que páram.
O mundo não mexeu
dali.
O pânico revelou-se mudo.
Tudo acontecia.
Tudo tinha acontecido.
Nada de respostas.
O Dr. Manhattan
no início e no fim.
A roupa de uma gaja
qualquer no meu corpo
e o cheiro das drogas dela
no meu cabelo
com tinta cor-de-rosa
escorrida das paredes
para o interior da série
que estou a escrever.
Será incrível
o teu potencial
que todos vêem
mas em que ninguém acredita.
Esta conversa que travas contigo mesmo
dá-te vontade de fazer perguntas,
não dá?
Por que começas os teus argumentos
e as tuas desculpas
com um não?
Isto é um poema,
uma prosa
ou um post de facebook
sobre a falta de civismo dos portugueses,
questionamos-te.
Um gole de vinho
e uma cozinha
por arrumar.
Não acabaste as descrições.
Ou as alucinações.
Isto não são "Os Maias".
Isto não é português.
Isto não são as drogas
na tua língua
ou a minha língua
entre as tuas pernas.
Um chapadão de resposta
que tens de dor
das algemas que esquartejam
os teus membros
presos e esmagados
pela feroz realidade
dos quatro pontos cardeais.
É o medo.
Aqui, mesmo.
Ausência de movimento.
O mundo sabia
e não estava preparado
O teu pai não acreditava
Agora não o vês.
E não tem mal
porque assim não existe.
A traição aos teus
lembra-te a gravidade
a puxar-te rumo ao chão,
de entre todas as forças
para todos os outros lados.
E
mais uma vez, Pedro Ribeiro
Conseguiste aquilo que pediste,
e tão pouco fizeste por merecer:
Solidão;
Um quarto fechado
com todas as memórias
de todas as mulheres
com quem fodeste
a foderem-te ao mesmo tempo
na mesma foda
na mesma febre
que não tens
porque não tens sintomas
nem imaginação
nem inteligência
ou trabalho.
O mundo não parou,
parvinho.
Só tu.

Borrado de medo.
A fazer de Deus.

quarta-feira, fevereiro 12, 2020



planas superfícies paralelas
espelham espelhos
no quarto sem graça
dum narcisista derrotado.

o quadro do futuro
a pendurar
estará pintado com píxeis
cor de mentira.

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

atirar porcos a pérolas

a poesia
não se pode resumir
a merdas bonitas
escritas em tom
afectado.

não pode ser poeta
quem se fica
e declama como se fosse
às raízes da comoção.

domingo, janeiro 05, 2020

2019


"Um dia eu conheci o meu amor
Lá no miradouro do Adamastor
Eu já não me lembro porque é que a gente se zangou
Mas fiquei contente quando ela se casou
Eu acho que quando um gajo é um gajo fixe
Há pessoas que fazem tudo para te ver feliz
Mas um dia essas pessoas vão embora, G,
Porque elas deixam de acreditar em ti"